Lady Gaga: Os Filhos de Joanne

Em toda década há um fenômeno arrebatador no cenário musical, dita modas, lança as tendências e causam um alvoroço mundial. Com Lady Gaga não foi diferente. Ainda em 2008, a indústria do pop americano estava escassa, nada acontecia depois de grandes nomes entrarem em decadência e não conseguirem se levantar. Foi assim que a cantora deu um giro de 180 graus e começou a ditar o que deveria ser a demanda do pop da década. Hits mundiais como “Bad Romance” e “Poker Face” foram responsáveis por elevar o nome de Gaga à trendsetter na música.

As bizarrices, dedo no cu e gritaria da cantora “italo-americana” – como ela gosta de se chamar -, deram ao pop uma nova faceta, agitando as outras cantoras à fazerem o mesmo e também ficarem no mesmo nível que a novata. Ainda em 2009, Gaga dava o que falar, arriscando-se totalmente em qualquer área, seja na produção de suas músicas com referências ao pop oitentista ou nas performances em premiações – outra área que levou um upgrade depois de Gaga. Todo alvoroço ao redor do nome da cantora à levou para comparações com a realeza da música: a plebeia com potencial para desbancar até mesmo a rainha de seu trono tão bem guardado.

Foi pelo seu pop nu e cru, sua audácia de ser controversa e sua teatralidade que o seu nome ficou marcado, consolidando-a para sempre como um dos maiores impactos que tivemos. Ao longo de sua carreira, Lady Gaga se envolveu em todo o tipo de escândalo. Quando era ainda mais nova rumores bizarros da mesma ser “hermafrodita” surgiam e faziam a cabeça de todos – levando a cantora a literalmente colocar a perseguida pra fora no seu clipe anos depois. E mais tarde, foi até excomungada pelo Papa por conta de seu clipe, um suprassumo, de “Judas”.

Mas não só de polêmicas vive um ícone. Dentro de sua carreira, Lady Gaga sempre foi aberta quanto a questão LGBT. Serviu de refúgio para muitos gays jovens que tiveram que lidar com rejeição de todos os cantos. Ela apareceu, como um mártir, para todas as crianças que se sentiam diferentes e os abraçou – mesmo que através da música – de forma que eles nunca receberam antes. E dessa forma a cantora arrebatou milhares de fãs em todos os continentes, consolidando além de tudo, uma fã base não tão fiel, porém grande. E para a causa LGBT, uma voz tão alta quanto a dela, é mais do que útil.

As expectativas quanto à Gaga sempre foram das maiores. Depois do “Born This Way”, o ápice da cantora em todos os aspectos, a pergunta que ficava era: o que vem depois? Naturalmente, uma vez que você está no topo, o único caminho é a queda. Toda estrela pop tem seu momento de ascensão e queda, com Lady Gaga não foi diferente. O sucessor do seu terceiro álbum, o “Artpop”, propôs uma intervenção na música pop da maneira que conhecíamos. Muito se falava sobre ele. Desde o acidente envolvendo seu quadril na turnê Born This Way Ball, a produção desse álbum tinha sido pausada, mas a cantora não deixava de provocar os fãs quanto ao lançamento.

Quando o momento chegou, tudo foi muito mal recebido. Os fãs não receberam bem, muito menos os críticos, que castigaram o álbum de uma maneira não muito justa – visto que hoje em dia o álbum envelheceu bem -, e a mídia também fez seu trabalho, uma vez que a imagem “bizarra” de Lady Gaga havia saturado, e ela continuava extraindo dessa mina. Tudo que aconteceu de lá, pro lançamento de “Joanne”, foi uma intensa campanha com o público americano, na tentativa de voltar ao mainstream novamente. E de certa forma, a Haus of Gaga conseguiu.

O cenário musical estava, mais uma vez, em um completo marasmo, onde uma extrema higienização foi promovida por artistas masculinos, brancos e héteros. Nada que era denominado “diferente”, fazia mais sucesso da mesma forma que Lady Gaga com toda sua excentricidade ditou que faria. Sofrendo de quase o mesmo backlash, o seu quarto álbum chegava às prateleiras, enfrentando um vazamento um dia antes de seu lançamento e a mesma crítica dos fãs. “Não é pop”, “por deus lady gaga volte” e entre outros, foram comentários usados para o novo trabalho. Mas tudo que a cantora fazia já não era mais novo, e com esse álbum ela conseguiu fazer o quase impossível: se renovar e se manter relevante.

Um ano depois do lançamento do seu não-tão-aclamado, “Joanne”, presenciamos sites especialistas indicando uma nova tendência entre os artistas do mainstream. Carregada pelo single “Million Reasons”, depois de sua performance do SuperBowl, a billboard apontava que Gaga estava trazendo de volta ao pop a tendência da “vocalista”. Deixando a teatralidade de lado e lembrando a todos o por quê dela ter sido um fenômeno em primeiro lugar: seu talento a carregou de volta para a relevância e expandiu a sua aclamação dentro dos Estados Unidos.

Foi assim que muitos artistas se sentiram à vontade para explorar suas “raízes” e tomaram coragem para lançar um álbum mais calmo e pessoal. O impacto de “Joanne” sem dúvidas começa aí, sendo uma forma válida de se renovar dentro de um cenário higienizado que não aceitava mais aquilo que um dia os colocou no topo do mundo.

Kesha acabava de se recuperar do abuso sexual que sofreu na mão de Dr. Luke. Caso esse que foi parar na corte e nem assim teve a prisão do produtor garantida. Ninguém da indústria parecia acreditar na cantora, além de Lady Gaga, que se fez presente na recuperação da menina. Seu álbum “Rainbow”, é um trabalho pessoal e country, um conjunto de faixas que casaram muito bem no momento. Não é como se Kesha estivesse se aproveitando como oportunista, a menina já havia expressado seu desejo de fazer algo country, mas é inegável que ela não tenha se sentido mais confortável após o lançamento do “Joanne”. Assistir cantoras tomando iniciativas que você tem vontade, mas tem medo do que pode acontecer – exatamente por ser um estilo musical tão distante do seu – é totalmente válido e possível. O que pode ter deixado Kesha ainda mais confortável em explorar as suas raízes sem ter medo do que poderia acontecer.

O trabalho de Kesha explorando o estilo musical, sem dúvidas é um dos melhores a aparecer. Pois soou verdadeiro, vindo de um lugar real. Sem contar que ela merece muitos créditos só por ter conseguido lançar um álbum coeso e sólido, depois de uma tempestade bagunçar a vida dela dessa forma.

O que não é o caso de Miley Cyrus. A cantora construída em polêmica e em usar cultura negra para se auto promover, uma vez que viu o quanto isso não estava mais lucrativo para ela, logo resolveu se preservar em um período. Quando anunciou a sua tão esperada volta, depois de já saturadíssima pelas suas bizarrices sem nenhum contexto aparente – olá dead petz -, o conceito todo de “explorar suas raízes” soou apenas como uma questão oportunista de se limpar com a mídia e com o público geral que já estava com a cabeça feita quanto à imagem dela.

Filha de Billy Ray Cyrus e afilhada de Dolly Parton – ícone country presente também no Rainbow -, a eterna Hannah Montana resolveu usar o estilo musical e essa higienização toda de uma forma não muito legal. Se auto promoveu e tentou desesperadamente limpar a sua imagem, mas só conseguiu soar falsa, tanto que a aceitação do público foi baixíssima e a cantora desistiu do projeto rápido.

O mesmo pode ser aplicado ao mais novo “filho de Joanne”, o “Man of The Woods”, de Justin Timberlake, mostra a mesma premissa de raízes. E o cantor também é famoso por explorar cultura alheia de uma maneira pobre e vazia. O álbum que seria responsável por unir as raízes de Justin e o country, em uma tentativa de emplacar seu nome novamente no mainstream, só conseguiu criar um eterno labirinto entre o funk e o outro estilo, perdendo completamente a originalidade.

E do outro lado do oceano, tivemos Kylie Minogue na mesma onda country de “Joanne”. O seu mais recente single, “Dancing”, explora o estilo e o mistura com seu pop de costume. A mistura pode soar estranha aos ouvidos, mas a estética toda de seu clipe foi sem dúvidas, uma das mais interessantes herdeiras do impacto que o álbum de Lady Gaga teve de alguma forma.

Mesmo que não esteja mais no seu ápice – comparando com Born This Way já que o seu último álbum deu resultados satisfatórios -, a cantora italo-americana continua se fazendo relevante dentro da indústria. Dizer que esses trabalhos não tem nenhum impacto do Joanne é o equivalente de ser uma criança birrenta, que não aceita que existem certos artistas que realmente acabam ditando as tendências musicais. Foi assim em 2008 e está sendo assim agora. Ainda veremos mais dessa nova onda, os filhos de Joanne com certeza não pararam por aqui, mesmo que muitos ainda não aceitem seus impactos.

PS.: esse post – ou a ideia dele – existia antes do E! ter criado, mas tudo bem.

#ladygaga #joanne #kylieminogue #justintimberlake #mileycyrus #kesha #matéria

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