Discothèque #4: O Studio Killers é basicamente o melhor projeto multimídia que existe

Como todo o mês no jesusworechanel até então, começa aqui mais uma edição da Discothèque, essa coluna onde eu inicialmente planejei trazer partes das discografias de artistas subestimados que eu gosto, mas que na prática serve para que eu fale sobre qualquer coisa que dê na telha sem muito critério.

JUST KIDDING.

Quem já está familiarizado com a coluna, ou leu pelo menos a última edição (#3), deve saber que eu tenho um amorzinho por um tipo específico de produto da indústria do entretenimento: as bandas fictícias (inclusive o texto passado foi todo sobre uma delas, a efemeríssima Black Canary). Bom… eu ainda estou na VIBE de bandas fictícias, e é por isso que nesta edição eu trago um dos meus xodós desse nicho, um grupo de música eletrônica que ninguém sabe muito bem de onde surgiu ou pra onde vai, mas que é basicamente um dos projetos musicais mais incríveis que eu já tive prazer de ter contato: o Studio Killers.

Na minha explanação anterior sobre bandas fictícias (sim, essa edição tá bem retrospectiva), eu falei de dois tipos de atos que compõem esse universo: as bandas realmente fictícias, que são estritamente ligadas a alguma obra de ficção (como filmes, séries, HQs) e indissociáveis desse cenário, e as bandas virtuais, projetos sem associação direta com obras de ficção, mas que funcionam com um appeal ficcional. Em termos mais simples, as bandas realmente fictícias são um produto de obras de ficção, enquanto as bandas virtuais produzem essas obras. O melhor e mais acessível exemplo de banda virtual é o Gorillaz, criação do músico Damon Albarn (também conhecido como o carinha do Blur) em parceria com o quadrinista Jamie Hewlett (um dos criadores de ❤ Tank Girl <3). A banda é composta por quatro personagens fictícios com identidades e histórias de fundo próprias, além de toda uma mitologia que envolve a vivência do quarteto e traz storylines densas para cada álbum do projeto.

O Studio Killers bebe bem diretamente da inspiração do Gorillaz (e aliás dá até pra dizer que eles são o primeiro ato musical de destaque que é inspirado pela criação do Damon Albarn), mas com algumas diferenças essenciais que o levam o projeto para um foco bem antagônico ao quarteto virtual britânico. Enquanto o Gorillaz possui uma sonoridade mais abrangente, centrada em trip-rock mas que engloba vários outros gêneros (eletrônica, hip-hop, alt rock), o Studio Killers é devotado unica e puramente à música eletrônica dançante, especialmente influenciada por house music e disco. Outro ponto de divergência entre os projetos é que, diferente do Gorillaz, que tem histórias detalhadas e complexas que servem como mote para seus álbuns e dariam ótimos roteiros de HQs, o Studio Killers tem um conceito bem mais… loose – ou seja, eles não possuem grandes narrativas em seus lançamentos, funcionando quase como uma banda comum e menos como uma trupe aventureira de histórias em quadrinhos… com a diferença de que existem apenas no ambiente limitado da internet. Isso nem de longe representa um demérito para o grupo, já que a falta de histórias elaboradas acabou criando um terreno fértil para a colaboração dos fãs na construção do que o Studio Killers é. Dessa forma, fanarts, fanfics e cosplays acabaram ajudando na consolidação de uma comunidade de seguidores em torno da banda e uma consequente divulgação natural do trabalho deles.

A nível de ficção, o grupo é formado por dois animais antropomorfos: a raposa Goldie Foxx (que toca keytar) e o castor apático Dyna Mink (DJ do grupo), além de uma humana, a vocalista Chubby Cherry. ou só Cherry mesmo (ah, eles também possuem um empresário virtual chamado Bipolar Bear). Já no âmbito real, o anonimato quase completo da equipe que trabalha no Studio Killers é uma das grandes singularidades do grupo: eles realmente não disponibilizam nenhuma informação de bastidores na internet e o pouco que se sabe sobre a procedência do projeto é que ele é formado por músicos finlandeses, noruegueses e britânicos em parceria com artistas que trabalham nos designs e animação dos personagens – só mais recentemente que começaram a surgir alguns rumores sobre as pessoas por trás das cortinas do SK, mas eu só vou endereçar essas especulações por aqui mais tarde.

Ainda falando sobre os integrantes virtuais, a Cherry é de longe o grande destaque do grupo, rendendo o maior número de fanworks relacionados ao SK. Com uma atitude meio sassy, meio disco diva e meio nonchalant cool, seus vocais, corpo voluptoso e estilo exagerado chamam a atenção de longe quando você vê qualquer um dos clipes lançados até agora. Além disso, ela é a única parte do projeto que possui vagamente alguns detalhes de composição de personagem considerados cânone, como o fato de ser panssexual e seu envolvimento a nível narrativo com algumas das letras (principalmente a do single “Jenny”). Sua personalidade inicialmente era um tanto quanto rude, mas com o desenvolvimento dos blogs e vlogs do SK, ela começou a evoluir para uma persona mais simpática e relatable (mas ainda mantendo uma aura blasé). Não fica muito claro se a personagem é uma mulher trans ou uma drag queen, e de fato esse é um tema de caloroso (risos) debate dentro do fandom da banda – mas aparentemente é intenção do projeto que a Cherry seja uma personagem sexualmente ambígua mesmo e não tem nada de errado com isso. Ah e weird fact: ela é a única personagem que é volta e meia animada em 3D por… talvez motivos de orçamento.

A odisseia musical do Studio Killers teve início em 2011, com o single “Ode to the Bouncer“, que permanece até hoje o melhor lançamento do projeto. A música é quase um resumo sonoro do que o grupo é: sonoridade descaradamente dance/electropop, vocais antêmicos da Cherry e letra divertida mas cheia de trocadilhos espertinhos (eles chegam até a referenciar Pink Floyd bem sutilmente antes do refrão). O clipe é, em suma, uma representação visual muito fiel da temática da música, e mostra a vocalista enfrentando um segurança de clube (o bouncer do título) em sua árdua missão de entrar de penetra numa festa ou whatever. Logo depois do lançamento do clipe, tiveram início os primeiros vlogs do grupo que serviram para nortear o público sobre quem eles eram, além de alguns teasers que davam indícios de trabalhos futuros. O ritmo de lançamentos do SK nos primeiros anos foi (super) lento, contando com mais dois singles (“Eros & Apollo” e “All Men Are Pigs”) entre 2012 e 2013, e o tão esperado álbum debute autointitulado durante a metade de 2013, sendo emparelhado com o single “Jenny”.

Cada single do álbum tem uma personalidade bem própria – “Eros & Apollo” é uma música dançante mais soft, com um clipe que brinca intensamente com estética pixel e 16-bit (ia até ter um jogo nesse estilo, mas foi canceladíssimo), enquanto “All Men Are Pigs” é um dance mais agressivo, com uma letra extensamente feminista (cita até Simone De Beauvoir) e que flerta com a ❤ misandria <3. “Jenny” é a música mais singular do catálogo do grupo, pois traz uma pseudonarrativa canônima sobre a paixão lésbica de Cherry pela sua melhor amiga, que dá título à canção. Baseado nisso, a Jenny virou uma personagem real no ~universo~ do Studio Killers e protagoniza o clipe desse single – que por sinal também é uma ilustração quase perfeita do que a letra da música descreve. Sobre o álbum, ele é bastante devotado ao estilo original da banda, navegando por alguns subgêneros da música dançante, desde EDM de festival (“Funky At Heart”) a faixas com inspirações oitentistas (“Who Is In Your Heart Now, “True Colors”), sem contar em experimentações eletrônicas viajadas e cheias de colagens vocais (“Flawless” e “In Tokyo”). O cuidado com as letras é constante, e volta e meia rende ótimos momentos em linhas que referenciam desde ícones da cultura pop a grandes pensadores contemporâneos.

Depois do período de promoção desse primeiro álbum, que teve um sucesso moderado na Europa, eles ainda chegaram a lançar mais um single inédito (e super mal mixado), “Grand Finale“, que não teve um clipe como a maioria de seus predecessores, mas serviu como faixa de divulgação para os shows ao vivo do SK – sim, eles performam ao vivo! Os primeiros (e aparentemente únicos até então) shows do projeto foram realizados em 2014 nos festivais Ruisrock e Ilosaarirock, ambos na Finlândia, e contaram com toda uma campanha crowdfunding pra ajudar no custeamento de equipamentos e demais necessidades estruturais. O conceito das performances não se distancia muito do que o Gorillaz faz em seus shows – os músicos reais ficam visíveis para o público enquanto os integrantes virtuais aparecem em animações e projeções em um telão no fundo. No caso do SK, os músicos reais assumiram as personalidades de Goldie Foxx e Dyna Mink (usando máscaras dos personagens), enquanto só a Cherry é quem de fato era mostrada virtualmente atrás. Os concertos também tinham uma identidade bem mais aproximada dos shows de festival de música eletrônica (inclusive o público era… esse), daí Goldie e Dyna assumiram os papéis de DJs, enquanto a setlist privilegiava as músicas mais farofeiras do grupo, incluindo uma canção inédita, Sweet Disposition (que, coitada, nunca chegou a ver a luz do dia).

Os shows ao vivo encerraram toda essa primeira “fase” do Studio Killers, e depois do lançamento super atrasado do clipe de “Jenny” eles basicamente desapareceram de todos os locais, prometendo vez ou outra um comeback nas redes sociais mas nunca cumprindo. O canal do youtube por exemplo ficou mais de dois anos sem conteúdo novo, até que no último mês de fevereiro eles finalmente voltaram a postar vlogs e… meio que anunciaram que retornam um dia. Os posts novos andam pelo menos bem divertidos, e eles representam um dos diferenciais da banda, pois os vlogs sempre ajudam a conhecer um pouco mais sobre os personagens e expandir o worldbuilding que se constrói preguiçosamente em torno deles. E ah, entendendo a devoção dos fãs em participarem ativamente de detalhes complementares do projeto, o SK promove vez ou outra concursos de cosplay e de remixes (eu até já remixei uma música deles e provavelmente o remix tá perdido em algum local do meu notebook que pifou), além de vídeos comentando sobre fanarts que chegam até eles etc. De vez em quando também surgem vídeos detalhando o processo de produção do SK, tanto musical, com teasers de músicas e esqueletos de projetos, quanto visual, com miniclipes de ilustrações feitas pelos artistas gráficos originais dos personagens. Já chegou até a acontecer uma exposição de arte do grupo em 2013 em algum museu impronunciável da Finlândia… quando eu falei no título que era um projeto multimídia eu realmente não tava brincando.

E bom… os bastidores do Studio Killers. Como eu falei anteriormente, eles preferem manter uma aura de mistério e anonimato, mas não surpreendentemente isso durou pouquíssimo tempo na prática. A internet é em si a maior ferramenta de pesquisa possível, então pouco a pouco os fãs foram descobrindo as identidades por trás das cortinas do grupo. A principal força responsável pela parte gráfica do SK é uma ilustradora e animadora sueca (mas que reside na Finlândia) chamada Eliza Jappinen, que criou muito dos conceitos visuais do grupo, incluindo a personagem Cherry – que de acordo com ela existe em concepção pelo menos desde 2007. Os músicos responsáveis por produção e composição instrumental são Darren Stokes e Philip Larsen, conhecidos no meio eletrônico por alguns projetos, como Manhattan Clique e Tin Tin Out… provavelmente são eles as pessoas por trás das máscaras de Goldie Foxx e Dyna Mink nos shows do Studio Killers também. Por último, o maior mistério que cercava o grupo virtual era a pessoa por trás da voz singular da Cherry nas canções (já que nos vlogs ela é dublada por alguma outra pessoa). Depois de muita especulação e cruzamento de informações, a internet “descobriu” que o responsável pelos vocais é o cantor finlandês Teemu Brunila, que foi vocalista da banda também finlandesa The Crash. Teemu, que aparentemente também é responsável pelas composições vocais e letras, nunca chegou a confirmar abertamente a informação, mas bem… é ele – e é interessante saber que a Cherry recebe os vocais de um artista masculino, já que isso dá sentido a alguns detalhes de piadas internas do grupo, como o fato da canção “All Men Are Pigs” possuir a sugestiva sentença “todos os homens são porcos / todos os homens menos eu” no seu refrão.

Esse retorno relâmpago para as redes sociais e consequente promessa de material novo do Studio Killers é o momento perfeito para que o público (re)descubra eles – e essa edição da Discothèque foi descaradamente feita com esse intuito, já que eu não podia deixar de panfletar a volta iminente de um dos projetos pelo qual eu mais possuo apego emocional. Quem sabe em breve teremos singles e clipes novos, além da possibilidade de um segundo álbum, já que o tempo de sumiço deles pode indicar o período necessário para a gravação de um disco completo (eu gosto de sonhar alto). A coluna fica por aqui, mas não se esqueçam de seguir as redes sociais do grupo, as mais relevantes devidamente listadas abaixo. A gente se vê em mais uma edição da Discothèque no mês que vem (ou nesse ainda se eu for produtivo) se vocês ainda tiverem saco pra acessar esse bloguinho aterrorizado por lawsuits diretamente do caixão de Coco Chanel. Até a próxima!

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#discotheque #studiokillers #edm #gorillaz #matéria

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