Medo Profundo: entre a superfície e a profundidade.

Um thriller debaixo d’água que falha em causar qualquer impacto que dure mais que 10 minutos, “Medo Profundo”, último projeto de Johannes Roberts – um diretor que é conhecido por nada – é um filme “ok” que causa tensão suficiente para seu nome. O filme tenta seguir o mesmo que “The Shallows (2016)” e “Jaws (1975)” fizeram em suas épocas, mas não consegue muita coisa, além de alguns sustos momentâneos.

Provando que Steven Spielberg ainda tem lá seus impactos, o filme se passa nas férias de duas irmãs, Kate (Clarie Holt) e Lisa (Mandy Moore) no México – um lugar perigoso óbvio -, quando ambas decidem que seria uma ótima ideia descer em uma jaula de metal para ver os tubarões passarem. Mas tudo dá errado quando a corda da jaula arrebenta e elas descem 47 metros de profundidade e o tanque de oxigênio das mesmas só tem uma hora restante.

Mesmo que não tenha sido um clássico como “Jaws (1975)”, o filme já lançado na gringa desde o ano passado, cumpre o seu papel de ser um thriller inofensivo sem muita profundidade. Porém, seus primeiros 30 minutos e as motivações das meninas são vazias até demais. Lisa (Mandy Moore) acabou de sofrer uma separação e quer provar para o seu ex-marido, indiretamente, que ela é divertida. E sua irmã Kate (Clarie Holt) usa essa vontade dela para convencê-la de mergulhar nessa aventura. O filme tenta mostrar que isso é realmente um grande artefato para convencer alguém de mergulhar numa jaula entre tubarões – ou simplesmente mostra que sua protagonista só é burra – e segue assim pelo resto dele. Antes, umas cenas bem bonitas de foreshadowing foram gravadas na piscina do hotel, onde uma das irmãs caem na piscina com um copo de vinho.

Com algumas cenas muito bonitas, e outras nem tanto, Medo Profundo segue tentando criar uma tensão fora da água: mostra o capitão do barco sendo filmado de uma maneira que o deixe parecer cruel junto com o seu outro companheiro – que joga isca no mar para atrair os tubarões. Totalmente desnecessário que isso fosse criado, e me arrisco a dizer que até mesmo xenofóbico, visto que os dois eram mexicanos.

Suas protagonistas só nos fazem torcer por ela por conta de toda a tensão causada pelos tubarões debaixo da água. Lisa é a típica personagem que não consegue tomar suas próprias iniciativas e fica uma hora inteira surtando na água. Ok, nós entendemos que em situações assim as pessoas ficam realmente em pânico e não tem muito o que fazer, mas isso em tela, em um filme, é mais produto de uma escrita preguiçosa do que qualquer outra coisa. Por isso que o filme falha miseravelmente em emular o mesmo de “The Shallows (2016)” – comparação impossível de não ser feita visto que os dois seguem a mesma temática de tubarões.

No filme citado, a protagonista pega você na torcida para que sobreviva, porque ela faz o máximo para isso acontecer. Ela se mexe. Ela é ativa dentro da narrativa. Além de ser muito esperta em muitos momentos. Já em Medo Profundo, só uma das protagonistas carrega isso, enquanto a sua irmã fica esperando ser salva no fundo do mar rodeada de tubarões. Uma espera insuportável considerando que o filme tem muitos minutos para rodar. A prova disso é que quando o panorama muda, e a irmã indefesa começa a agir, o filme toma uma proporção muito boa que podia ser tomada há uma hora atrás. Mesmo que as atuações tivessem sido boas aqui, não vemos muita expansão na personagem, o que é decepcionante em vários momentos onde você se pega torcendo por ela e nada acontece…..

Filmes dessas temáticas são extremamente carregados pelas suas protagonistas, porque além de tudo, não há nada para explorar. A importância de termos personagens cativantes e aprofundados se faz extrema nesses momentos. Por que ela deveria voltar? Por que eu tenho que torcer pra ela? Quais os motivos dela fazer isso? Todas essas perguntas se passam pela cabeça do espectador, e nesse filme em particular poucas são respondidas. Como disse antes, os motivos são burros e vazios, nada que faça carregar a nossa torcida por ela. E nada no filme nos faz crer que ela realmente é merecedora da nossa torcida. Morrer debaixo d’água sufocada deve ser terrível, mas só isso é capaz de nos fazer empático diante da situação? Óbvio que não somos monstros, mas considerando que isso é um filme, toda a falta desses fatores que nos fariam torcer por elas são produtos de um péssimo roteirista.

Independentemente de suas protagonistas sofrerem pela escrita preguiçosa do roteirista, as tensões criadas embaixo d’água são muito boas. Os tubarões, diferentemente do que achei, não ficam aparecendo o tempo todo por jumpscares baratos. São bem posicionados na sua maioria e nos deixam nervosos em muitos momentos. SPOILER: Há um momento onde as meninas são rodeadas de tubarões e só conseguimos ver quando elas acendem o sinalizador que foi mandado para elas, é simplesmente a melhor e mais bonita cena.

E no final de tudo, ainda somos presenteados com um plot twist, que apesar de previsível, você fica tão perdido com a tensão criada pelos tubarões que você esquece que ele estava prestes a acontecer. Mas que é bem válido para dar uma elevada na obra que não é muito boa – eu sou suspeito pois amo um twist. E nesse quesito bato palmas para o diretor. Tudo nesse arco foi bastante fechado, tanto que foi previsível, e é um dos pontos altos do filme, que não consegue nada mais além disso.

Mesmo assim, muitas coisas ficam faltando nessa mistura. Até porque, filmes como Medo Profundo, só conseguem passar a mensagem de que tubarões são péssimos e querem te comer o tempo todo, quando na verdade você que foi burro o suficiente para incomodar os bichos em seus próprios habitats naturais.

Devo confessar que muitos pontos dessa crítica devem ter sido influenciados até mesmo por uma falta de expectativa para esse filme. Sentado na sala do cinema estava esperando alguma coisa muito ruim, que não me agradaria em nenhum aspecto. E em algumas partes eu estava certo, falta uma boa protagonista para carregar ele e algo que seria responsável por tirar o filme da mesmice do tema, mas em outros eu até me surpreendi.

Pra quem gosta de filmes medianos que causam algum medo bobo, em situações obviamente burras, Medo Profundo é uma boa, afinal de contas, cumpre seu papel de ser um thriller decente. Mas pra quem quer mais, ou se acostumou com “The Shallows (2016)”, a experiência não vai ser tão boa assim.

Medo Profundo (2018)

Dirigido por Johannes Roberts

Data de lançamento: 8 de março de 2018

Duração: 1h 41min
Gêneros: Suspense, Terror
Nota: 2,5/5

#medoprofundo #critica #resenha #47metersdown #stevenspielberg

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