Meus sentimentos conflitantes sobre Cardcaptor Sakura: Clear Card-Hen

Ah a nostalgia, esse sentimento em tese essencialmente positivo e que é capaz de nos trazer um misto de sensações diferentes quando confrontamos elementos que remontam passagens importantes ou afetuosas do nosso passado.

Mas bem… assim como qualquer sentimento positivo, a nostalgia é marketável. Ela é vendável. Representa um apelo comercial até óbvio, e é utilizada em para esse fim em diversos meios da sociedade, especialmente na indústria do entretenimento. Enquanto essa vendabilidade da nostalgia não devia ser algo necessariamente ruim, ela muitas vezes acaba sendo: sucumbir à nostalgia em tempos recentes tem sido quase um sinônimo de consumir material sem muita reflexão sobre a sua qualidade ou sobre a necessidade desse consumo.

…………….. Sim.

No caso da indústria do entretenimento, as nostalgia é empregada em basicamente todas as subdivisões dela. Na música temos versões comemorativas de álbuns, reutilização de sonoridades que remontam a outras décadas e até a própria volta do vinil, uma forma diretamente nostálgica de se consumir conteúdo musical. Nas séries temos a volta de obras populares por pura demanda nostálgica, entrando nessa conta títulos como “The X-Files”, “Fuller House”, “Gilmore Girls”, ou até mesmo conteúdos novos muito diretamente inspirados em produtos nostálgicos, como “Stranger Things” e “Everything Sucks”. E… hmm… no meio dessa bagunça toda temos também a indústria dos animes.

Desde o início dessa década a indústria dos animes vem se engajando em um grande #requenta nostálgico que mira franquias bem sucedidas durante o final dos anos 80, boa parte dos anos 90 ou até o início dos anos 2000; a exemplo dos novos animes de Sailor Moon, Dragon Ball, Digimon e os muitos, mais muitos spin-offs de Saint Seiya. Novamente, esse revival de obras com grande apelo nostálgico não deveria ser necessariamente um problema, mas aqui o inconveniente da marketabilidade da nostalgia é muito mais visível e constante que quase qualquer outro âmbito da cultura pop.

O grande problema com esses requentas de animes clássicos é bem básico: são obras derivativas e sem ambição que tentam toscamente emular a atmosfera das obras originais, mas se utilizam de premissas fracas e, volta e meia, até a qualidade da animação é discutível. Não bastasse isso, o consumo não-reflexivo típico da nostalgia acaba fazendo com que essas obras, apesar de suas intenções duvidosas, vendam. Dragon Ball Super e seu sucesso sem precedentes (o anime é um dos carros-chefe da programação do Cartoon Network) é uma das grandes provas disso: a nova série é conhecida pelos fãs por ser fraca e sem muito direcionamento, mas ainda assim eles consomem deliberadamente apenas pelo sentimento nostálgico de ver seus personagens favoritos na tela independente das narrativas ruins às quais eles são expostos.

Outro aspecto importante dos requentas no mundo dos animes é que eles são quase sempre uma iniciativa das empresas que detém os direitos de animação das obras e não dos autores originais. Sailor Moon Crystal, Dragon Ball Super, Digimon Tri e Saint Seiya Omega foram, por exemplo, formas que a Toei Animation utilizou para conseguir lucrar facilmente com nostalgia e se livrar de uma provável situação financeira ruim (visto que há algum tempo a empresa não consegue emplacar novas franquias de grande sucesso e repercussão). Mas bem, apesar de raro, de vez em quando realmente rola dos próprios autores se engajarem na arte do requentamento, e esse é o caso de obras como Shaman King, Evangelion, Negima! e sim… Cardcaptor Sakura.

Para quem esteve embaixo de uma pedra pelos últimos 20 anos, Cardcaptor Sakura é um mangá que começou a ser publicado em 1996, sendo de autoria do grupo CLAMP, coletivo de artistas responsáveis por títulos como “Chobits”, “X-1999” e “Tsubasa Reservoir Chronicle”. Os quadrinhos foram adaptados para uma série animada de TV que durou de 1998 a 2000, sendo transmitida aqui no Brasil pelos canais Cartoon Network e Rede Globo – e consequentemente fazendo parte da memória afetiva de quem cresceu nessa época. A narrativa segue Sakura Kinomoto, uma estudante de 10 anos que descobre o livro mágico “The Clow” e acidentalmente libera cartas poderosas contidas nele, ganhando em seguida a missão de capturar novamente cada uma dessas cartas e conseguir utilizar suas respectivas magias.

Cardcaptor Sakura é essencialmente um slice of life, contando parte da vida e das experiências cotidianas da protagonista e seu grupo de amigos enquanto intercala isso com miniaventuras misteriosas (geralmente bastante inofensivas). A obra é uma das definidoras do gênero Mahou Shoujo junto com Sailor Moon, e sendo assim seu impacto cultural no Japão (e em menor escala no ocidente) é incontestável. Aproveitando isso, e com a chegada do aniversário de 20 anos da franquia em 2016, o CLAMP resolveu que seria interessante dar uma continuidade às aventuras de Sakura, lançando assim o mangá Cardcaptor Sakura: Clear Card-Hen nas páginas da revista Nakayoshi.

Claro que esse novo arco seria prontamente adaptado para uma nova série animada assim que possível, e isso aconteceu agora em 2018, com o anime de mesmo título produzido pela Madhouse, estúdio de animação responsável pela série antiga. E é aí que meus sentimentos conflituosos começam.

Em primeiro lugar, o mangá novo em si já não é lá muito bom. Os novos capítulos parecem seguir exatamente a cartilha dos capítulos do mangá antigo, sem adicionar muita alma ou um gosto novo àquilo que já conhecemos. Há capítulos fillers focados em comida (porque sim, CCS é uma obra muito dedicada ao food porn), outros capítulos extremamente curtos, e por fim uma periodicidade sofrível e que não deixa a história avançar devidamente. E mesmo se ela avançasse, ela não vai a lugar nenhum. Além disso, as novas cartas (as “clear cards” do título, ou “cartas transparentes”) são pouco criativas e em alguns casos até completamente similares a algumas das cartas Clow originais – até as cenas de captura das cartas são totalmente derivativas do material antigo.

Dado esse histórico, uma das expectativas que eu tinha em relação ao anime era que ele consertasse esses pequenos defeitos do mangá, dando um ritmo mais interessante à história, utilizando melhor os personagens e deixando as cenas de captura das cartas mais instigantes e trabalhadas. E bom… meio que nada disso aconteceu.

Ok, as cenas de captura das cartas ao menos são mais arrojadas que a imemorabilidade constante que elas representam no mangá… mas todo o resto simplesmente parece não funcionar. O anime cai no erro de não tentar pegar o material original e elevar ele a um novo patamar, tomando certos riscos que tornariam a experiência televisiva mais interessante. Em vez disso, ele conduz tudo milimetricamente e meramente alinhado à atmosfera do novo mangá (até as cenas “inéditas” e originais) – e se você adapta quase fielmente um material que já é fraco, não há de forma alguma como se sobressair em relação a ele.

Os episódios da série seguem, com raras alterações de ordem, uma fórmula tediosa de: Sakura sonha > briga com o Touya no de manhã > vai para a escola > interage com os amigos > uma nova carta surge do nada > a carta é capturada sem grandes esforços ou danos. E sim, boa parte da progressão do anime antigo era desse jeito, mas ele carregava dinâmicas entre os personagens e um desenvolvimento mínimo que está totalmente ausente no Clear Card-Hen.

Um ótimo exemplo de preguiça criativa tanto do mangá quanto do anime está em uma das novas personagens, a garota Akiho, que carrega todo o clichê da “estudante transferida que é envolta em mistério”. A inserção lugar-comum da Akiho em si não é um problema, mas ao longo dos capítulos ou episódios dá para reparar o quanto a amizade dela com os outros personagens é robótica e forçada. A relação dela com a Sakura em especial é totalmente artificial e brusca, e o anime trabalha em maximizar isso com o tanto de vezes que uma personagem fica toscamente elogiando a outra. CCS teve anteriormente dois personagens que também se valeram do clichê de “aluno transferido”: Syoran e Eriol – mas que em seus respectivos casos foram inseridos de forma muito mais vívida, com o primeiro chegando à escola de Tomoeda de forma conflituosa e caótica em relação aos outros personagens, enquanto o segundo surge envolto em uma aura de desconfiança e dubiedade. Mas a Akiho… a inserção dela não tem nada de especial e tenta desesperadamente forçar familiaridade à todo o custo.

É doloroso ver isso acontecendo com Cardcaptor Sakura porque, apesar da obra não ter personagens ultra complexos ou densos, ela sempre foi conhecida por desenvolver relações muito relatable entre o seu elenco. Meu exemplo favorito é como o anime antigo trabalhou a Mei Lin: ela começa como uma rival autodeclarada e insistente da Sakura e vai gradativamente entendendo como aquela rivalidade não fazia sentido e que Sakura não é nem de longe uma pessoa ruim e detestável, culminando numa inesperada amizade entre as duas. Essa foi a primeira vez que eu entendi, ainda na infância, que as pessoas podiam superar suas diferenças ou pré-julgamentos e viver harmonicamente/colaborativamente – um conceito que é amplamente utilizado em diversas obras de ficção, mas que nesse caso surgiu de forma intuitiva, natural e simples de entender em uma mídia acessível para o meu eu com 8 anos de idade. Outros destaques vão para o desenvolvimento da relação do Touya com o Yukito na segunda metade do anime e o desenvolvimento do Syaoran e seu interesse amoroso na Sakura. E é… sem surpresa nada que chegue perto desse nível de storytelling é considerado no material atual.

Um sem-número de outros elementos falhos contribuem para a minha impressão ruim do Clear Card-Hen: erros de continuidade no anime (a carta selada, que é cânone do anime, só é considerada quando conveniente para a história), o estilo da animação nem sempre flui (apesar de visualmente agradável, a animação digital empregada é bem mais eficiente em cenas com alta movimentação, coisa que CCS quase não tem), os capítulos do mangá realmente não avançam para canto nenhum, e por fim, essa encarnação atual da história suaviza ou simplesmente reprime toda a representatividade LGBT sutil que sempre povoou os personagens da franquia em sua publicação original (isso logo em uma época em que a discussão da diversidade na cultura pop se tornou uma coisa).

Se você quer realmente desligar a cabeça e aproveitar tudo o que a exploração da nostalgia pela indústria do entretenimento pode te oferecer, então Cardcaptor Sakura: Clear Card-Hen é pra você. Dá até pra sentir isso de verdade nos primeiros dois ou três episódios do anime: é tudo lindo, fofo, e a atmosfera é igualzinha àquele desenho que te deixava animado todas as manhãs no longínquo ano de 2001. Mas a partir do quarto ou quinto episódio dá pra perceber que tem algo de errado ali. Que talvez as coisas pudessem ser um pouco melhores. Que talvez você mereça mais como espectador. E o mangá não fica muito pra trás. E tudo isso só tá acontecendo porque o CLAMP não conseguiu emplacar Gate7.

#cardcaptorsakura #sakuracardcaptors #anime #nostalgia #matéria

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