Phantom Thread: entre o caos e o glamour

Eu não sei exatamente o que dizer sobre Trama Fantasma, novo filme do lendário e renomado diretor Paul Thomas Anderson, responsável por filmes como Boogie Nights (1997), Magnolia (1999) e Sangue Negro (2007). Quando eu comecei a escrever essa review, eu estava colocando todos os meus sentimentos conflituosos nela e parei para analisar e percebi que na verdade, ao contrário do que eu pensei anteriormente, eu gostei e MUITO desse filme.

A história traz a Inglaterra pós-guerra dos anos 50 como pano de fundo da história do renomado costureiro Reymond Woodcock (a última atuação do Daniel Day-Lewis antes de sua aposentadoria após 40 anos de carreira), que administra uma das maiores grifes de vestidos londrina juntamente a sua irmã, Cyril Woodcock (Lesley Manville). Reymond vive indo e vindo com mulheres, até que se apaixona por Alma (Vicky Krieps), uma garçonete que ele encontra em um restaurante que vai tomar café da manhã. Alma é diferente de todas as outras mulheres de sua vida e acaba transformando a vida de Reymond ao passar a viver na sua casa, sendo sua amante e sua musa inspiradora.

Essa, no entanto, não é uma história de amor e sim uma história sobre amor. Não qualquer tipo de amor, mas um amor corrosivo, tóxico e completamente abusivo. O relacionamento de Reymond e Alma é doentio, e isso é completamente perceptível, mas é justamente isso que PTA quer passar com a sua história. Reymond é o que chamamos de troubled genius e em Phantom Thread estamos lidando com a sua inabilidade de conciliar a sua vida glamorosa com a sua vida amorosa, de um jeito ou de outro.

[Vicky Krieps, Daniel Day-Lewis e Lesley Manville em cena]

Preso em uma rotina estabelecida por ele mesmo, Reymond não lida muito bem com mudanças, e isso fica claro quando percebe que ele ainda é assombrado pela morte de sua mãe. Alma chega para poder quebrar esses paradigmas, já que ela tem todas as suas motivações para tal. Ela ama Reymond e quer ser amada pela mulher que ela é, e não apenas como uma musa, como qualquer outra mulher que Reymond teve e dispensou. Ou melhor, teve Cyril, que funciona aqui como o seu braço direito, para poder dispensar por ele. Alma não está aqui para mudar quem ela é e isso é brilhante. Abro um parênteses aqui para dizer que Vicky Krieps foi a minha coisa favorita do filme todo e é uma pena que ela não tenha sido tão reconhecida e/ou aclamada como o resto do elenco (Lewis e Manville foram ambos indicado ao Oscar), pois ela carrega o filme nas costas.

Por conta disso, e de todas os pequenos twists no roteiro, que, inclusive, envolvem cogumelos venenosos, Phantom Thread é uma história bastante desconfortável e não é fácil de se assistir. PTA vai ao fundo para poder explorar esses dois humanos e como eles se destroem ao estarem juntos, cada um buscando pelo seu objetivo, da forma mais egoísta possível. Some todo esse estudo psicológico à uma trilha maravilhosa e uma produção de design fantástica, com vestidos deslumbrantes a todo o momento que fazem você se sentir mais pobre do que nunca. Isso é o prato perfeito para uma masterpiece. É incrível como no meio de tanta beleza pode surgir algo tão feio e vil.

[Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps em cena]

Eu tive muitos problemas com o ritmo de Phantom Thread, que parecia muito mais lento do que estava sendo, e eu tive que checar o horário em diversas partes, porque parecia que não iria acabar nunca. Não estava sendo insuportável, mas eu não estava sentindo o clima slow-burn que PTA quis transmistir com a sua obra. Só que, parando para analisar depois tudo o que eu senti com o filme, acho que entendi perfeitamente o que PTA quis passar com esse ritmo mais lento. Essa sensação de desconforto de você estar assistindo dois humanos se destruindo por conta de seus próprios interesses e não poder fazer nada… É genial.

[SPOILERS]

No entanto, o final do filme me deixou com um gosto um pouco amargo na boca. Eu entendo o que PTA quis fazer quando deixou Alma e Reymond juntos no fim, com uma relação extramemente self-centered onde os dois sairiam ganhando do jeito que eles queriam desde o começo (ela sendo amada por ele por estar cuidando dele enfermo e ele recuperando sua força artística e criatividade para fazer vestidos quando não estivesse mais enfermo), mas não sei se gosto dessa resolução.

Ter terminado assim, colocando a única motivação da vida da Alma (já que não sabemos nada sobre a personagem pois ela não tem backstory nenhuma) ser receber o amor de um homem completamente nojento (em uma relação super abusiva), é muito… não pra mim, mesmo sendo genial para a história e fazer todo o sentido. Se não fosse por Vicky Krieps, eu tenho certeza que Alma não teria a força que tem e sua esnobada no Oscar me deixa cada vez mais incerto de justiça no mundo.

Ainda assim, Phantom Thread é denso e brutal e vale a pena ser visto. Estreia dia 22 de Fevereiro nos cinemas do Brasil.

Phantom Thread (2017)

Indicado a 6 oscars, incluindo Melhor Filme

Dirigido e escrito por: Paul Thomas Anderson

Estrelando: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville

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