Tomb Raider: A Origem: as camadas de Lara Croft.

Pra quem nasceu nos anos 2000, Lara Croft é um nome um tanto conhecido. A figura icônica presente desde os primórdios do playstation fez seu nome entre os jogos mais lembrados de todos os tempos, e ainda prova até hoje ser uma figura lucrativa. Nos filmes passados, Tomb Raider é figura fiel da personagem do jogo, rica e sem muita profundidade. Mas nesse grande revival de filmes de videogames, Lara Croft é presenteada com potencial e camadas nunca apresentadas antes.

Após o desaparecimento de Richard Croft (Dominic West) à procura de Himiko, uma antiga rainha mitológica da ilha japonesa Yamatai, conhecida pelo uso de magia negra, sua filha independente vive uma vida desregulada e longe da herança milionária deixada para ela. Porém, quando a parceira de negócios do seu falecido pai, Ana, aparece e diz à ela que se os papéis da herança não forem assinados, o estado do pai dela será vendido, a menina assina os papéis relutante. É aí que Lara Croft (Alicia Vikander) recebe, de seu pai, uma pista que a leva diretamente para ilha onde Richard havia desaparecido.

A adaptação dirigida por Roar Uthaug, não é uma das piores a surgir nessa nova onda de filmes de videogame, mas tem poucos momentos de glória e pecou da mesma maneira que todas essas adaptações pecaram: foram tão fiéis aos jogos que em alguns momentos nos sentimos com o joystick na mão.

Ao falarmos de protagonistas femininas no mundo dos jogos, sempre nos deparamos com aquele estereótipo de sexualização das personagens que ainda rola, em alguns games, até hoje. E em filmes isso não seria diferente. Nas primeiras adaptações, Angelina Jolie interpretava uma versão feminina da mistura que seria o Tom Cruise de missão impossível, e o James Bond. Sua personagem não tinha profundidade, sua história não era explorada, ela estava ali meramente para o público-alvo masculino dos seus jogos. Nenhuma precaução com essa personagem foi tomada em nenhum dos filmes lançados.

Em Tomb Raider: a origem, Lara Croft, interpretada pela ganhadora do Oscar Alicia Vikander, é uma jovem independente, vivendo sua vida como uma entregadora de comida indiana e nem sequer pensa em mexer na herança deixada para ela, pelo seu pai. Afinal, assinar essa herança seria a prova de que o seu pai está morto, e mesmo que desaparecido por 7 anos, nossa querida heroína ainda acredita que ele está vivo. Esse background explorado no começo do filme, marcou nesse remake, que a nossa personagem seria muito mais bem tratada do que nos primeiros filmes. Além de tudo, suas roupas não são sexualizadas – e ninguém liga para os peitos da atriz.

E a realidade não foge muito daí. A personagem tem toda essência juvenil, realística que a deixa mais fácil de acreditar, e ainda mais perto do que realmente queremos de um script de cinema. A história é sobre ela se descobrir e cumprir os planos que o seu pai tinha em mente. Dito isso, embarcamos numa aventura com a personagem principal.

Superficialmente, o filme tem tudo para ser incrível – tirando a abertura já ser uma cena de exposition narrada. A própria mitologia de Himiko vai deixar qualquer um instigado com o que esses minutos tem a oferecer. Mas no lugar de focar na real trama e a substancialidade dela, somos entregues à um verdadeiro teste das habilidades de Lara e o que ela consegue fazer.

Já nos primeiros 10 minutos de filme a vemos numa corrida de bicicleta sendo incrivelmente habilidosa e fugindo de outros rapazes. Há também uma cena desnecessária onde ela é roubada e corre atrás dos seus ladrões para recuperar sua bolsa – literalmente dispensável. Sem contar em todas as cenas onde ela aparece correndo, confie, são muitas.

Em seu primeiro ato, o filme funciona perfeitamente. Tudo, desde sua motivação à ir nessa aventura até o momento que ela está inserida nela, é bem construído e nos deixa curioso com o futuro da personagem em meio a imprevistos. Mas as coisas vão perdendo força durante os acontecimentos. Mas essa construção leva tanto tempo que quando chegamos no momento ápice, a sensação que temos é de um ato corrido e mal feito. Quando os personagens do momento entram na famosa tumba da Himiko, o filme entra em uma correria única que não contempla e nem o valoriza de maneira nenhuma. Era para deixar-nos imersos naquela tumba, com os corpos contorcendo na cadeira do cinema de tanta emoção. E não me levem a mal, ainda temos muitos acontecimentos válidos de um bom terceiro ato, mas nada no filme ultrapassa da marca de “decente”.

Tomb Raider: a origem, exatamente por não se aprofundar nas camadas mais importantes do filme, também sofre de momentos dramáticos rápidos demais. Em algumas cenas os personagens simplesmente não são capazes de sentir o bastante para fazerem o telespectador acreditar naquele sentimento. E tudo bem, é um filme de ação e ninguém que vai no cinema ver, espera que isso seja mostrado. Mas é essencial que filmes que ao menos tentem – uma vez que elas existem quer dizer que os produtores queriam algo de certo tom ser mostrado -, consigam entender que esses momentos precisam ser explorados, tanto pelo script quando para os personagens.

A atriz principal, Alicia Vikander, fez um ótimo trabalho até onde uma atriz consegue para salvar um filme. Carismática e talentosa, a atriz adicionou algo a mais na personagem. Ela deu de tudo à Lara Croft e nós podemos ver isso na tela, mas tudo desaba quando no script os momentos emocionais importantes, tanto para o crescimento pessoal dela quanto para a progressão do plot, não são capturados como eles deveriam ser.

Mesmo assim, Tomb Raider: A Origem afasta-se dos originais em muitos aspectos. E isso é bom. Os dois primeiros filmes da década passada são incrivelmente vazios. Já nesse, é possível ver uma luz no final do túnel para a história da Lara Croft e suas origens.

O filme continua sendo algo decente a sair do gênero ação. Toda essa história é embalada com efeitos visuais acima da média, incrivelmente bem feitos, sem contar com a fotografia rústica do filme, essencial para o tom meio Indiana Jones que o diretor aparentemente quis ter com essa aventura.

Tom Raider: A Origem tenta tornar todos seus aspectos em objetos reais, partes de uma grande aventura, nesse reboot, e acredite em mim, tem todas as ferramentas para que isso aconteça, mas falha em capturar tudo isso. Mesmo assim, ainda é um filme bom e decente, abriu portas para a longevidade da franquia e a revitalização da personagem na indústria cinematográfica. O filme estreia 15 de Março no Brasil.

Data de lançamento: 15 de março de 2018 (1h 58min)
Direção: Roar Uthaug
Gêneros: Aventura, Ação

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