BICHAFORK: ionnalee e o manifesto dos esquecidos

Há exatamente um ano, Jonna Lee se desfazia de sua última persona para criar (mais) uma nova. Dessa vez a sueca e falsa albina começaria a adotar o nome “ionnalee” e nos dava um gostinho do que seria o primeiro álbum do novo projeto com o single “SAMARITAN”. A faixa caiu como uma bomba na fanbase ainda restante do projeto iamamiwhoami, visto que, na letra, a artista fala abertamente sobre não querer corresponder às expectativas cada vez mais pesadas que o público colocava sobre essa persona e clamava por liberdade sobre a forma como ela queria pôr em prática seu próprio trabalho. “SAMARITAN” seria apenas a primeira parte de uma série de lançamentos que levariam ao recém-lançado álbum “EVERYONE AFRAID TO BE FORGOTTEN”, que já pode ser considerado, sem dúvidas, o projeto mais ambicioso da cantora, com direito até mesmo a um filme de 53 minutos para elevar a obra.

Uma charada no cenário musical durante seu tempo de atividade, os visuais de iamamiwhoami foram chocantes e questionados por fãs e pela mídia nos anos de provocação e obscuridade do projeto, entre 2009 e 2011 – comparações com popstars da época surgiram aos montes e basicamente surgem até hoje. Essa sua tática de aguçar a mente curiosa do público através de teasers poucos reveladores e peças visuais embebidas em aura de mistério foi bastante bem sucedida, rendendo, durante três trabalhos – bounty (2010), kin (2011) e BLUE (2014) – um verdadeiro “auê” nas redes sociais e uma rápida onda de especulações sobre a identidade da artista por trás do projeto e também dos produtores – rumores apontavam até mesmo que Christina Aguileira era a pessoa responsável por toda aquela inventividade. O pseudo anonimato foi gradativamente acabando com o tempo, em um processo natural que levou a identidade de Jonna Lee a já ser reconhecida entre o segundo e o terceiro álbum.

Todos esses três trabalhos – visuais e sonoros – levaram o iamamiwhoami ao seus melhores momentos, culminando em prêmios dentro da comunidade sueca – como o Grammis, versão local do Grammy – e extensivo reconhecimento na bolha indie. Foi só por conta desses êxitos que podemos hoje ter um trabalho tão pessoal de Jonna Lee, um que além de mostrar o futuro “fresh” que a artista ainda possui, honra o seu passado. “EVERYONE AFRAID TO BE FORGOTTEN” contém as mais obscuras inseguranças, o medo que assola todo ser humano e as pressões sociais que perpetuam-se dentro dentro de cada um de forma cada vez mais intensa – a artista parece ter maestria em captar esses temas em sua sonoridade synthpop quase pós-apocalíptica e suficientemente envolvente. O álbum de ionnalee é, mais do que um projeto, é um grito para todas as expectativas que temos sobre quem é Jonna Lee.

É comum que em tempos como esses, quando mergulhamos cada vez mais em redes sociais que nos recebem com mais e mais informações, a sociedade – ou cada membro dela – sinta uma necessidade imensa de ser lembrado. Todos queremos isso. Nem que seja um simples manifesto da nossa passagem, queremos garantir que um pouco de nós seja marcante o suficiente para que não tenhamos a nossa vivência despercebida – e sobre isso que ionnalee tenta refletir no trabalho, analisando seu próprio papel na sociedade, como mulher e como uma artista feminina. É através da sua própria perspectiva que vemos o quão afetada ela está por conta de tudo que foi jogado em suas costas – e aqui novamente pontuo “SAMARITAN” como faixa importante no contexto. Os assuntos abordados na maioria das músicas do disco e a forma como ele é produzido com aspectos quase perfeccionistas são a chave para o trabalho ser um dos seus mais coesos da artista até então, tanto no âmbito sonoro quanto na linearidade temática.

Em recentes entrevistas, a cantora também disse que os temas subliminares desse álbum podem ser sobre a percepção do ouvinte quanto o seu trabalho, visual e sonoro. E é uma realidade: o trabalho visual de artistas pode ser lindo e majestoso, mas na contemporaneidade pode soar como se um músico não fosse suficiente. É impossível não analisar música (ainda mais pop/indie) hoje em dia sem levar em conta a questão complementar visual que ela traz, e ionnalee entende perfeitamente essa questão, usando seu conhecimento sobre a importância do visual e trazendo uma das experiências musical/cinematográficas mais legais que a indústria musical pôde render recentemente:

O filme que acompanha seu álbum foi dirigido por ela mesma, junto com o diretor John Strandh. Nele, vemos uma síncope de tudo que ionnalee quer dizer com seu álbum e, óbvio, que uma chuva de conceitinho que não podia faltar.

A faixa “GONE”, fecha o filme com uma maestria incrível. Um dos primeiros singles do álbum, ele sintetiza tudo que Jonna quer passar – ou parece – ao lançar esse manifesto contemporâneo e todos os temas que nele habitam. A letra que ecoa e afirma o lugar das suas ações pode soar como uma daquelas de coração partido, mas junta ao projeto todo, entendemos perfeitamente sua mensagem. Acho que um dos erros dele é não fechar com essa faixa, o que seria sem dúvidas um grito ainda mais forte para os que mais necessitam. Além dela, tivemos também a bastante citada “SAMATARIAN”, standout do álbum e que ganha um tratamento visual à altura, com o segmento dessa música no filme sendo incrível e contando até coreografiazinha.

A estreia do projeto ionnalee sem dúvidas passeia pelos seus synths mais conhecidos pela fanbase do iamamiwhoami, mas continua nos entregando um trabalho incrível e evoluindo musicalmente. Dita seu próprio tempo com as primeiras 4 músicas e nos traz algo mais calmo depois disso – e mesmo assim recupera logo depois. Nenhuma descartável – tirando a monótona “DUNES OF SAND” – em uma solidez que eu particularmente esperava da cantora. Jonna Lee não desaponta em nos servir um dos álbuns que sem dúvidas pintarão na nossa lista de melhores do ano.

Ouça: JOY e GONE.

#ionnalee #synthpop #jonnalee #iamamiwhoami #everyoneaffraidtobeforgotten #surradesynth #bichafork

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s