Devilman Crybaby e a simpatia pelo absurdo

Não é novidade para ninguém que Netflix e anime não são lá duas coisas que tendem a combinar: as animações japonesas disponíveis no catálogo da gigante do streaming são escassas, com títulos que geralmente possuem relevância ínfima ou, quando relevantes, sempre se apresentam incompletos (vide Hunter x Hunter que passou anos sem os episódios finais por lá ou Mushi-Shi que tem disponível apenas a sua segunda temporada). As empreitadas da empresa no ramo da co-produção desse tipo de conteúdo também são falhas e, até um tempinho atrás, cheias de decisões duvidosas, como a animação computadorizada insatisfatória de Ajin e Knights of Sidonia, ou a noção de que dar vida a New Yokio seria uma boa ideia. De qualquer forma, do final do ano passado pra cá a Netflix pareceu estranhamente mais decidida a investir em conteúdo de animação oriental, dessa vez pelo menos mirando em obras potencialmente promissoras e franquias populares que soem chamativas para o público, como Godzilla, Fate/Stay Night, Cavaleiros do Zodíaco e a franquia focada nesta review: Devilman.

Devilman não é lá uma franquia muito conhecida entre o público ocidental (ouso até dizer que é bastaaante desconhecida por essas bandas), mas tem uma respeitada influência e status cult no mercado asiático. O título surgiu quase que simultaneamente com um mangá e um anime em 1972, sendo de autoria de Go Nagai, um dos autores clássicos de mangás japoneses e que é responsável por dar vida a séries extremamente populares durante os anos 70, como Mazinger Z e o clássico de ação objetificadora Cutie Honey (que rendeu um filme dirigido pelo Hideaki Anno e até deu uma carreira pra Koda Kumi). Devilman desde então tornou-se um nome extremamente popular no Japão, gerando adaptações quase incessantes entre os anos 80 e o começo dos anos 2000, que perderam o fôlego depois do live action produzido em 2004 e que é amplamente considerado como um dos piores filmes adaptativos de anime até hoje. Com a obra descansando um pouco nos últimos anos e vivendo às custas de alguns crossovers e spinoffs low key, foi uma sacada interessante a Netflix resolver revivê-la com uma adaptação moderna e arrojada da mídia mais aclamada da franquia: o mangá. E assim surgiu Devilman Crybaby. Se segura que vai ter leves pitadas de spoiler nesse texto.

O PLOT

Akira Fudo é um garoto bobo, tímido e esquecível que vive com a família de sua amiga de infância, a popular Miki Makimura, já que seus pais são médicos ocupados que estão sempre viajando por diversos países. Logo no início da trama ele reencontra com outro amigo de infância, Ryo Asuka, um jovem prodígio que leciona numa faculdade americana e recentemente participou de uma expedição para estudar tribos antigas na floresta amazônica. Ryo explica que, a partir da expedição, descobriu a existência de demônios – seres malignos pré-históricos que não possuem forma física – e que eles estão lentamente se infiltrando no mundo dos humanos, pedindo em seguida a ajuda de Akira em sua missão de “descobrir a verdade” sobre essas entidades.

A questão é que Ryo parece saber muito mais do que revela, e ele acaba levando seu amigo para uma festa demoníaca chamada Sabbath (ou Black Sabbath mesmo no mangá), onde consegue fazer com que o demônio Amon se apodere do corpo do pobre Akira. Como o protagonista tem o coração puro ou whatever, ele consegue “dominar o demônio dentro de si” e controlá-lo, passando a se definir como “Devilman”, já que agora ele não é mais humano, mas também não é totalmente um demônio. Após isso, acontecimentos estranhos que atingem todo o elenco da série começam a levar o roteiro para uma inevitável (e regada a muito synthpop) guerra apocalíptica entre os demônios e a humanidade.

CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

Crybaby possui alguns objetivos facilmente identificáveis: além de modernizar a franquia Devilman e apresentá-la a um novo público consumidor (nesse caso mais jovem-adulto), o anime também tem a pretensão indireta de mostrar que a Netflix pode ser “fora da caixa”, desconstruidinha e prafrentex até com conteúdo animado desse tipo. Para atingir esses objetivos, a série conta com a direção fluida e pseudo experimental de Maasaki Yuasa, diretor que viveu recentemente um grande hype com os longa-metragens The Night is Short, Walk On Girl e Lu Over the Wall (que é Ponyo cuspido), além de roteiros competentemente viajados de Ichiro Okuchi, nada menos que um dos caras responsáveis por parte da concepção de um dos animes otaku-favorite: Code Geass.

A animação de Crybaby é um assunto à parte: capitaneada pela experiente Eunyoung Choi, ela tem uma aparência “descolada”, se diferenciando dos visuais comuns de animes 2D mas não chegando exatamente a flertar com técnicas 3D. A arte é limpa, “maleável” e cheia de distorções de traço que em muitos momentos parece relembrar um pouco animações feitas com técnica de rotoscopia. O problema é que, apesar de competente, a animação vez ou outra atinge um nível de precariedade que a faz parecer ser produzida em fash – e eu sinceramente não sei dizer se isso é uma escolha estilística ou se a série simplesmente excedeu o orçamento em alguns episódios. O roteiro toma diversas liberdades artísticas sobre o mangá original, modificando desde acontecimentos simples a elementos-chave da trama, além de modernizar a ambientação e maximizar a presença de conteúdos adultos como sexo, drogas e a violência gráfica já presente em menor escala na obra de Go Nagai.

O QUE TORNA A EXPERIÊNCIA VÁLIDA?

Esses elementos que eu citei anteriormente fazem Devilman Crybaby ser no mínimo uma série digna de atenção, mas nenhum deles consegue se equiparar ao que realmente dá gás ao anime: o fato de que muito do desenvolvimento da obra é alicerçado, para o bem ou para o mal, por altas doses de absurdismo. Ações dos personagens, progressões do roteiro e até várias sequências visuais – tudo isso é ligado por um gradativo fator absurdo, e quanto mais você acha que a série não consegue se superar em apresentar acontecimentos chocantes e ilógicos, mais ela prova que consegue. A gana da produção em surpreender e atiçar frequentemente o espectador é mais ou menos a arma que ela escolhe pra conseguir destacar Devilman Crybaby na multidão, e em certos momentos essa habilidade do staff consegue ser usada com bastante maestria, rendendo vários acontecimentos de tirar o fôlego no decorrer da jornada.

Prova disso é o primeiro episódio da série, uma micro obra prima de 22 minutos que se divide em dois humores distintos: a primeira metade calma e ensolarada, que apresenta a vida pacata de colegial do protagonista e alguns elementos da trama antes de seu primeiro grande twist, e a segunda parte obscura e frenética, que conta com as cenas despudoradas, trippy e altamente grotescas do Sabbath – de longe a melhor sequência da série e também um enorme êxito diretorial. Essa dualidade do episódio revela o quanto Crybaby consegue criar uma atmosfera simples para depois enchê-la de mudanças bruscas e distorções do senso-comum, e é geralmente isso que dá o tom da série na maioria de seus melhores momentos. Apesar das ressalvas que eu fiz anteriormente, o estilo da animação é quase que o veículo perfeito para as propostas absurdistas do anime, imprimindo visualmente, com um ótimo design de cenário e personagens, todo o arrojo cool que uma obra com ambições desse nível necessita.

Como ponto forte complementar, Devilman Crybaby tem uma construção dos personagens centrais rica em detalhes, mesmo que eles surjam subliminarmente: Akira é um protagonista decente, tem uma personalidade entendível até quando tomado pelo ódio, mas não deixa de ter as fraquezas e atitudes duvidosas que o tornam crível. Miki, por ser uma japonesa mestiça, é tão centrada em ser uma pessoa exemplar que acaba não percebendo as coisas potencialmente erradas que acontecem ao seu redor. Já Ryo é o maior destaque nesse âmbito, pois sua personalidade ambígua e suas atitudes altamente suspeitas conseguem traduzir muito fielmente o flerte do anime com esse ethos de surpresa e absurdo que eu falei. Por ser uma obra que fala de demônios, aspectos culturais são adicionados para dar ainda mais estilo à coisa toda: referências bíblicas são jogadas pra lá e pra cá, tanto no âmbito visual quanto nos diálogos e ações dos personagens – e isso ajuda a desenvolver uma tímida mitologia na trama como, por exemplo, o fato notado pelos fãs de que todos os personagens principais que viram demônios durante os episódios passaram por alguma conduta sexual altamente reprovável pelo cristianismo: homossexualidade, perversão sexual, masturbação etc.

É engraçado perceber como muito dos conceitos pesados e absurdistas que permeiam a adaptação já estavam presentes desde os anos 70 na obra original de Go Nagai, que tecnicamente mirava um público bem mais jovem que o anime atual. Apesar de Crybaby modificar boa parte do elenco, “retraduzindo” certos personagens de forma independente, o trio principal é quase que fielmente transposto do mangá para as telas, tendo sofrido alterações de personalidade mínimas na transição de uma mídia para a outra. O mangá aliás conta com o desenvolvimento maior de alguns demônios poderosos que não ganharam lá muito screentime (ou justiça) na versão da Netflix, como Xenon e a assustadora Psycho Jenny, que só aparecem nos episódios finais de Crybaby. Já outros detalhes que o anime ignora são bem mais definidos nas páginas da versão em quadrinhos: o amor de Ryo por Akira, por exemplo, é algo que o autor deixa bem claro na obra, citando que esse seria o único defeito do personagem – afinal, o jovem prodígio não é nada mais nada menos que o próprio Satanás, e se apaixonar por um mero humano é um desvio de curso na sua missão de destruir o mundo.

Ok: apesar de citar extensivamente o absurdismo como o trunfo de Crybaby, pra ser sincero ele começa a dar sinais de cansaço lá pelo sétimo episódio, onde os acontecimentos surpreendentes passam a ser apenas o choque pelo choque e certas sequências absurdas servem somente como um deus ex-machina pra levar o roteiro a uma finalização satisfatória. But who cares? Devilman Crybaby é um standout ainda assim, se saindo suficientemente bem como uma série isolada, mas também atingindo com firmeza seu difícil objetivo de reviver com estilo uma franquia relativamente datada. Por ser uma obra curta (com 10 episódios de 20 minutos cada) e estar facilmente disponível na confortável bolha da Netflix, a série é quase que uma recomendação obrigatória, sendo extremamente interessante de acompanhar e exigindo do espectador não muita coisa além do estômago e talvez 97% dos neurônios saudáveis.

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