Reality Gals: garotas em reality shows

Desde Rouge à IOI os reality shows de talento vem criando um grande mercado musical com suas próprias regras. Músicas originais, por vezes ótimas, por vezes descartáveis, vem sendo lançadas desde sempre. E depois de tantas temporadas desses reality shows, a criação de um mercado sólido para esse tipo de música é mais do que perceptível.

Aqui no Brasil recentemente, com a reestruturação do cenário pop musical, não temos nenhum exemplo palpável. Mas com a volta do para-sempre-querido Rouge nesse ano, tivemos um breve throwback pro que foi o Popstar, reality show de sobrevivência que literalmente criou o grupo, que seria uma febre na mesma época.

A ideia do reality era juntar cinco meninas, colocá-las em provas que iriam testar sua “star quality” e dessa maneira criar um grupo que fosse unir todas as tribos como foi o norvana. Toda a tentativa deu tão certo, em aspectos de audiência e de qualidade musical, que o Rouge foi um dos – se não O – maiores sucessos da década passada no nosso país. E dentro do próprio reality, os produtores pediram para que as competidoras fizessem uma música dançante que mostraria a habilidade das meninas em todos os aspectos: dança, vocal, etc. E assim surgia PopStar, meu primeiro contato com o tipo de música que surgia de realities de talento.

O Rouge por sinal, foi apenas um dos nomes a sair de realities dessa maneira que literalmente pavimentou o caminho pro cenário pop do seu país. Incentivando e influenciando uma leva de artistas.

Mas o que eu não sabia, e vim descobrir mais tarde, é que nesse mesmo estilo do Rouge já havia um outro. Popstars: The Rivals, responsável por formar o grupo Girls Aloud, também criava uma marca que mais tarde se tornou tão grande quanto os seus produtores. Mas esse era um tanto diferente. Nesse show de talentos, o público foi responsável por escolher cinco mulheres e cinco homens, para formarem uma boyband e uma girlband. “The Sound of the Underground”, música produzida para o reality foi um hit gigantesco, que levou o Girls Aloud a vitória e ainda elevou o nome da girlband à um novo patamar.

O nome de Girls Aloud, assim como o de Rouge, foi um marcado na história do país de origem. E ainda deixou no Reino Unido um legado de girlgroups carregado por muitas outras novatas da época, que mesmo sem chegar aos pés do sucesso que Girls Aloud fez, foram importantes para deixar a chama dos girlgroups aceitos, até porque é um mercado precário e em muitos lugares bem esvaziado.

Anos depois do sucesso de Girls Aloud, tivemos o X-Factor que nunca formou um girlgroup de sucesso, até que Little Mix surgiram na cena. O grupo formado por Jade, Leigh-anne, Jesy e Perrie foi o primeiro grupo a vencer na história do programa, e isso é muita coisa já que nem mesmo o One Direction conseguiu esse mérito. Desde então, o grupo conquistou o UK de uma maneira que apenas as Spice Girls conseguiram fazer antes. A aclamação do público já estava certa desde o X-Factor e as vendas das meninas apenas reafirmaram isso.

A música produzida para o reality, que na verdade foi um cover, “Cannonball” não fez muito barulho por lá além do aplauso do telespectador que amou a performance. Mas as meninas vinham mostrando um alto desempenho desde o começo e isso foi crucial para o sucesso delas. O Little Mix virou e continua sendo um dos maiores nomes do Reino Unido, sua música atingiu até mesmo o Japão, um mercado repleto de girlgroups que mesmo assim abraçou o impacto das meninas.

E isso não foi a única coisa. Depois de 3 anos na carreira, mesmo com vendas e desempenhos muito bons, o Little Mix quebrou recordes que ninguém nunca nem imaginou que elas poderiam quebrar. As intocáveis Spice Girls acabavam de achar suas sucessoras naturais e o legado de Girls Aloud ficou salvo pelo impacto da banda. Até mesmo a rainha da Inglaterra disse amar as meninas uma vez. Fadas carismáticas não é mesmo?

Em um continente não muito longe do delas, alguns anos depois, na Coreia do Sul – um mercado repleto de Idols e girlgroups – a onda de reality shows também se instaurou. Em 2015, uma das maiores gravadoras do país reconhecida pela sua produção de girlgroups bem sucedidos – Wonder Girls e Miss A -, JYP Ent. anunciava um reality show chamado SIXTEEN. O programa que viria a formar o que chamamos hoje em dia de Twice, tinha como objetivo lançar um novo fenômeno musical e também um girlgroup novo para a gravadora que sofria muito com o escasso número de grupos femininos.

As meninas foram colocadas em várias provas, umas formavam grupos aleatórios com outras meninas e as dividiam entre maiores e menores de idade. Ótimos covers foram lançados a partir daí e muita coisa boa aconteceu, as meninas se mostravam cada semana ainda mais talentosas. O grupo formado no final consistiu em Dahyun, Sana, Momo, Mina, Nayeon,Tzuyu, Jihyo, Chaeyoung e Jeongyeon – chora Somi. E desde o debut o grupo foi literalmente um fenômeno musical.

De “Do It Again” até o single mais recente, e com um debut japonês nas costas, o Twice movimentou milhões na indústria k-pop até agora. Com o título de “girlgroup da nação” mas com produções duvidosas, não dá para negar que o resultado de um reality show mais uma vez se mostrava bem sucedido. Sem contar nos recordes quebrados por elas.

Em contra partida ao Twice e até mesmo surfando nessa hype de reality shows, a Mnet, emissora de TV sul-coreana, lançava a sua própria versão do que seria um grupo de reality show, no programa Produce 101. Nos quase-mesmo moldes do SIXTEEN, o Produce 101 também teve uma grande aclamação do público, recrutando meninas já conhecidas pela mídia como a própria Somi presente no SIXTEEN e outras integrantes de grupos não tão bem sucedidos que queriam outra chance – olá meninas do DIA.

A ideia era pegar todas as trainees que estavam há anos nesse processo e não tiveram a oportunidade de debutar, e dar à elas uma nova chance nesse ramo para elas, formando um grupo de 11 meninas a partir da votação online do público. As meninas fariam covers de músicas coreanas famosas durante todas as avaliações e seriam eliminadas de acordo com os seus desempenhos. Óbvio que o espectro dos fanvotes se instaurou nas votações e muitas favoritas ficaram, mesmo que não merecidamente – mas isso é um outro assunto. O importante foi que na reta final as 11 meninas foram chamadas e o Produce 101 produziu uma penca de músicas. Muitas dessas músicas foram bem sucedidas, surpreendendo até mesmo os produtores, e outras foram surpreendentemente boas.

O grupo originado do programa, IOI, foi formado por Sejeong, Somi, Doyeon, Chunga, Sohye, Yoojung, Jieqiong, Chaeyeon, Mina, Nayoung e o cavalo azarado que ninguém apostava nada em, Yeonjung, da gravadora de nomes como Sistar, todas postas em um ranking entre si, aparentemente resultado do desempenho das mesmas no programa segundo os fãs que votaram.

Do começo, o IOI não teve lá essas famas. Dream Girls, o single debut, rendeu coisas boas ao grupo mas nada muito excessivo. Mas “Very Very Very” foi um dos maiores hits do ano em que foi lançada. E além de tudo, ainda elevou o grupo a nível nacional, competindo com grandes nomes já estabelecidos na indústria.

Infelizmente, IOI não durou muito. O grupo estava previsto para apenas um ano de duração, depois disso cada menina deveria seguir sua carreira nos grupos que iriam debutar. E assim foi feito, os frutos de IOI ainda se espalham pela Coreia até hoje, grupos com as ex-integrantes não estão fazendo muito sucesso – gugudan, weki meki, dia e pristin – mas Chungha por exemplo é um exemplo sólido de uma solista bem sucedida que surpreendeu a todos. Mas era de se esperar que a fama do IOI não seria capaz de sustentar grupos sozinha, porém, quando estão solo, ou juntas em um evento, elas se tornam virais no mesmo instante

Ainda na sombra do IOI, um programa nos mesmos moldes foi anunciado logo depois do grupo acabar. Finding Momoland foi o reality da Mnet em parceria com a Doublekick Company, responsável por hits do T-ara, para formarem um novo girlgroup chamado Momoland.

O reality era bem reduzido, apenas 10 trainees foram selecionadas e no começo deixou a desejar entre os internautas, que comentavam justamente comparando as meninas com o Produce 101. Fadadas à sombra do IOI, o programa continuou rolando, trazendo sempre covers de músicas famosas sul-coreanas e mostrando a disputa entre as 10 meninas.

No final de tudo, Hyebin, Yeonwoo, Jane, Nayun, Jooe, Ahin e Nancy foram as meninas vencedoras e a primeira formação do grupo MOMOLAND. Mas logo em Abril, uma nova menina chamada Daisy, concorrente do próprio programa e Taeha, ex-produce 101, foram adicionadas. Mas o grupo não deslanchou até esse ano. Seu hit “Boom Boom” se provou um sleeper hit e surpreendeu à todos. No caso de Momoland não foi o programa que as ajudou – pois esse sofreu bastante crítica – e sim suas integrantes carismáticas que capturaram o coração da nação, e além de tudo, se tornaram grandes virais da internet

Tentando surfar na onda dos grupos, a YG Ent., gravadora de nomes como 2ne1 e Big Bang, viu nessa onda uma grande oportunidade para entrar no hype de grupos femininos grandes. Oportunista como sempre, eles tentaram lançar o seu reality show chamado MIXNINE. A ideia central rodeava uma parte da competição composta por girlgroups e boygroups competindo entre si, e quem recebesse mais votos ganharia a tão sonhada chance de debutar em um grupo sendo produzido pela YG – o que não é muito bom visto o histórico da gravadora com os grupos.

Mas o importante foi que nesse processo do programa, o CEO da gravadora participou ativamente do processo de criação dos grupos, elegendo meninas e até mesmo ofendendo algumas – pobre Haseul forças ao ícone -, provando ser um lixo tóxico que não consegue tratar bem jovens meninas. O YG foi extremamente rude com algumas meninas que tinham menos de 21 anos, muitas delas tiveram seus sonhos massacrados – sem meme – e simplesmente expulsas sem mais nem menos de lá de dentro. O YG não as disse para “melhorarem”, só disseram que não era o caminho delas.

O MIXNINE rendeu ótimas performances e músicas originais. Like a Star e Omona Oh My God, foram ótimas produções da gravadora que impressionaram à todos. Porém, o reality não foi um sucesso de audiência. Nada tão icônico vai sair do programa, até porque os vencedores foram boygroups, um negócio certeiro na Coreia do Sul mas que pode dar tragicamente errado: a versão masculina do IOI não rendeu frutos tão bons quanto as meninas, o BroZ também não, muito menos esses meninos irão.

Depois, ou durante, o/do MIXNINE, a KBS, emissora de tv sul-coreana, também resolveu entrar na tendência e criar seu próprio reality show. The Unit: Idol Rebooting Project vinha com uma proposta diferente e até mesmo criativa. No mercado musical sul-coreano muitos idols simplesmente não acontecem, é muito competitivo e pouquíssimos tem lugar no topo. Por isso, a emissora de TV decidiu criar um projeto onde idols que não foram bem sucedidos receberiam uma segunda chance formando dois grupos, um masculino e um feminino.

Com uma equipe de mentores pesada contando com a presença de Hyuna – censurada incontáveis vezes pela KBS – e Taemin do Shinee, o reality teve etapas que parecidas aos de MIXNINE e Produce 101, audições com votações do público e os mentores, que iriam resultar nas próximas fases, com grupos formados e outros covers. O que rendeu ótimos covers como as nossas queridas Woohee e Serri do grupo underrated Dal Shabet. E um super boot – nome que o programa dá quando a audiência toda vota no participante – na Jiwon, ex-integrante do grupo que morreu muito cedo SPICA – vídeo muito emocionante por favor assistam.

Em padrões quase produce 101, o grupo também fez um vídeo especial com todos seus integrantes – boygroups e girlgroups – com uma música que mesmo não ficando tão catchy quanto a famosa Pick Me, ainda é uma boa música e foi interessante ver o stage com todos os participantes.

O grupo vencedor feminino se chama Uni.T (Unity para os que não conseguiram decifrar o conceito), e é formado pelas 9 vencedoras do programa, sendo elas: Eunjin, Yebin, NC.A, Yoonjo, Lee Hyunjoo, Yang Jiwon, Woohee, ZN e Lee Suji. O reality show acabou dia 24 de Fevereiro desse ano, logo, o grupo do programa ainda não debutou, mas fará seu debut na segunda metade de 2018.

Ainda esse ano teremos mais um reality show que formará um outro grupo desses e uma nova leva de músicas produzidas especificamente para a competição. O Produce 48 promete ser uma junção de AKB48 nos moldes do famoso Produce 101. Sendo transmitido no mesmo canal, o reality sem dúvidas deve trazer uns callbacks para a sua primeira temporada e muitas participações especiais das meninas do IOI.

Todos esses grupos citados, independentemente do continente, tem certamente uma coisa em comum: o acompanhamento do público desde seus primeiros dias. Torcer para algo é o que move o mundo, e colocar esse tipo específico de torcida na TV é uma fórmula certa para o sucesso.

Ser um artista é uma tarefa muito difícil, a desumanização é constante e às vezes nem é por mal do outro lado, mas sim pela famosa caixa preta que nos faz desassociar as pessoas de sua humanidade, exatamente por nem sempre crermos que eles ali são palpáveis, pessoas assim como nós. Dentro de um reality show a história é diferente. Um livro é aberto, onde você consegue se conectar fielmente com os participantes, acompanhando-os desde o primeiro dia. Nem sempre dá certo -muitas pessoas torciam para Somi do SIXTEEN debutar junto com as outras meninas -, mas a torcida é essencial para criar o laço entre telespectador e participante, um laço que vai durar até mesmo depois do fim do programa.

Com Little Mix isso não foi diferente, todos torciam, desde a junção das meninas, para que elas conseguissem se fortalecer umas nas outras. Todos lembram quando Jesy teve que lidar com comentários ruins sobre sua aparência e as meninas consolando-a. Esse tipo de vulnerabilidade cria empatia – em alguns casos -, e sem dúvidas sensibiliza, fortalecendo a torcida pelas meninas. Como na jornada do herói. Acompanhamos desde sua criação até sua ascensão, e nesse trajeto nos conectamos com elas, assim como com personagens de filmes. Em Reality Shows escolhemos qual script iremos pegar e vamos com ele até o final.

A produção de grupos femininos a partir de reality shows pretende se solidificar ainda mais na Coreia do Sul depois dessas tentativas bem sucedidas. Mas será que ela vai conseguir se restaurar nos outros continentes? A pergunta que não cala é se o legado deixado para trás por outros girlgroups irá continuar, ou simplesmente vamos deixar que ele seja enterrado com o fim das bandas que conhecemos, como Little Mix e Twice? A pergunta certamente fica no ar, mas enquanto isso não acontece, aproveitaremos a longevidade dos grupos

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