TRACK REVIEW: A ressurgência clubber de Azealia Banks em "Anna Wintour"

Não existe nada mais redundante do que endereçar as polêmicas e feuds da Azealia Banks, então, para o bem desse texto, é melhor cortar o papo logo de cara: ninguém se importa, estamos em 2018, blá blá blá.

Sim, a imagem pública da Azealia tem lá seus grandes problemas, mas acho que chegou a hora de confortavelmente passar por cima disso e focar na subestimadíssima carreira musical da mulher – que por sinal acabou de ganhar um novo e poderoso item de reafirmação, “Anna Wintour”, que é a primeira amostra do segundo álbum da rapper, o “Fantasea II: The Second Wave”, previsto para sair durante o verão americano.

“Anna Wintour” marca a volta da dedicação da Azealia a projetos mais concisos depois de anos de lançamentos fragmentados e faixas soltas, e muito além disso, a faixa também possui a missão divina de reintroduzir o material da artista e servir como estopim para um fresh start agora que as controvérsias midiáticas distrativas dela finalmente esfriaram. Para Azealia, a melhor forma de se reintroduzir ao público é lançando mão suas características musicais mais definidoras – e que foram a base de seus trabalhos mais aclamados – como a união de hip-hop com house music, a cadência de refrões “antêmicos”, o rap afiado e, claro, as sonoridades inspiradas muito diretamente na cena musical clubber dos anos 90.

Enquanto que liricamente o single trata do inesperado encontro da rapper com algo que vaga metaforicamente entre o amor verdadeiro e a existência Deus (e nesse caso “Deus” parece ser algo bem plurissignificativo), carregando tudo isso com muitas referências estilísticas que uma faixa com esse título não poderia deixar de ter, sonoramente “Anna Wintour” incorpora as batidas cruas de “Reschooling” do produtor Lone e adiciona toda uma camada de bass sutil e synths poderosos à construção instrumental, fazendo a música transitar entre um humor mais soturno em seus versos e mais high energy no refrão.

O destaque vai para os próprios vocais da Azealia, que conseguem preencher com facilidade as necessidades tonais que a faixa possui. É interessante notar como a artista parece cada vez mais segura com sua voz cantada, mostrando no refrão o que seria o seu tom mais “natural” – um contralto poderoso e grave que deixaria Grace Jones orgulhosa. Indo além, o single ainda carrega outros momentos vocais bem típicos da Banks, como os gritos em filtro high pass que já povoaram alguns de seus singles, como “Yung Rapunxel” (e que são conhecidos pelo público pela icônica performance do megafone), e por fim o rap que não desperdiça os claros talentos que a gata possui com composição de rimas, entonação e flow (rendendo até uma desnecessária farpa para a Cardi B de acordo com anotações no genius, mas prefiro acreditar que essa não foi a real intenção, ok?).

Interessante notar, “Anna Wintour” soa muito como uma evolução natural do som que a Azealia fez em sua última mixtape, a “Slay-Z”, parecendo uma versão mais bem sucedida de conceitos que a AB já tinha tentado em faixas como “Queen of Clubs” – mas dessa vez encontrando terreno muito mais fértil para que o público possa vir a apreciar amplamente.