Jogador Nº 1: o futuro dos anos 80

Estamos vivendo em uma época onde a nostalgia é extremamente válida. O apreço pelo antigo se tornou ainda mais evidente no contexto contemporâneo com a imensidade de reboots, remakes e revivals sendo realizados atualmente em Hollywood, tanto na TV quanto no cinema, e, não menos importante, o fenômeno de Stranger Things, que trouxe de volta o apego pela cultura pop dos anos 80. Partindo desse princípio, é compreensível ver o que Spielberg faz aqui com Ready Player One, seu mais novo filme, baseado no livro homônimo de Ernest Cline, que também assina o roteiro da trama, ao lado de Zak Cline.

O filme se passa num futuro distópico de 2044, onde um jogo de imersão virtual, OASIS, se tornou a principal fonte de distração da maioria das pessoas. O jogo é tão popular que acaba substituindo a própria vida real, com a maioria dos seus jogadores preferindo estar no mundo virtual que fora dele. Um deles é Wade Watts (Tye Sheridan), o protagonista da trama, que vive com seus tios desde que seus pais faleceram quando ainda era jovem.

Após a morte do criador do jogo, James Halliday (Mark Rylance), que é tido como uma espécie de Deus para os frequentadores do OASIS, um desafio feito pelo próprio Halliday é lançado, consistindo de 3 missões secretas para que, ao final delas, o primeiro jogador que conseguir as 3 chaves que as missões dão ganhe as ações de Halliday e uma grande forturna de herança para que a pessoa continue o seu legado, o que acaba por gerar um grande rebuliço em toda a comunidade, inclusive na corporação IOI, que planeja, com as ações do OASIS, dominar o mundo inteiro.

O filme só encontra o seu tom após voice-overs extremamente expositivos contando como que o mundo chegou aonde chegou, e segue dali com sua ação ocorrendo quase que completamente dentro do mundo de OASIS. Nos dois primeiros atos, é muito difícil alguma sequência ocorrer fora da realidade virtual e nos acostumamos a ver os personagens centrais na trama em animação 3D e avatares de videogames. Isso é uma tentativa de tentar mostrar como o jogo acabou por controlar todo o mundo com uma proposta tão simples. Todo mundo está no OASIS e quem não está, não está vivendo. O visual, incusive, é incrível. O mundo virtual criado por Spielberg é um colírio para os olhos e a animação é ótima.

A história, então, segue simples e sem tantas firulas. Nosso protagonista Wade e seus amigos que conquista no jogo seguem juntos para poderem tentar desvendar os mistérios por trás dos desafios secretos de Halliday, investigando seu diário pessoal, a partir de uma biblioteca localizada no meio da cidade virtual de OASIS, procurando pistas que possam servir de ajuda. Não há nada de novo aqui e já foi feito diversas outras vezes. Não há muito desenvolvimento dos personagens, embora seus relacionamentos sejam bastante explorados, principalmente o de Wade com Samantha (Olivia Cooke), que acaba sofrendo da síndrome de personagens femininas que só estão ali para servirem de parzinho do protagonista, o que acaba por ser uma pena porque Samantha é muito interessante para isso.

[Olivia Cooke e Tye Sheridan em cena]

O que faz com que Ready Player One ser um deleite são as referências de cultura pop dos anos 80 e 90 que não param de rolar em momento algum e acabam por ser o grande trunfo do filme. As referências parecem soar como uma carta de amor à esse período, ainda mais por Spielberg ser um diretor e produtor famoso por encabeçar grandes obras dessa época. Há sequências, como a do primeiro desafio, em que se você piscar o olho pode acabar perdendo alguma coisa mencionada/que aparece na tela. Outras, como uma inteiramente dedicada ao filme de Kubrick/livro de King, O Iluminado, acabam por ser simplesmente a sequência mais divertida do filme inteiro.

Por outro lado, o filme foca muito em ser algo referencial, algo que possa ser facilmente reconhecido e entendido pela plateia que está assistindo, que acaba pecando um pouco. A tentativa de querer agradar todos os públicos, trazendo uma narrativa mais atual e millennial e focando em trazer um aspecto mais da cultura pop do passado, acaba por soar como desespero em algumas ocasiões, onde diágos literais parecem que só foram inseridos para poder fazer menção a certo filme, certa música, certo jogo. Quando não é feito com maestria, é cansativo e fica parecendo que ter inserido tal coisa foi só para poder as pessoas notarem e comentarem “Uau, você viu aquilo?” e formularem posts e vídeos depois sobre “Todas As Coisas Que Você Não Viu Em Jogador Nº 1”.

A duração do filme é outro fator negativo. São 2h20min que passam quase que voando nos dois primeiros atos, que são enérgicos e te deixam vidrado no que está acontecendo, mas o terceiro ato acaba se estendendo mais do que precisava. A batalha final é longa demais e poderia ter sido encurtada sem nenhum problema e sem perder nada em termos de história e narrativa. Há um déficit aqui que poderia ter sido corrigido, para deixar tudo mais dinâmico e divertido, mas não acaba sendo um enorme problema.

Ready Player One é, no fim das contas, um filme extremamente divertido de um futuro distópico e nostálgico. Spielberg quer provar que não perdeu a mão aqui, e com certeza consegue, trazendo tudo de melhor da cultura pop, embalado por um visual incrível e uma ótima trilha sonora. Vale a pena conferir. Estreia hoje, 29 de março, nos cinemas.

Ready Player One (2018)

Dirigido por: Steven Spielberg

Escrito por: Ernest Cline & Zak Cline

Estrelando: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Simon Pegg, TJ Miller, Mark Rylance, Hannah John-Kamen, Win Morisiaki, Lena Waithe, Susan Lycnh, Ralph Ineson

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