BICHAFORK: Kali Uchis – "Isolation"

Desde a primeira vez que eu me deparei com a voz sensualmente preguiçosa (mas não menos soulful) da Kali Uchis nos versos despojados e cheio de swag de “Ridin Round”, eu percebi que havia um potencial ali que a diferenciava de toda essa leva de cantoras alternativas que povoam a esfera musical da era do streaming. Mas… é… faltava espaço para que a Kali desenvolvesse esse potencial, já que suas mixtapes passadas tinham um aspecto limitado e seus lançamentos durante um tempo a partir daquele ponto foram bem mais comedidos e resumidos a alguns singles esporádicos.

Toda essa linha de pensamento do parágrafo acima se passou durante o longínquo ano de 2015, quando eu esbarrei sem querer em alguns clipes da Kali no youtube – e tudo isso parece extremamente distante agora que a cantora finalmente conseguiu lançar seu álbum de estreia, o “Isolation”, que em 46 minutos consegue dar o espaço para a expansão de suas capacidades musicais, o delineamento da sua versatilidade de navegar entre gêneros e, não menos importante, o enfim desenvolvimento do seu potencial e visão artística.

Para entender melhor a Kali, é preciso primeiro entender um pouco do seu contexto criativo e do universo imagético-musical que ela moldou desde os seus primeiros lançamentos mais tímidos. Apesar de ter nascido em solo americano, a cantora viveu boa parte de sua criação entre os Estados Unidos e o país de seus familiares, a Colômbia, o que explica o fato de que ela sempre busca representar um pouco de suas raízes latinas nos seus trabalhos – seja em seu estilo, que mistura uma atitude meio chola e meio chica fatale, seja em sua sonoridade, que pulsa quase sempre por humores ensolarados e vibrantes. Não bastasse esses fatores cheios de crossovers, Kali também gosta de criar uma atmosfera retrô sutil ao seu redor, o que é facilmente identificável ao analisar muitas de suas escolhas estilísticas e sonoras em todos os seus lançamentos até aqui. Todos esses aspectos estão bem vívidos no “Isolation”, e é essa questão identitária forte que se consagra como o trunfo do álbum.

A musicalidade retrô está presente no trabalho desde a faixa de abertura, a intro “Body Language”, que busca inspirações na lounge music e também na bossa nova brasileira, criando uma experiência que parece saída diretamente de alguma compilação de canções easy listening dos anos 60 ou 70. O throwback também parece ser a ordem certa em faixas com tom alinhado ao soul e r&b, como “Flight 22”, “After the Storm” e “Feel Like a Fool” – gêneros que são o acompanhamento mais perfeito possível para o vocal singular da cantora, que por sinal volta e meia recebe comparações com artistas clássicas ou contemporâneas da esfera do rhythm & blues, como Amy Winehouse (!). A força do retrô no microverso da Kali também não impede que o álbum abra espaço para o atual – e aqui temos o reggaeton em facetas mais diretas ou mais diluídas em “Nuestro Planeta” e “Tyrant”, além do pop-r&b com elementos eletrônicos, como o bass tremulante de “Dead to Me” e os sintetizadores kitsch de “In My Dreams”.

As letras são a prova do trabalho duro que a Kali dedicou ao disco – todas com construções interessantes e que fogem do óbvio, mas são sempre simples o suficiente para passar as mensagens pretendidas com fluidez e facilidade. “Miami” explora o ponto de vista da artista como ser transitante entre os Estados Unidos e a Colômbia, passando entre divagações positivas sobre o sonho americano e também linhas cheias de sarcasmo sobre a desconfiança e rumores difamatórios que sua própria família sul-americana impôs durante o início de sua carreira como cantora: “Como você paga todas essas suas contas? / Ooh, suas roupas de baixo”, reproduz com sutileza logo nos primeiros versos.

“Miami”, juntamente como “Just a Stranger”, foca-se em um eu-lírico descaradamente sensual e ganancioso que Kali narra com maestria, ajudando assim a firmar ainda mais aquela identidade chica fatal que eu falei anteriormente e que faz parte da “mitologia” Kali Uchis. Já em “Tomorrow”, assim como nas faixas supracitadas, ela endereça algumas imagens típicas do imaginário americano sobre a vida urbana latina: como prostituição, drogas e ostentação – tópicos que são abordados de forma inteligente e bem incorporada às temáticas do disco. As faixas que abordam amor e relacionamento, como “Flight 22” e “Feel Like A Fool” trazem um quê de drama sutilmente reminiscente de novelas da Televisa, sem medo de ter uma personalidade propositalmente brega/cool, o que casa muito bem com seus instrumentais quase Motown que essas músicas possuem. Por fim, canções como “After the Storm” e “In My Dreams” expandem a gama conversacional para temas como autoajuda e escapismo.

Pontuado por interlúdios que também poderiam render ótimas faixas completas, o “Isolation” sucede em conseguir abarcar essa amplitude tão grande de sonoridades e ideias sem parecer all over the place. A personalidade e objetivos bem-definidos da Kali conseguem dar uma unidade demarcada ao material, e muito além disso, o álbum se aproveita bem positivamente de todas as colaborações que surgem entre as suas 15 faixas (e que incluem nomes como Tyler, the Creator, BADBADNOTGOOD, Damon Albarn, Kevin Parker, Jorja Smith, Thundercat e Bootsy Collins). Se há um clichê da indústria do showbiz a ser dito sobre o “Isolation”, é que aqui nasce uma estrela – e a partir de agora vai ser uma experiência seguramente interessante acompanhar o desenvolvimento da Kali Uchis como artista.

Kali Uchis, “Isolation” (2018)

Gêneros: Pop, Soul, R&B, Reggaeton

Destaques: “Dead to Me”, “After the Storm”

Nota: 9.5