Three Billboards Outside Ebbing, Missouri: sobre impunidade e justiça com as próprias mãos

Escrever sobre um filme que você não gostou acaba, às vezes, sendo uma tarefa muito mais difícil que escrever sobre um filme que você adorou. Principalmente quando estamos falando de um filme com uma recepção tão positiva quanto Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017), ou Três Anúncios para um Crime, como chegou ao Brasil nos cinemas no dia 15 de fevereiro. O filme já abocanhou 4 estatuetas do Golden Globes, sendo uma delas por Melhor Filme de Drama, considerado como o maior prêmio da noite. Não só isso, como também está indicado a 7 Oscars, um deles sendo também o maior prêmio da noite, o de Melhor Filme. Com 93% no agregador de críticas Rotten Tomatoes e 88/100 no Metacritic, não tem como negar que há um grande culto de adoração ao filme. E é por isso que escrever sobre 3BB é como pisar em ovos para mim.

SPOILERS SOBRE O FILME ABAIXO, LEIA POR SUA CONTA E RISCO

Escrito e dirigido por Martin McDonagh, Three Billboards possui uma história bem simples. Mildred Hayes (interpretada pela fantástica Frances McDormand) teve sua filha Angela Hayes assassinada, queimada e estuprada 7 meses atrás e ainda está de luto. Não houve nenhum culpado apontado e as investigações estão paradas já faz um tempo. Ela resolve, então, alugar três outdoors que estão perto de sua casa com as seguintes mensagens: “ESTUPRADA ENQUANTO MORRIA”, “E AINDA SEM PRISÕES?”, “COMO ASSIM, XERIFE WILLOUGHBY?”. A ideia de Mildred é trazer atenção de volta ao caso para que ela possa ter um pouco de paz interior sabendo que o culpado pelo que aconteceu com sua filha estará sofrendo com a justiça. Isso acaba irritando as pessoas da cidade, como o próprio xerife Willoughby (Woody Harrelson) e um policial racista que trabalha para ele, Jason Dixon (Sam Rockwell). Não só isso como Mildred é assediada e ameaçada diversas vezes, juntamente com o seu filho depressivo Robbie (Lucas Hedges), que insiste para que a mãe tire os outdoors, mesmo ela não cedendo de forma alguma.

O filme é vendido como uma subversão da sociedade americana, uma tentativa de expôr o pior de cada ser humano da pacata cidade de Ebbing no Missouri, e como índole não vale de nada hoje em dia. Deveria ser uma boa tentativa de roteiro, já que a nossa suposta heroína e protagonista possui comportamentos críticos que a categorizariam como uma espécie de anti-heroína em uma outra ocasião, mas isso ocorre somente por ela estar agindo por conta própria e visando o seu próprio bem estar. Aquela velha história de cada um com os seus interesses e correndo atrás deles a qualquer custo, mesmo que você tenha que ser o mais imoral o possível.

O grande problema está no fato de que não há muito pano para manga em toda essa discussão altamente promovida sobre quem é bom e quem é ruim de verdade e é aí que o roteiro de McDonagh começa a mostrar suas falhas, por conta de uma confusão onde McDonagh não consegue estabelecer o que ele quer passar de verdade com tudo isso. Por mais escrota que Mildred possa aparentar ser, ela é só uma mãe querendo justiça pela sua filha. Por mais imoral que ela possa parecer, ela só está visando a sua paz interior e que sua filha descanse em paz. São 7 meses sem nada, sem um descanso e com um fantasma atormentando-a diariamente e você não pode esperar que uma pessoa dessas esteja calma o suficiente para que deixe as coisas todas acontecendo ao seu redor enquanto continua tocando sua vida normalmente.

E há todo um sentimento de empatia criado em cima de Mildred, principalmente porque há pelo menos duas tentativas de humanizar ainda mais a personagem, utilizando animais, um deles inclusive que pode passar despercebido se você não estiver atento a tudo que está acontecendo ao redor. Mas, ao mesmo tempo, McDonagh quer que você perceba o tempo inteiro como ela não é flor que se cheire, escrevendo ela de um jeito tão cruel que parece a todo custo querer fazer com que ela não seja torcível ou seja equiparada com os próprios vilões da trama, tendo um momento inacreditável no meio do filme, por meio de um flashback completamente podre e com pura intenção de chocar, onde literalmente a última coisa que Mildred fala para sua filha é que ela espera que ela seja estuprada, momentos antes disso acontecer. São recursos como esse que fazem com que toda essa discussão profunda sobre a sociedade soe muito artificial e acabe por parecer ridícula.

[Frances McDormand, Woody Harrelson e Sam Rockewell em cena]

Outro grande problema do filme é na verdade o que mais me deixa com pé atrás com tudo, que é justamente o que cito ali em cima quando falo sobre os vilões da trama. Não importa que o McDonagh queira dizer sobre não ser uma história sobre o bem e o mal, é certo que Dixon é claramente a força oposta a de Mildred e esse embate faz com que ele seja, sim, o vilão da trama. E não só por isso, mas por ele ser um personagem completamente desprezível, racista, homofóbico e tudo o que há de mais ruim nesse mundo. Mas, claro, ele é um policial e esse é apenas um retrato da sociedazzzz. NÃO! Por mais filho da puta que ele possa parecer, caso você pegue a história e a analise de uma forma metódica, McDonagh muitas vezes o usa como alívio cômico. Sim, porque parece que humor negro é você colocar o seu policial racista, nunca indiciado pelo seu crime citado diversas vezes durante o filme, que não se torturam mais “n****rs” mas sim “people of color”.

É inacreditável como Dixon é construído de uma maneira porca. Eu aplaudo Sam Rockwell por uma interpretação brilhante porque caso o contrário seria ainda mais algo para odiar nesse filme. Não tem cabimento você querer redimir um personagem podre como esses porque ele agora aparentemente se curou de toda a sua maldade, seu racismo e sua homofobia num piscar de olhos por causa de um monte de coisa que aconteceu na vida dele. Não importa novamente o que McDonagh fale sobre como ele não se redimiu ou como não foi a intenção do roteiro. Há um debate muito antigo já sobre intenção x interpretação e não é culpa de ninguém que sentiu a mesma coisa que eu senti quando assisti a Three Billboards: há um arco inteiro para redimir Dixon.

Desde o começo, já sabemos que Dixon é ruim. Vemos o seu relacionamento com sua mãe e como é tóxico ele estar naquele ambiente cheio de crueldade. O que não sabemos, e acabamos por descobrir após o suicídio do xerife Willoughby, é que muito do que aconteceu com ele foi motivado por causa da morte de seu pai com câncer terminal. Oi? É isso mesmo. Ele é violento porque o seu pai morreu e só vamos descobrir isso quando o Dixon recebe um bilhete de suicídio de Willoughby, que é lido por Dixon na delegacia, momentos antes de Mildred queima-la com ele lá dentro. Não só isso, como o bilhete também chega e diz que Willoughby sempre soube que Dixon era um bom rapaz. Isso tudo acontece momentos antes da primeira garrafa de molotov começar a queimar a delegacia e já sabemos que Dixon será queimado e nem sabemos se ele sairá vivo. Coitado, né?

Há um plano sequência momentos após Dixon descobrir que Willoughby morreu onde ele agride Red (Caleb Landry Jones) e o joga pela janela de seu escritório e o deixa muito machucado. Quando Dixon é queimado na delegacia, ele acaba ficando no mesmo quarto que o Red, que surta quando descobre, mas aparentemente depois está bem com esse fato e até mesmo o oferece suco num canudinho, pois o filme quer que a gente perceba que mesmo nossos agressores podem sim ser boas pessoas e devemos ser bons para eles pois isso é passar por cima e matar com bondade. Faz total sentido né?

O arco de Dixon termina com ele indo num bar e aparentemente descobrindo quem que matou Angela e, depois que a análise do DNA é inconclusiva e não prova nada, ele convida Mildred para poder ir até Idaho, onde o cara mora, para poder mata-lo mesmo assim, pois ele não matou Angela, mas estuprou e matou outra menina, e é isso que McDonagh quer que você veja: o policial racista agora está unindo forças com sua “inimiga” mor por um bem maior já que eles vão salvar o mundo de todos os estupradores do mundo, um por vez. E somos levados a acreditar que ooh ele é um grande novo homem e está mudado e agora sim. E fim. Sério isso?

[Frances McDormand e Amanda Warren em cena]

Posso estar sendo bastante amargo com minha escrita, mas os problemas não param por aí. A grande maioria dos personagens é bastante sub utilizado e não parecem ter propósito na trama. Peter Dinklage mesmo parece que só foi inserido no filme para que McDonagh pudesse adicionar midget (anão) na lista de ofensas que ele gosta tanto que seus personagens profiram, junto de faggot, retard e n****r. Abbie Cornish, a australiana gostosona 21 anos mais nova que seu marido, aparece tão pouco e em um dos poucos momentos que está em cena ela simplesmente, junto com o seu marido o xerife (!!!!) resolve abandonar suas duas filhas (!!!!!) no meio de um lago (!!!!!) enquanto elas estão brincando de um jogo que foi proposto por eles para que os dois pudessem transar no mato (!!!!!!!). SÉRIO. Tem um possível estuprador a solta na cidade, quem em sã consciência faria isso?

Além disso, os personagens negros são objetos de cenário e parece engraçado como Denise (Amanda Warren), presa injustamente por posse de maconha, assim que é liberada da cadeia corre para poder ajudar sua amiga, pois é só isso que importa atualmente. Samara Weaving, interpretando a Penelope, nova namorada de 19 anos do ex-marido de Mildred, é utilizada de uma maneira ridícula, fazendo com que ela seja a menininha de roça burrinha que ninguém acredita que consiga utilizar palavras difíceis e seja alvo de piada de literalmente todos. Não só isso, como há um momento da trama que o ex-marido de Mildred resolve agredi-la por conta de uma discussão na casa dela sobre Angela e Penelope entra no meio da discussão, olha para tudo aquilo, acha normal e só pergunta se está importunando, porque cansou de esperar no carro e queria usar o banheiro. Há momentos da trama que o alívio cômico não cabe e esse é um deles.

É uma pena que uma ideia tão boa tenha se perdido tanto nessa produção, por conta de um roteiro infame que definitivamente não merece o Golden Globe que levou. Eu preciso, claro, fazer meu mea culpa e dizer que tive uma opinião influenciada por diversas coisas que li (que estão linkadas para quem quiser dar uma conferida) sobre o filme antes mesmo de assisti-lo, mas olhando para trás não vejo como essas coisas não fazem total sentido. Frances McDormand e Sam Rockwell estão fantásticos e merecem os prêmios que estão recebendo sim, mas não dá para aceitar algo além disso, pois são atuações muito boas perdidas numa bagunça que tenta ser muito mais do que é. Eu entendo se você gostar do filme, pois entendo quem consegue ver além de tudo isso, mas não rolou para mim e é uma pena que eu esteja numa minoria seletiva.

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)

Indicado a 7 oscars, incluindo Melhor Filme
Dirigido e escrito por: Martin McDonagh

Estrelando: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Peter Dinklage, Samara Weaving, John Hawkes, Caleb Landry Jones, Clarke Peters, Željko Ivanek

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