BICHAFORK: O MGMT tá meio atrasado no revival dos anos 80

Tanto quanto essa review do cd deles também tá atrasada

Ok, a gente conhece a trajetória do MGMT e é até redundante falar sobre ela: talvez você tenha dançado com um ou outro hit deles entre 2008 e 2009, talvez o Oracular Spectacular tenha sido o cd da sua vida durante a adolescência, mas tudo isso foi por água abaixo quando a banda embarcou em um turbilhão mal planejado de neopsicodelia a partir do segundo álbum, o Congratulations de 2010. Depois de um tempo ficou até meio difícil se identificar com o som dos caras, que parecia gradativamente querer antagonizar com o que tornou eles famosos uns anos atrás, muito além de simplesmente almejar evoluir naturalmente.

Disto isso, fica difícil entender por qual motivo o grupo resolveu se lançar em um som minimamente mais acessível nessa altura do campeonato, já no quarto álbum – o Little Dark Age, lançado algumas semanas atrás. Enxugando um pouco a psicodelia desenfreada dos álbuns anteriores (que no Congratulations ainda era plausível, mas fica extenuante no terceiro álbum, autointitulado), o MGMT entra um pouco tardiamente na onda do revival dos anos 80, a não-tão-mais-recente tendência da música indie de requentar sonoridades e arranjos dessa época que foram importantes na consagração de gêneros como o funky, o new wave e até a música pop. Digo que o engajamento da dupla nesse revival é tardio porque, durante essa década, tivemos extensivos exemplos de artistas da esfera alternativa que empreenderam em lançamentos envoltos por uma aura de revival, o que engloba nomes como Solange, Blood Orange, Jesy Lanza e La Roux.

De qualquer forma isso não é um demérito para o MGMT, já que toda a reinvenção é bem vinda e, no caso deles, até pontualmente necessária. Resultado de uma união de forças com Patrick Wimberly (ex-Chairlift e responsável por atuar na produção do “A Seat at the Table” da Solange) e a quase onipresença indie do provável misógino Ariel Pink, Little Dark age vem repleto de experimentações com sintetizadores, melodias infecciosas e ainda um pouco de espaço para uma neopsicodelia aqui e ali, o que resulta num trabalho balanceado e com capacidade para agradar os admiradores da época do Oracular Spectacular e também o público escasso que continuou acompanhando a dupla após esse período. O álbum é variado em questão de sonoridade, e poderia muito bem ser o trabalho de recuperação musical de alguma mixtape de hits potencialmente esquecidos dos anos 80. Nisso temos canções que flertam com uma variedade de subgêneros oitentistas, como a goticismo synthwave da faixa título (facilmente inspirado em Depeche Mode ou New Order), a dissolução de baterias oriundas da exotica e hooks fáceis reminiscentes do Yellow Magic Orchestra em “Tslamp”, o pop retrô kitsch de “Me and Michael” e a soft psicodelia do segundo single, “When You Die”.

Durante a audição do disco, fica claro que o MGMT em alguns momentos se esforça pra trazer uma aura cool para o trabalho, alinhando algumas canções a discussões contemporâneas (de forma até um pouco falha) e tentando imprimir uma identidade quirky ao projeto afim de diferenciá-lo do que seria um simples retorno do grupo aos braços da pura música pop facilmente digerível – e tudo isso pode dar a impressão de que o Little Dark Age é meio tryhard, principalmente no âmbito lírico, algo que é bem visível em faixas como “When You’re Small” e a supracitada “Tslamp”. Isso não apaga os momentos bons do álbum, como a faixa de abertura, “She Works Out Too Much”, um synthpop descaradíssimo com efeitos de vocoder e inserções conversacionais de voz feminina – e que facilmente poderia ser uma música do catálogo do bo en caso ele trabalhasse com instrumentações mais elaboradas. Completando os destaques, “Days That Got Away” traz novamente claras influências do Yellow Magic Orchestra em uma experiência instrumental meio vaporwave de quase 5 minutos e “One Thing Left to Try” mostra o Andrew VanWyngarden trabalhando ativamente em mudanças de timbre do seu vocal por cima de uma fusão synthpop-psicodélica que só o MGMT poderia render.

É um mistério se a dupla vai continuar investindo futuramente nos gêneros que formam o Little Dark Age, ainda mais pelo fato de, como já citei, a onda de revival oitentista já anda avançada e talvez ganhe sinais de cansaço daqui a algum tempo, além do fato de que o MGMT pode agir de forma imprevisível como fez antes e dar um twist total de sonoridade já no álbum seguinte, afinal eles parecem tratar tudo como uma grande piada repetidas vezes. Mesmo assim, o Little Dark Age é uma pequena preciosidade na discografia acidentada da dupla, e quase um manifesto de que sim, eles ainda estão vivos e lançando material depois de “Kids”, coisa que talvez muita gente nem tenha percebido nos últimos anos.

Ouça: “She Works Out too Much”, “Tslamp” e “One Thing Left to Try”

#MGMT #synthpop #surradesynth #littledarkage #arielpink #bichafork

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