BICHAFORK Aula de noções óbvias sobre quantidade versus qualidade em Koda Kumi – "AND"

Se existe uma certeza a cada mudança de ano no calendário gregoriano é que, bem… a Koda Kumi vai lançar um álbum novo. Na verdade, talvez ela lance mais de um – tática que começou a adotar ano passado com os dois álbuns da série “W Face”, consolidando durante este ano com o seus 15º e 16º álbuns, “AND” e futuramente “DNA”. Há uma questão perigosa nesse ritmo quase frenético de lançamentos: mesmo se você for um artista grande e criativo o suficiente para conseguir render uma quantidade incrível de material em um espaço pequeno de tempo, é quase certeza de que esse material vai começar a apresentar uma queda gradativa em qualidade e coesão. E é nesse ritmo que vem o “AND“, primeiro dos álbuns de 2018 e que foi lançado no último dia 28 de fevereiro.

Se você não ouviu falar em Koda Kumi, então você basicamente não possui muita intimidade com música asiática ou não viveu a era de ouro das solistas da música pop japonesa entre o meio e o fim da década passada. A gata teve um início de carreira difícil lá no longínquo ano de 2000, mas com a ajuda de Final Fantasy e até da BoA (!!!) ela conseguiu um sucesso crescente e se tornou a grande it girl japonesa nos anos de 2005 a 2008. Depois de presenciar uma queda vertiginosa de popularidade por causa de uma das polêmicas midiáticas mais estúpidas que eu já ouvi falar (nível Ariana Grande lambendo donuts, mas com consequências sociais mais severas), Kodinha estagnou sua carreira num confortável espaço entre uma fanbase fiel e que ainda se dispõe a comprar seus lançamentos e o completo desprezo de boa parcela do público japonês. Dado esse contexto, parece inteligente que a cantora ande adotando uma estratégia mais “fan friendly” nos discos recentes, focando em agradar seus seguidores restantes com lançamentos mais do que nunca limitados para esse público. O “AND” é o exemplo perfeito dessa afirmação, sendo um álbum que precede uma turnê exclusiva para o fanclube oficial da Kodão e com zero estratégias de divulgação que visem um público maior.

Sim… em suma a Koda Kumi meio que já se tornou uma artista de nicho, e alinhando esse fato ao supracitado ritmo frenético de seus lançamentos, não é de se espantar que o material musical dela ande em uma incrível curva decadente.

PRECEDENTES

Kumizinha dificilmente é reconhecida por ser uma artista com material coerente, e algo essencial para se entender essa questão é o fato de que ela costuma flertar com uma variedade de subgêneros que compõem o âmbito da música pop – contando em sua carreira com faixas que vão do R&B (seu gênero inicial) ao pop-rock, pop farofa, baladas para mulheres fortes e até músicas vergonhosamente kawaii. Navegar entre espectros musicais diferentes acaba trazendo uma grande dificuldade de juntar tudo isso um corpo de trabalho coeso, e esse é o preço que a cantora acaba pagando em cada disco novo que é lançado (só para exemplificar, seu álbum menos all over the place até hoje é o recentíssimo W Face ~outside~, que nem possui tanto mérito por isso já que é um álbum bastante curto). No fim das contas fica muito mais fácil para o público encarar os álbuns da Koda Kumi mais como minicoletâneas dessa variedade musical que ela gosta de explorar e menos como álbuns lineares do começo ao fim.

Essa realidade, apesar de pouco louvável, era confortavelmente aceitável até um tempo atrás, visto que Kumi compensava a bagunça presente em seus álbuns com uma boa quantidade de singles e faixas de divulgação sólidas. Um dos melhores exemplos disso é o seu sétimo álbum de estúdio, TRICK, de 2009, que apesar de ser um disco instável e com uma tracklist que não faz muito sentido, consolidou-se como um dos favoritos dos fãs por possuir alguns dos singles mais icônicos de Kodão – como TABOO e Moon Crying – além de faixas de divulgação poderosas como Show Girl e Bling Bling Bling (̶J̶u̶s̶t̶ ̶t̶h̶e̶ ̶W̶a̶y̶ ̶Y̶o̶u̶ ̶A̶r̶e̶ ̶a̶ ̶g̶e̶n̶t̶e̶ ̶f̶i̶n̶g̶e̶ ̶q̶u̶e̶ ̶n̶u̶n̶c̶a̶ ̶e̶x̶i̶s̶t̶i̶u̶) e até deepcuts incríveis como Driving. A aceitabilidade dessa situação perdurou mais ou menos até o álbum Japonesque, de 2012, pois em seguida, ou a qualidade dos singles da cantora começou a cair rapidamente (isso resume todos os singles que precederam o disco Bon Voyage, de 2014), ou ela simplesmente parou de lançá-los para o público comum, o que aconteceu perto do álbum Walk of My Life (2015) talvez por queda de vendas ou simples mudança de estratégia de divulgação.

Sem uma boa quantidade de faixas standout para acompanhar, fica muito mais fácil perceber e se incomodar com os defeitos e a falta de fluidez dos discos, e é esse fantasma que assola cada lançamento da gata desde o supracitado Bon Voyage. Agravando esse quadro ainda outra questão: a escolha de repertório de Kodão anda cada dia mais duvidosa e privilegiando material de produtores e compositores não muito eficientes. [NORTEAMENTO SITUACIONAL] Claro, se você é um artista comprometido a lançar muita música em um espaço mínimo de tempo, dificilmente você vai sentar no estúdio e criar todo esse material do zero, então a opção mais apropriada é contratar musicistas diversos para lhe ajudar nessa missão – especialmente se eles já tiverem um bom número de faixas pré-prontas a apresentar, o que diminui ainda mais o tempo de produção de um álbum, por exemplo. Não há julgamento de valor artístico nisso, visto que é uma tática empregada em boa parte da indústria da música pop e que a própria Koda Kumi já utiliza há muuuito tempo… o problema é exatamente lançar mão dessa tática sem ter um senso seguro de direcionamento e fazendo escolhas potencialmente ruins. E isso anda acontecendo. Bastante.

CONTEÚDO

O “AND” apresenta muito de cara esses problemas anteriormente explanados dos álbuns da Koda Kumi, o que é piorado pelo fato de que o disco tem apenas 10 faixas, ou seja: nesse espaço curto de tracklist qualquer deslize acaba sendo muito prejudicial. O objetivo do álbum pelo menos parece quase bem-definido: se é para agradar os fãs, já que é um trabalho diretamente destinado a eles, a prioridade é dada a sonoridades atuais e upbeat, principalmente relacionadas ao urban, mas sem perder um pouco da identidade musical “espalhada” da artista. Ótimo no papel, mas na prática temos canções um tanto quanto datadas e derivativas, além de uma produção fraquíssima, especialmente nos quesitos de mixagem e… vocal.

A primeira parte do disco (faixas 1-5) parece no mínimo mais coerente, com músicas essencialmente high energy e que dialogam de maneira fácil com a música eletrônica/urban superficial que é produzida aqui no ocidente. Nisso temos uma variedade de sub-gêneros sendo explorados: EDM, trap, R&Bzinho nostálgico e future bass – e apesar dessa gama de estilos geralmente fazer sentido entre si, nada disso é desenvolvido em níveis lá muito interessantes porque as produções do “AND” sempre soam fracas e sem gana de explorar caminhos diferentes do básico. Pra ser sincero, tudo parece um tanto quanto pouco inspirado, a começar pela faixa que abre o disco, “PARTY“, uma mistura de trap com dance music farofa a la LMFAO que lembra muito descaradamente melodias de canções como “Hello” do Martin Solveig e “I Gotta Feeling”/”Party All the Time” do The Black Eyed Peas… e acho que isso exemplifica bem o quão datada a canção é (e eu não vou nem entrar no mérito dela ser tryhard e ter um clipe vergonhoso). A performance vocal de Kodão acaba também estragando muito a experiência nessa primeira metade do cd: soando descoordenada em “PARTY”, inaudível durante o refrão de “OUTTA MY HEAD” e ultraprocessada em níveis irritantes em “WHO” – onde os momentos cheios de autotune ou que vergonhosamente tentam imitar a ~swag~ de artistas urban ocidentais representam o fundo do poço do disco. “SWEETEST TABOO” (uma continuação de Big Boys Cry) e “GOT ME GOIN’” (mais uma demo da Jessie J) são um tanto quanto bland, mas, pelas entonações vocais mais decentes, ajudam a acalmar a rápida impressão de que o “AND” é puro e direto lixo musical de primeira categoria.

A segunda metade (faixas 6-10) não perde tempo em atirar para todos os lados. Aqui temos de início a balada “NEVER ENOUGH“, que em nada combina com o material apresentado nas faixas anteriores, mas né… Koda Kumi. O demérito dessa canção nem é ela ser uma balada em si (dá pra colocar baladas no meio de álbuns upbeat sem deixá-las horrivelmente deslocadas, vide o “W Face ~outside~”), mas sim o fato dela ser muito, mas muito imemorável, parecendo mais um obstáculo no meio do caminho do que uma faixa digna de atenção exatamente por ser diferente do material que a precede. “ALL RIGHT” é a básica midtime inofensiva e esquecível, enquanto “LIT” é uma faixa veronesca e kitsch, inspirada em pop-rock ensolarado dos anos 60… nenhuma delas parece realmente pertencer a esse disco, mas nessa altura do campeonato nada mais faz sentido aqui mesmo. Por fim temos “BRAIN“, hip-hop “agressivo” e preguiçoso (tão literalmente preguiçoso que a canção não chega a passar de 2 minutos e meio) e “IT’S MY LIFE” mais um urban-pop que até tem um desenvolvimento interessante, mas é estragada por um déficit de versos ou refrão fortes o suficiente, além de ser uma péssima escolha para encerramento de álbum (antes fosse um cover do hit de mesmo nome do Talk Talk).

Não querendo ser muito negativo com o estado atual da carreira da Koda Kumi (no negativity on this site, thank u), mas é impossível não reparar o quanto o “AND” representa a saturação do ritmo e lógica de trabalho da Kodão, além ser um exemplo bem aparente do cansaço artístico da gata. Todos os elementos que eu já achava irritantes nos álbuns anteriores dela parecem maximizados nesse trabalho, e infelizmente o futuro não indica cenários lá muito melhores que esse (o próximo álbum, “DNA”, já dá sinais de que vai ser mais uma bagunça urban genérica pelo andar da carruagem). O pior é reparar que a Kumi basicamente anda fazendo a mesma coisa ano após ano, com mudanças de rotina mínimas e resultados cada vez piores. Só um momento catártico, umas mudanças de prioridades e um gerenciamento mais inteligente de carreira podem salvar a gata de entrar num loop eterno de irrelevância musical e material sem personalidade comprado de produtores obscuros do soundcloud.

Tudo bem, tudo bem… pode até ser argumentado que o “AND” é um álbum lançado só para agradar os fãs fieis e divulgar uma consequente tour para esse público… mas mesmo assim dá aquela impressão de que hmmm… os fãs merecem coisa melhor que isso.