Dossiê CLC: A Síndrome Miley Cyrus

Não é surpresa para ninguém que versatilidade artística é um item presente nos girlgroups sul-coreanos. Também não é surpresa que esse mesmo “requisito” geralmente é confundido com falta de uma marca artística. Grandes grupos da geração antiga mais recente do K-POP como SNSD, Wonder Girls, After School e T-ara fizeram uma carreira inteira pautada na versatilidade. Mas até que ponto a sua “marca” é apagada por ser versátil? CLC e o trabalho da sua gravadora, CUBE, em criar um ponto reconhecível para o grupo são exemplos dessa confusão artística.

Desde os primórdios da new wave “teen” do K-POP (contando com nomes tipo TWICE, Red Velvet e G-friend), com o 4Minute já respirando com ajuda de aparelhos, a CUBE Ent. se viu na obrigação de lançar a sua nova aposta para elevar o nome da gravadora. Foi aí então que CLC (CrystaL Clear, péssima abreviação por sinal), surgiu. Formado por 5 membros na época – atualmente com 7 – essa é e continua sendo, a maior aposta da gravadora para se manterem relevantes.

Em março de 2015, o grupo formado por Seunghee, Yujin, Selena Gomez (Sorn), Seungyeon e Yeeun, viam o projeto de tantos anos como trainees se tornar realidade. “Pepe”, lead single do primeiro EP do grupo “First Love”, é catchy, jazzy e muito high-energy, uma ótima música em minha opinião para se começar um projeto. Nessa época parecia que o grupo seguiria essa linha meio quirky, flertando com um jazz em um pop retrô que a Coreia do Sul gosta e essa seria sua “marca original”. E isso ficou ainda mais forte depois que a CUBE, ainda em 2015, resolveu lançar um single chamado “Eighteen”, que seguia essas mesmas raízes retrô – e na minha humilde opinião uma das melhores do grupo, assim como debut.

Essa extensão entre debut e single solto teriam marcado o CLC como um grupo que traria o bom retrô, mostrando a versatilidade entre ritmos – já que “Pepe” era mais jazzy e “Eighteen” um synth que nos remetia aos anos 80. E meses depois a CUBE nos provava errado. “Question (EP)”, marcou o primeiro comeback do grupo. As expectativas não eram muito altas, visto que as duas músicas de trabalho anteriores não tiveram um bom desempenho em vendas, e o EP teve o mesmo caminho, o que levou a gravadora a tentar ainda mais com o grupo. Já que nada as marcou, por que não tentar algo que marque, não é mesmo? “Like” pode ter a mesma high-energy que a música de debut teve, mas a personalidade artística do grupo estava totalmente repaginada. A gravadora apostou em um pop-rock que afastou as meninas de suas “raízes” e as aproximou ainda mais do que estava em alta naquela época: o moderno.

O primeiro comeback de CLC, marca também o meu ponto principal. A síndrome de Miley Cyrus do grupo continua até hoje sem achar um estilo próprio. Sem uma marca original, e logo, sem um sucesso lucrativo para a gravadora quase-falida.

Mas é óbvio que para um grupo de uma gravadora mediana como o CLC, não é fácil se destacar na maré imensa de grupos que nadam nessa mesma água dos que ditam as tendências. Sem contar com uma das meninas ser tailandesa e essa diferença na nacionalidade da dela – que é palpável por ser tão diferente das amigas – causar um desconforto no público xenófobo sul-coreano (isso não aconteceria na Coreia do Norte bjss). Então é mais do que claro que a CUBE Ent. faria qualquer coisa para seu último ato feminino – tirando a Hyuna – se tornar rentável. E é esperado que eles façam mesmo. Mas é exatamente esse risco de não “mostrar para o que veio” que afasta cada vez mais o público do grupo.

O grupo seguiu com sua síndrome de Miley Cyrus atrás de um grande hit. Agora, com mais duas integrantes, Elkie – uma ÓTIMA adição ao grupo – e Eunbin, a gravadora mais uma vez viu uma luz no fim do túnel. A razão para isso foi por Eunbin, segundo a CUBE originalmente na line-up do grupo, ser participante do famoso reality show da época: Produce 101. O reality consistia em trainees batalhando por uma chance de debutar em um grupo provisório, e a gata do CLC tinha acabado de ganhar uma boa posição no top 11 do ranking total. Ao tomarem consciência da situação de Eunbin, a menina foi logo eliminada do programa, pois não acharam justo ela ter um grupo para debutar e as outras participantes não – acabou que todas ali no IOI já meio que tinham destino. Uma chance para o grupo finalmente deslanchar – com a ajuda da fia óbvio – e elas conseguirem o tão sonhado grande hit.

Mas como sempre a CUBE não chocou ninguém com um show de falta de profissionalismo e managment ruim. Por conta do contrato de Eunbin com o reality, ela não pôde aparecer nem no music video do single, obrigando a gravadora a lançar uma versão mais curta dele, escondendo a nova integrante mas mostrando Elkie, e muito menos performar durante a divulgação do do bendito single. Ou seja, serviu apenas para um hype momentâneo que a CUBE mal conseguiu aproveitar.

O que importa é que: “High Heels” mesmo tentando mostrar um revival do que seria a marca do grupo, falhou em muitos pontos. Talvez pela confusão na divulgação e todos os aspectos do grupo, a música – que ganhou versão japonesa no futuro e por lá recebeu o mínimo de atenção – não tenha tido tanto impacto quanto deveria. Mas possivelmente marcaria a volta do CLC para o seu conceito original: unir retrô e pop sem ser pretensioso.

Em meio a tantos acontecimentos dentro da CUBE – estávamos passando pelo disband oficial do 4Minute – um quase “novo começo” para o grupo chegou, mas sem esse anúncio. “No Oh Oh” marcaria a nova personalidade das meninas em conjunto. Em uma faixa bem mais hip-hop que o normal de se esperar, o CLC flertava com os 90s e mesmo assim não conseguiu nada lucrativo o suficiente para elevarem as meninas à pelo menos uma fanbase fiel no seu país natal. A música é inofensiva e talvez até tenha sido inofensiva demais, como o resto da carreira do grupo e as decisões da CUBE quanto à ele. Mas todos estavam certos que depois dali, as coisas seriam mais “fáceis” para o grupo. Depois de toda a cagada que eles fizeram com o que seria o suposto “debut” do grupo como 7 em “High Heels”, os fãs resolveram guardar na fanbase e seguir com esse como a estreia oficial do grupo em sua nova formação e nova personalidade.

O que não esperávamos era que Hyuna, o ícone do K-Pop conhecido por seus milhares de hits virais, iria assumir o grupo criativo por trás dos conceitos do CLC. Uma decisão que não assustou, visto que a idol havia acabado de sair um disband, já deu várias declarações polêmicas e desde sempre esteve na boca do povo coreano, censurada ou não, sem contar com a forte represália artística da Coreia do Sul em deixar outros artistas criarem algo. Era fato que CLC iria herdar a personalidade morta e uma música rejeitada do 4Minute. Uma imagem de “revamp” do grupo foi solta na internet, o hype foi criado e estava tudo mais que confirmado para a nova personalidade do grupo.

Sob a tutela de Hyuna, o grupo finalmente lançava a “Hobglobin” – escrita pela própria rainha ex-4minute e com conceito também produzido por ela – e o seu igualmente bom e surpreendentemente consistente EP, “Crystyle”. O grupo literalmente enterrou a imagem que você já conhecia sobre o grupo, colorido e retrô, dando lugar a uma roupagem mais moderna, “fashion-forward” e até mesmo “sexy”. A era Bangerz do CLC tinha finalmente acontecido e graças à morte do 4Minute que deixou essa faixa de presentinho, sem contar que ela é tudo que a última faixa do grupo, “Hate”, queria ser e nunca conseguiu,

Mesmo que tenha sido um INCRÍVEL avanço, os fãs internacionais veneram “Hobglobin” e o clipe rendeu até mesmo views decentes pro grupo, a música não se deu bem nos charts. A fama não aconteceu. Muito menos a controvérsia da era Bangerz da falecida Miley Cyrus. A faixa edm que amargou completamente nos charts da Coreia do Sul, pode ter sido o mais perto que as meninas chegaram de uma personalidade “original” – quase como o caso BLACKPINK e 2NE1 só que com pouco budget – e deu, de fato, mais exposição às meninas no mercado internacional, que não é muito rentável, mas já é alguma coisa.

Como a tentativa do hit instantâneo falhou – óbvio… – e a era Bangerz só deixou desfalques, era hora do CLC fazer a limpeza de imagem. Dessa vez, o grupo lançou a deliciosa “Where are you?”, uma das que conseguiu executar o conceito original do grupo com maestria. Um vaporwave responsável por um throwback para bandas como S.E.S. e Fin.K.L. (maiores grupos femininos dos anos 90). O problema todo é que era uma outra imagem, uma outra roupagem, quase como se fosse um novo grupo. Mas pelo menos conseguiram um top 10 no Gaon. Além disso, ainda temos o fato de ser uma típica faixa de inverno lançada no verão, o que obviamente não chamou muito a atenção do público coreano, pois é óbvio que uma música lentinha não faria muito barulho no calor.

As meninas ainda tentaram forçar o EP . “Free’sm” que é uma combinação de “prism” com “free”, o que aparentemente iria significar o conceito musical e visual desse projeto. O grupo divulgou “Summer Kiss”, uma faixa inofensiva de verão que pelo menos não fugiu tanto do conceito anos 90. Mas essa divulgação se deve ao fato do mismanegment da CUBE, pois como havia dito antes, lançaram uma faixa de inverno durante o verão, na época em que todos os grandes grupos aparecem sedentos pelo hit da estação. Além disso, o CLC também divulgou outra faixa, “I Like It”, o throwback que os fãs de “Hobglobin” precisavam, já que a faixa é tão edm-hip-hop quanto à outra. Mas nenhuma dessas marcou bem a personalidade do grupo, até mesmo por serem b-sides e ganharem menos exposição.

Com o comeback delas se aproximando, a CUBE Ent. lançou um single do EP mais recente das garotas. “To The Sky” é outra faixa inofensiva que serviu apenas para acalmar os fãs e avisar que o comeback estava chegando. Mas que parecia não destoar tanto da imagem que elas tinham apresentado no comeback anterior.

E quando finalmente nos deparamos com o comeback, uma nova personalidade do CLC surgiu. O conceito musical de “Black Dress” e o EP todo é sólido, consistente, e nos remete até mesmo à uma versão de “Hobglobin” mais suavizada. Uma música que mostra o “girl power” requisitado em muitas partes da Coreia do Sul, não foge muito dos padrões visuais do que o cidadão coreano gosta de ver e que além de tudo, representa o crescimento do grupo musicalmente e visualmente.

A música tem tudo que a gente aprecia: um bom break, um ótimo rap, uns gritinhos aqui e ali, e ainda consegue suavizar o edm por trás disso tudo. As meninas estão melhores do que nunca e ainda se arriscaram – mais uma vez – ao colocarem Eunbin para fazer um pole dance no final do clipe. CLC além de tudo, é um dos únicos grupos que conseguem fazer bom uso dos terninhos femininos. Ficou bem original e marcou esse comeback com alguma coisa ao menos. Torcendo pelas fadas.

O que é preciso entender dentro da CUBE – e muitas companhias coreanas – é que um hit grande não surge da noite para o dia. Mudanças repentinas de personalidade podem chamar mais atenção de certo público ao mesmo tempo que desagrada outra parte. É mais fácil construir uma fanbase sólida que ao menos irá apoiar o grupo em várias instâncias do que tentar, tentar e morrer na praia.

Agora só resta torcer para o time criativo da CUBE não inventar de criar mais uma personalidade pro grupo. Esse é o sétimo comeback do grupo, em algum momento o hit vai chegar, talvez em uma realidade alternativa em que a gravadora já tivesse montado essa solidez na fanbase elas já tivessem conseguido. Está na hora do CLC – e muitos outros grupos – mostrarem ao que vieram, com versatilidade, mas sem perder os aspectos que marcam a originalidade artística do grupo.

PS.: Eu sei que é completamente difícil ter originalidade artística dentro da indústria k-pop, mas estou falando de algo que MARQUE o grupo por ser o CLC e que as cure da Síndrome de Miley Cyrus.

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