BICHAFORK: Kylie Minogue "Golden" / Kacey Musgraves "Golden Hour" (Resenha Dupla)

Kylie Minogue, “Golden” (2018)

Gênero: Pop, Country

Destaques: “Music’s Too Sad Without You”, “Raining Glitter”

Nota: 6.5

Kacey Musgraves, “Golden Hour” (2018)

Gênero: Country, Folk, Pop

Destaques: “Oh, What a World”, “Slow Burn”, “High Horse”

Nota: 8.8

Alô, galera de Caubói!!! Sabemos que muitas de nossas leitoras são simples camponesas interioranas familiares com o suor do trabalho braçal na roça e, é claro, com a fivela gelada do cinto de couro daquele primo de primeiro grau que lhe(s) tirou/tiraram o(s) cabaço(s). Assim, decidimos homenagear vocês, nosso maravilhoso público de Piracicaba a São José do Rio Preto a Goianinha até Itabira com muito sertanejo. Pega a pinga e o maço de cigarro de palha e vem com a gente para a primeira e pedantíssima RESENHA DE DISCOS ou BICHAFORK: resenhas estas que serão publicadas regularmente neste maravilhoso bloguinho. Claramente temos a pretensão de, ironicamente ou não, nos tornarmos uma referência de bom gosto e sofisticação musical; praticamente a Pitchfork brasileira, só que escrita por POCS. Poc sabe bem o que poc quer.

E já que poc sabe bem o que poc quer, vamos de #fatos? Ninguém tem mais saco pra country não. Especialmente em atuais conjunturas sociais de avanço conservador num contexto global ET CETERA não estamos aqui pra dar aulão de política mas é vívido o fato de que raízes & tradições da música country não são lá muito inclusivas; e a submersão de parte da cultura pop atual nessa sub-cultura majoritariamente branca/reaça meio que nos foi forçada garganta abaixo. Equivocadamente creditada como pioneira dessa onda, a era “Joanne” de Lady Gaga tornou-se, na realidade, a catalisadora do grande boom de crossovers entre country e pop mainstream. “Joanne” tinha pouco dos malabarismos narrativos das letras country e suas melodias eram tão simplistas que casariam com quaisquer outros arranjos – era, basicamente, um álbum pop. Entretanto, a narrativa íntima somada à roupagem fiel ao pasto, aos bois, às vacas e à vida da fazenda vendeu muito bem o produto; ocasionando até a surpreendente recepção calorosa do público fora do nicho LGBT – que, até então, pagava aproximadamente 75% das contas da Gaga (Fonte: DATACU). Agradando gregos e troianos que nunca haviam prestado atenção em sua música antes, Gaga era uma prova imediata do quão lucrativos os “álbuns pessoais” de uma cantora pop poderiam ser, especialmente se alinhados numa extensão de música e imagem alheia ao lugar-comum do pop super-produzido; embora, claro, mantenha seu quê radiofônico. O country é rentável como isca para expandir público pois atrai um nicho muito distante dos jovens e/ou minorias: a velharada, a mãe alienada, o pai republicano/conservador, a tia alcoólatra, o primão homofóbico, entre outros. Se o material for passável, esse pessoal aí vai validar por um bom tempo a hipotética nova gatinha do country como um ato de mais identidade do que os outros da Billboard Hot 100. Época de ‘pink money’ já era, gays: agora o negócio é ‘redneck money’.

Nas duas últimas semanas, tivemos dois importantes lançamentos do pop: o 3º álbum da ‘underdog’ progressista do country Kacey Musgraves, “Golden Hour”, e o 2383º disco do cristal Kylie Minogue que resolveu apostar no Villa Mix como veículo identitário, “Golden”. Curiosamente, ambos têm muito mais em comum do que só o título: são híbridos do pop e country e vice-versa. Analisando o cenário pop recente, os dois discos parecem colher os melhores e os piores frutos da repercussão dos Joannes, dos Rainbows, e dos Daddy Lessons mundo afora.

Kacey Musgraves é pouco conhecida. Apesar de ter dois álbuns aclamados pela crítica e diversas faixas circulando por listas de Melhores Do Ano, sua trajetória musical sempre foi afetada por seu posicionamento político. Seus singles de estreia, “Merry Go Round” e “Follow Your Arrow”, eram ponderações pontuais sobre as tradições do sul dos EUA; além de dialogar abertamente sobre o uso recreativo da maconha e apoiar abertamente pautas LGBT sempre que possível(!). Não é nem preciso dizer que o clube do bolinha do country fez com que suas músicas desaparecessem das rádios, né? Seu som e sua imagem bem roots afastavam muitos fãs de pop, também. Intencionalmente ou não, “Golden Hour” brilha como um disco naturalmente pop: é vibrante, de melodias absurdamente ricas e nostálgicas, e apresenta ao mundo a riqueza das narrativas de uma incrível contadora de histórias. A primeira faixa, “Slow Burn”, forte candidata à melhor faixa aqui, introduz o ouvinte ao dia ensolarado e cheio de afeição da obra da melhor maneira possível. Por vezes, revela muito em poucas palavras – “Texas is hot, I can be cold/Grandma cried when I pierced my nose” – e expressa em sentenças simples uma imensidão sentimental de auto-respeito e lucidez – “I know a few things but I still got a lot to learn/So I’m alright with a slow burn”. É como se Sandy, Sufjan Stevens e Shania Twain tivessem se juntado para escrever uma das melodias mais agradáveis da década.

Os sintetizadores e o vocoder do início de “Oh What A World”, remetentes às sensibilidades robóticas do eletrônico Daft Punk e derivados, narram o início de um devaneio regado a um LSDzinho (rainha das drogas) que extende-se até “Mother” e “Love is a Wild Thing”, formando a trilogia ponto-alto desse disco, já inteiramente sólido por treze faixas. Em palavras simples, fáceis de imaginar e sonhar junto à música, Kacey divaga sobre as maravilhas de encontrar beleza em cada canto desse mundo. Amor transborda em seus versos nostálgicos, nos quais sente falta de sua mãe – que também deve estar pensando em sua mãe; mais uma das idas e voltas engenhosas sempre presentes em suas letras. Amor transborda até na piadinha maconheira mais ‘sassy’ da hora dourada: “Plants that grow and open your mind[…]How we all got here, nobody knows”. Compaixão tão grande que, mesmo após o tour-de-force no meio do disco, nunca deixa a peteca cair: a faixa de encerramento, “Rainbow”, é uma balada absolutamente simples e, talvez por isso, reconfortante – “Let go of your umbrella/’Cause darlin’ I’m just tryin’ to tell ya/That there’s always been a rainbow hangin’ over your head”; é dedicada para seu público jovem e LGBT. Há, ainda, alguns momentos de êxtase no álbum, como a ‘life-changing’ “High Horse”, um disco-pop-country maculado mais que pronto para as rádios country, e perfeitamente dançável para conseguir destaque fora de nichos; um crossover impecável sobre masculinidade tóxica que deixaria Shaniazão “That Don’t Impress Me Much” orgulhosa. “Space Cowboy”, de título já icônico por enganar a garotada com uma possível referência sci-fi, é mais um exemplo da proficiência de Kacey em capturar o amadurecimento de sentimentos. A nova certeza do que já foi dúvida e a busca por forças internas que te impulsionem para a próxima etapa. Em cada palavra, Kacey é minuciosa – virginiana! – e conta pequenas histórias de dimensões emocionais shakespearanas com início, meio e fim; todos de desfechos satisfatórios embora imperfeitos pois assim é a vida, nem sempre feita de momentos de plenitude ao sol como neste solar álbum. “Is there a way to describe what I’m feeling inside?/Happy and sad at the same time/You got me smiling with tears in my eyes”.

Frequentemente solar – dourado, vai – também é o “Golden” de Kylie Minogue. Em dezesseis (desnecessárias) faixas da edição deluxe, poucas vezes deixa a batida-por-minuto cair e providencia um conjunto redondinho, ocasionalmente nos dando uma faixa ou outra de perfeição-pop. Infelizmente, tal coesão não é exatamente motivo de celebração. Seu som é insípido, de instrumentações manjadas, por vezes beirando ao amador – cata metade desse disco soando como se tivesse sido gravado com uma batata, o conceito é veganismo – e referências ao óbvio do início ao fim. Sabem aquele tipo de EDM/country tipicamente popular em rádios pop e nocivo aos ouvidos de qualquer cidadão? Sim, ele faz presença por várias vezes. Poucos são os momentos em que Kylie realmente deixa música, melodia, composição e sentimentalidade – quatro princípios básicos da música country – fluirem naturalmente. Uma faixa que destaca-se por ser positivamente diferente é “Music’s Too Sad Without You”, colaboração com o cantor de folk Jack Savoretti; um ode à vulnerabilidade do ser perante ao amor. Existe alma nela, ao contrário de todo o resto. E seguimos com a festa de caubói d’uma australiana completamente alheia ao esterco e ao feno do dia-a-dia interiorano: faixas como “Shelby 68” e “Raining Glitter” são registros milimétricos de emoções condensadas num potinho de rimas e melodias marcantes. Suas claras sensibilidades pop não são necessariamente comprometidas pelos arranjos de pouca imaginação que as acompanham. O caso de ‘brick-walling’, ou precária masterização sonora, também não tira os merecimentos das faixas; algo que já acontece com “Dancing”, primeiro single do disco. Apesar de estruturalmente ótima, parece ter sido gravada dentro de um celeiro e nem artista country ‘roots’ que se preste faria isso.

Há pouca explicação de onde vieram os banjos, a calça jeans apertada, a bota de couro e o cinto de fivela. Muito pouco é dito sobre a artista Kylie, quiçá sobre a mulher por trás do pano. Por vezes que ela tenta arriscar comentários sociais pertinentes, como na faixa-título em que contra-ataca seus odiadores discriminatórios com idade – “We’re not young and we’re not old/We’re the stories not yet told/Won’t be bought and can’t be sold/We are golden” –, suas palavras são escritas em fonte Comic Sans 16 itálico sublinhado cor-de-rosa num papel de presente. É difícil levar muito a sério ou empolgar-se com uma obra aparentemente revestida às pressas por mera estratégia; imensamente preguiçosa, diga-se de passagem. Por anos, Kylie firmou-se como provedora de pop dançante matematicamente preciso somado ao famoso ‘conceitinho’, afinal se não for pra ter pelo menos 50 gays pós-graduados do Design e de P&P envolvidos em seus projetos é melhor nem ter projeto. Vê-la bandear-se para as graças do country – que nem country é! – sem, ao mínimo, contextualizar essa mudança de ares é um tanto decepcionante.

Embora sejam produtos sazonados daquele ciclo recente de tentativa e erro de embaralhamento de culturas pop e country mencionado lá no início do texto, “Golden” e “Golden Hour” são discos absolutamente distintos. Quaisquer comparações devem ser seladas em correlação de nomes, semelhanças técnicas, temáticas vívidas, uma beca invocada, e um pingente no chapéu. Kacey, em contrapartida do constante rumo do country mainstream em direção a refrões barulhentos ou qualquer seja o último truque para garantir hits fáceis, resolveu explorar novos horizontes além de sua zona de sua conforto. Enquanto isso, Kylie apostou na mesmice de seus condiscípulos e discípulos. Colocá-las na mesma balança seria injusto por inumeráveis razões; e especialmente por Kacey ainda estar dando seus primeiros passos à luz do sol enquanto Kylie completa mais um de seus muitos ciclos solares. Se Kacey Musgraves ainda tem muito a dizer ou Kylie Minogue já esgotou-se de palavras, é difícil dizer. Em qualquer que seja a sintonia do universo que alinha dois álbuns de suma importância pra música pop, suas competências em levar um pouquinho de sol e brilho – e terra, pasto, boi, cavalo, galinha – a quem possa interessar são factuais; seja para longos passeios ao céu aberto ou simplesmente para dançar.

OBS.: Nossas notas são uma média entre as notas dos cinco membros de nossa equipe – às vezes menos que isso pois nem todos os lançamentos são ouvidos por todos nós. E espero que gostem dessa nossa nova guinada ao MIJO INTELECTUAL, caras leitorxs. Beijos e até o próximo review SIM KALI UCHIS CARDI BI E MUITO MAIS TÁ VINDOOOoOooo o