Até onde as tentativas de sucesso da Tinashe são válidas?

Quem lê esse singelo bloguinho (ou pelo menos segue a gente há algum tempo) deve saber do amor que a equipe do JWC possui pela Tinashe: nós comentamos sobre a cantora desde que éramos um mero podcast e até tivemos ela na abertura de nossa maravilhosa coluna entusiasta da excelência musical feminina, a Girl of the Month. Dessa forma, claro que ficamos ansiosos quando a artista finalmente anunciou uma data de lançamento para o seu segundo álbum, o “Joyride“, depois de anos sofrendo maus bocados para conseguir lançar o projeto. Como se não bastasse o fim de toda a tensão por causa dos adiamentos do disco, ainda fomos agraciados com três novos singles que encabeçaram a sua divulgação: “No Drama”, “Faded Love” e “Me So Bad”.

Além da identidade R&B que a Tinashe injeta sempre em seus projetos, esses três singles possuem algo muito bem-definido em comum: todos são hits urban prontos e que funcionariam facilmente caso lançados por cantoras da estirpe de Rihanna ou mesmo por newcomers como a Kehlani. Mas por que eles simplesmente parecem não funcionar para a Tinashe? E por qual motivo o sucesso sempre parece ser uma pedra no sapato da artista, mesmo ela possuindo uma pequena fanbase fiel e até uma considerável aclamação da crítica? É exatamente sobre isso que esse post vai falar, além de delinear um pouco sobre os caminhos que o Joyride passou até chegar nesse momento quase catártico que é a proximidade de seu lançamento.

Histórico

Tinashe começou a carreira de cantora no longínquo ano de 2007 com a girlband The Stunners, onde era colega de grupo de ninguém menos que a Hayley Kiyoko – o grupo não chegou a render grandes sucessos, mas lançou um EP e alguns singles avulsos antes de dar disband em 2011. Tinashe começou a trilhar o caminho de sua carreira solo logo em seguida, lançando algumas mixtapes independentes e gravadas em casa que lhe ajudaram a conquistar um contrato de gravação com a RCA ainda em 2012.

Em 2014 ela lançou seu primeiro álbum, “Aquarius” que foi encabeçado por seu single mais bem sucedido até hoje, “2 On”, com participação do Schoolboy Q. A faixa não chegou a conquistar o topo dos charts, mas apareceu em tabelas de vários países e consolidou o potencial da Tinashe como possível futura hitmaker e clara promessa da música mainstream para os próximos anos. O problema foi que esse sucesso de 2 On simplesmente não se repetiu nos singles posteriores do álbum, como “Pretend” e “All Hands On Deck”, que tiveram desempenho morno e apressaram a finalização dos trabalhos com o disco. Pouquíssimo tempo depois de fechar o ciclo do Aquarius, Tinashe deu início à divulgação do seu segundo álbum de estúdio, com o título de “Joyride”. Era 2015 e tudo ainda parecia promissor para a deusa do R&B.

Tentativa 1: Player (feat. Chris Brown)

O carro-chefe do Joyride já chegou de forma duvidosa: primeiro que o single era nada mais nada menos que uma colaboração com o altamente problemático Chris Brown, e segundo que a sonoridade parecia muito mais alinhada à música pop feita àquela altura em 2015 e muito menos reminiscente do R&B atmosférico que sempre foi a marca registrada da Tinashe. O objetivo da música em ser um hit pronto era muito óbvio: a parceria com o Chris Brown, apesar de todos os pesares, traria um apoio da fanbase do cantor ao single (e sim, ele possui uma fanbase ativa por incrível que pareça), enquanto que a sonoridade, quase um house music produzido por Alexander Kronlund (pupilo do Max Martin), era a receita auditiva perfeita para se tornar sucesso nas rádios. Apesar de ser meio genérica, confesso que a música não chega a ser desagradável (especialmente a versão solo), mas por algum motivo o objetivo dela não conseguiu ser atingido: o single flutuou entre posições baixas nas tabelas e eventualmente acabou descartado do Joyride. Outros fatores também ajudaram ao insucesso da faixa: a própria Tinashe teve um atrito com o Chris Brown nas redes sociais e posteriormente admitiu que a participação dele em “Player” foi totalmente coisa da gravadora.

Tentativa 2: Superlove

Essa é provavelmente a tentativa mais estranha de sucesso que a Tinashe já embarcou: “Superlove” é simplesmente uma faixa que não tem NADA do estilo inicial da artista. Se Player já deixava o R&B um tanto quanto escanteado, Superlove sequer chega a incorporar esse gênero, se focando totalmente numa mistura pop dançante e house music milimetricamente pensada pra render um hit genérico de verão. O problema não é só a música não possuir a identidade sonora da Tinashe, mas é principalmente o fato dela ser fraca, bobinha e até meio goofy. Superlove parece MUITO o tipo de música que seria lançada por alguma ex-Disney star desinteressante tipo a Bella Thorne ou whatever.

Tentativa 3: Flame

A essa altura do campeonato a Tinashe tinha acabado de lançar a mixtape “Nightride”, que servia como ~introdução conceitual~ ao Joyride, trazendo alguns ótimos singles promocionais (“Ride of Your Life”, “Company” e “Party Favors”) e pondo a cantora novamente nos braços do R&B, o que foi ao mesmo tempo um alívio e um fio de esperança pelo futuro da artista (porque sim, a mixtape é MUITO BOA). Porém… é… logo em seguida veio este bendito single. “Flame” foi lançado com a intenção de ser o carro-chefe do Joyride – que já andava em seu quarto ou quinto adiamento – apagando as máculas que Player havia deixado e dando um reboot em todo o ciclo promocional do disco. A música novamente lançou Tinashe pra longe do R&B, dessa vez trazendo um synthpop mid-time sem grande impacto, com um instrumental reminiscente de “Style” da Taylor Swift e uma composição que poderia ser facilmente de qualquer música ruim que a Sia venderia para algum artista B.

Tentativa Intermediária: Slumber Party (Britney Spears feat. Tinashe)

Sim, esse aqui é um single em que a Tinashe apenas colabora – porém, dentro de tantas colaboração que ela já fez, essa foi a mais descaradamente planejada para dar um boost de popularidade na carreira da gata. Meio que não deu certo, mas a gente põe a culpa na equipe incompetente da Britney.

Tentativas 4, 5 e 6: No Drama, Faded Love e Me So Bad

Chegou um momento em que o Joyride parecia totalmente comprometido, mas o álbum acabou ganhando um novo reboot e confirmações mais sérias em relação a sua data de lançamento, além da tríade de singles que eu citei no início do texto, todos com intervalo de cerca de 1 mês e participações de diversos rappers. O primeiro gostinho da nova versão do Joyride foi “No Drama” com o rapper Offset, faixa que trouxe a Tinashe pela milésima vez de volta ao R&B – mas que apesar disso é uma canção um tanto quanto genérica e tryhard… o que é uma coisa que dá pra entender devido a ser o (novo) carro-chefe do álbum e precisar apresentar essas características mainstream rasas para atingir um público amplo. O segundo single foi “Faded Love”, música em parceria com o Future e que é basicamente a melhor faixa que a Tinashe já lançou desde o Nightride. Apostando numa mistura muito bem interessante entre R&B e dancehall, o single possui um potencial imenso, mas creio que isso acabou sendo podado por causa do clipe, que é, em suma, muito ruim.

Por fim temos “Me So Bad” em conjunto com Ty Dolla $ign e French Montana: o último single da tríade e provavelmente também último gostinho do Joyride antes do lançamento do álbum completo em abril. Me So Bad ainda traz algumas das características de todas as tentativas anteriores da Tinashe de conseguir um hit: tem um fator genérico, tem um fator tryhard, tem um sobrecarregamento de visuais cool e trendy para conseguir a atenção do público… mas de alguma forma nada disso parece lá tão desagradável aqui. Acho que depois de todas essas tentativas listadas, a Tinashe no mínimo aprendeu um pouco com os erros e agora tentou incorporar nem que fosse um pouco de sua identidade musical ao single, por mais que a faixa não seja nada além de mais um mecanismo descarado de sucesso mainstream.

Mas isso acaba acionando outra questão: depois de tantas tentativas malsucedidas de emplacar, ainda vale a pena, nessa altura do campeonato, se lançar em fórmulas básicas em busca do sucesso? Mesmo que elas tenham se comprovado falhas?

Essa divagação é puramente especulativa, mas sim, provavelmente a Tinashe realmente gostaria de fazer sucesso em seus próprios termos, consolidando sua carreira com a sonoridade que ela obviamente sabe fazer de melhor e evitando alguns clichês que o pop mainstream exige para que um artista alcance o topo. Mas bem… além de toda a gana/ambição que ela possui pelo sucesso por conta própria, a Tinashe não é uma artista independente: ela ainda necessita de todo um apoio de sua gravadora para conseguir lançar seus trabalhos, continuar ativa no mercado e receber investimentos – e como se sabe a RCA não é lá um dos melhores selos fonográficos do mercado americano, além de que, como qualquer gravadora, ela visa o lucro sem grandes esforços. Se um artista precisa se mostrar útil para a sua gravadora e ser minimamente rentável a curto prazo, é óbvio que ele vai optar por fórmulas básicas para fazer esse sucesso acontecer, mesmo que isso comprometa um pouco da sua integridade artística – o que pode ser remediado depois, pois com a consolidação pelo sucesso, há uma possibilidade maior de que o artista consiga emplacar hits que não sigam fórmulas básicas.

Isso é uma coisa que a Tinashe parece entender plenamente: ela precisa fazer todo o ciclo mainstream genérico com os primeiros singles do Joyride para que o álbum seja vendável. No final das contas, dois ou três desses singles menos inspirados podem acabar nem influindo no resultado final do projeto, já que provavelmente a artista irá prezar pela qualidade do conteúdo e trazer outras 10 faixas com a pulsação criativa e interessante que permeou amplamente seus projetos anteriores, como as mixtapes e o Aquarius. E sacrificar duas ou três faixas do disco em busca de fazê-lo chegar devidamente ao grande público é um sacrifício entendível.

Assimilado isso, a Tinashe agora possui dois desafios: emplacar Me So Bad como seu hit mainstream óbvio depois de tantas tentativas e provar que o Joyride é capaz de manter a qualidade artística de seus antecessores, mesmo que tenha enfrentado grandes percalços em relação a sua identidade.

#tinashe #britneyspears #matéria

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