Discothèque #3: Black Canary e a ficção que produz música crível

É interessante parar pra pensar como a gente não se dá propriamente conta de que existe todo um universo de bandas e artistas fictícios altamente onipresente no entretenimento. Minha mais remota lembrança de bandas fictícias existe desde que o SBT reprisava desenhos clássicos dos anos 70 e 80 durante a minha infância, como Josie and the Pussycats e Jem and the Holograms – animações repletas de girlbands, “clipes” e músicas originais. Já entre o início e o final da minha adolescência, entrei em contato com um sem-número de acts desse tipo que povoaram diversas obras de ficção com as quais eu tive contato, como Pink Slip, Black Stones, The Cheetah Girls, Sex Bob-omb e até Hannah Montana (!!!). Paralelo a isso também existem os artistas e bandas “virtuais”, criados por pessoas profundamente envolvidas na indústria musical e que geralmente rendem uma carreira contínua e lançamentos constantes, como Gorillaz, Studio Killers ou a Hatsune Miku – mas isso é outra história.

O que eu quero focar aqui são as bandas e artistas fictícios que tinham ligação direta com algum nicho do entretenimento – filmes, séries, quadrinhos, animes ou conteúdo para web – existindo como uma espécie de suporte para um tipo específico de mídia e não tendo vida útil fora dessa limitação – tudo bem que Hannah Montana chegou a fazer seus shows solo ou que os The Blue Brothers emplacaram hits de verdade, mas eles nunca se expandiram para além das obras que os revelaram. Algo notável nessas experimentações musicais fictícias é que que, por mais que muitas dessas bandas e artistas sejam simpáticos, ativem afetividade nostálgica ou tenham marcado momentos importantes ou não das nossas vidas, a maioria deles não gera verdadeiro envolvimento artístico, não quebra a quarta parede e não rende música que seja crível, equiparável à música produzida no “âmbito da realidade” (além de ter uma grande propensão a envelhecer mal). Como eu poderia exemplificar melhor essa afirmação? Por mais que eu adore alguns cds da Hannah Montana ou ache Take Me Away e Amigas Cheetahs divertidíssimas, eu dificilmente diria que esses são álbuns ou canções estão entre os meus favoritos ou que poderiam competir de igual para igual com artistas e bandas reais – e muitas vezes nem possuem essa ambição, afinal geralmente não passam de material criado como suporte para obras ficcionais e… bom… devem ser julgadas como tal.

Mas existem exceções nesse contexto (!!!), e é uma dessas exceções que liga o assunto apresentado até agora ao objeto dessa terceira edição do Discothèque: a banda fictícia Black Canary. Se você possui um conhecimento mínimo sobre o universo dos heróis de quadrinhos, nem que seja por aquelas séries adaptativas safadíssimas da CW (como Arrow ou The Flash), já deve saber quem é a Canário Negro: também conhecida como Dinah Drake (ou Lance), ela é uma das heroínas quase clássicas da DC Comics que é conhecida por sua atitude badass e por possuir a habilidade do “grito do canário”, uma amplificação supersônica de sua voz. Proveniente de Gotham, mesma cidade do Batman, e geralmente coadjuvando em HQs dos já supracitados Arqueiro Verde e Flash, ela é uma heroína um tanto quanto subestimada, não possuindo o prestígio de outros grandes nomes femininos da DC, como Mulher Maravilha ou Batgirl, e tendo inserções bem mais modestas em outras mídias além das HQs (a gata aparentemente nem vai dar as caras no universo cinematográfico atual da DC). Dentre as várias encarnações que a personagem já recebeu nos quadrinhos, em 2015 finalmente tiveram a brilhante ideia de aproveitar o habilidade vocal marcante da Canário e colocá-la em uma banda fictícia, o que marcou a estreia da série quadrinizada “Black Canary”, escrita por Brenden Fletcher, ilustrada por Annie Wu, e claro, contando a história da banda de mesmo pseudônimo da heroína.

A série durou 12 edições, rendendo 2 volumes compilados – e como se não bastasse trazer todo um novo approach à Canário Negro, também contou com o lançamento de músicas reais para dar suporte ao material, num total de 2 EPs que acompanharam a divulgação de cada uma das compilações. O que dá importância ao material musical de Black Canary é exatamente a questão que eu levantei uns parágrafos atrás: mesmo ele sendo apenas uma extensão da divulgação de uma obra de entretenimento, as músicas são surpreendentemente muito boas e poderiam facilmente render ao Black Canary o cult following que grandes nomes da música real possuem. Além disso, as músicas podem ser facilmente apreciadas isoladamente, sem precisar obrigatoriamente que o ouvinte também consuma a HQ, mas ao mesmo tempo funcionam perfeitamente como acompanhamento para o material de onde surgiu – o que é fácil de se conseguir quando se trata de uma mídia audiovisual como filme ou série, mas bem mais complicado quando se trata de uma mídia apenas visual como os quadrinhos. Os próprios desenvolvedores da HQ ajudaram na crianção dos EPs, trabalhando em conjunto com o produtor musical e compositor Joseph Donovan e a vocalista do projeto musical CAVEBOY, Michelle Bensimon, que faz a voz da Dinah.

As músicas de ambos os EPs (convenientemente intitulados como “EP1” e “EP2”) apresentam uma atmosfera no geral densa, até um pouco gótica em certos momentos, mas sem perder o espectro e appeal pop rock. Instrumentalmente é como se bebessem da influência dream pop do Cocteau Twins, mas com um twist indie rock/power pop que remete a bandas como Metric (e quem sabe até Yeah Yeah Yeahs pós-Show Your Bones). Ótimos riffs de guitarra e melodias vocais são embalados por sons estranhos de estática, ecos, intervenções eletrônicas e escolhas interessantes de arranjos aqui e ali. Os vocais da Michelle dão todo o tom do trabalho, tendo uma personalidade muito própria e a identidade certíssima pra carregar a atitude naturalmente forte da Canário Negro – trazendo, quem sabe, uma ótima inspiração direta nos trejeitos vocais da Siouxsie Sioux. O EP1 é mais diversificado, trazendo um pop-rock psicodélico e extremamente singalong com “Fish Out of Water” (extensamente citada no primeiro volume da HQ), o rock melancólico e amargo de “Old World” e um cover enérgico da banda Bauhaus, “The Man With the X-Ray Eyes”. O EP2 tem característica mais linear, com as letras em tons mais “apocalípticos” e melodias oscilando timidamente entre a melancolia e a inquietude, com destaque para “Lost Art” e “Last Days”. Ah, tudo tem uma inspiração new wave/anos 80, mas sem deixar isso totalmente escancarado.

Como banda fictícia, a storyline da Black Canary é suficientemente bem-desenvolvida, afinal a HQ segue de perto o dia a dia da banda, mostrando a “rotina” caótica do grupo na estrada enquanto o passado da Dinah vai sendo explorado. Além da Dinah nos vocais, a banda também tem em sua formação as personagens Paloma (instrumentações eletrônicas), Lorde Byron (bateria) e Ditto (guitarra), todas com backstories e conflitos próprios, que ajudam a enriquecer ainda mais a narrativa. Algumas ideias c0000l deixam as coisas intensamente interessantes: como insights sobre a indústria musical, vinganças de ex-vocalistas surtadas e o conceito de batalha de bandas sendo levado a outro nível. A HQ é um pouco irregular em alguns aspectos, com o roteiro do Brenden Fletcher agindo de forma brusca em diversos momentos (o que é uma pena já que ele é um roteirista normalmente competente, vide o ótimo trabalho com outra obra que é minha favoritinha, “Gotham Academy”). Algumas mudanças na parte visual também ajudam a deixar essa impressão de instabilidade no material: os desenhos são primordialmente assinados pela artista Annie Wu, mas em determinadas edições ganham a arte bem mais sem graça de Pia Guerra, que tem um traço um tanto quanto característico e semirrealístico de comics americanos – e que em nada combinam com o clima da série. Tirando isso, a trama apresentada em Black Canary é válida de se acompanhar, e a arte principal da Annie Wu, toda dinâmica, viajadamente cinematográfica e bastante geométrica é um show à parte, contando ainda com um trabalho de finalização com cores que vão do neon ao vibrante e quadros arrojados.

Mesmo sendo um projeto já finalizado, a extensão musical de Black Canary merece mais o reconhecimento do público não só pelo mero fato de ser musicalmente bom, mas também por fazer parte de um contexto multimídia interessante e altamente criativo. O fato da banda ser fictícia e oriunda de uma HQ pesa muito na questão de que o público conhecedor do projeto é bastante limitado (e aqui soma-se também o fato de que nada desse material foi parar nos serviços acessíveis de streaming, como Spotify e Apple Music). Para quem quiser checar mais do projeto, os dois EPs estão disponíveis para audição e compra no bandcamp do grupo e também provavelmente em vídeos avulsos espalhados pelo youtube. Já para quem quer mergulhar mais ainda nessa encarnação da Canário Negro, os dois volumes das HQs foram lançados aqui pela Panini e podem ser comprados online [juro que isso não é uma propaganda descaradíssima].

Para quem não conferiu as últimas edições do Discothèque e não entende do que se trata a coluna, os textos anteriores podem ser conferidos aqui (#1) e aqui (#2). Nas próximas edições da coluna eu trarei mais partes de discografias de artistas subestimados que eu amo e, quem sabe, mais bandas fictícias que mereçam esse espacinho de free promo. Até a próxima!

[PS: grupos entre a linha da ficção e realidade como o RBD ou casts de musicais como Floribella, High School Musical ou Glee ficaram de fora da minha longa explanação lá em cima por motivos óbvios]

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