Lady Bird: a árdua tarefa de crescer

O ano é 2002 e acompanhamos a vida de Christine McPherson (Saoirse Ronan, em um de seus melhores momentos de sua carreira), mais conhecida atualmente como Lady Bird, um nome que ela mesmo se deu e prefere ser chamada assim. Morando no lado errado dos trilhos, como ela mesmo diz, Lady Bird não vê a hora de poder sair da pacata cidade de Sacramento e poder viver a sua vida bem longe dali. Durante os 93 minutos de produção, acompanhamos toda a sua angústia de fim de adolescência e transição para a vida adulta e todos os temas que estão dentro desse guarda-chuva de conflitos internos, como sua carreira profissional, seus relacionamentos com sua família, seus amigos e até mesmo a sua vida amorosa. Pelos olhos de Lady Bird é que vemos a história realmente acontecer, pois estamos vendo a sua vida e como as escolhas que ela faz acabam por afetar todo o ambiente que ela está inserida.

Greta Gerwig é a pessoa responsável por realizar esse filme. Pela primeira vez, arriscou escrever sozinha (já que seus créditos anteriores por roteiro eram divididos com o seu namorado, Noah Baumbach) e arriscou ainda mais dirigi-lo sozinha. Ela garante que não tinha como outra pessoa fazer esse filme se não fosse ela. É tudo muito pessoal, começando pela escolha da cidade, Sacramento, que foi onde Greta cresceu e viveu durante sua fase adolescente, o que acaba por fazer Lady Bird ser mais um dos filmes que soam muito autobiográficos sobre a vida de Greta.

É por isso que Lady Bird também pode ser considerado como parte de uma trilogia não oficial sobre crescer, no que apelido carinhosamente de Greta Gerwig Cinematic Universe, já que ela foi responsável por roteirizar os três filmes, atuou em dois e dirigiu um. Os outros dois filmes, Frances Ha (2013) e Mistress America (2014), também retratam temas parecidos com LB e como viver é complicado. Em uma timeline correta do GGCU, Lady Bird vem primeiro, e mostra justamente essa transição entre a adolescêcia e a vida adulta. Mistress America vem logo depois, com a personagem de Lola Kirke sendo quase que uma ampliação de Lady Bird indo pra faculdade, com os seus medos e anseios e estando sozinha num ambiente novo. Fecha, então, com chave de ouro com Frances Ha, que segue Frances encarando problemas adultos em uma vida pós-faculdade e sentindo o peso nas costas de todas as suas escolhas. Vale a pena dar uma conferida em todos os filmes e perceber suas semelhanças e aplaudir Greta por ser tão majestosa. Sério.

[Greta Gerwig nos sets de Lady Bird com Saoirse Ronan e Lucas Hedges]

[Laurie Metcalf e Saoirse Ronan em cena]

Voltando ao filme, há grandes trunfos aqui em Lady Bird. O primeiro é de fazer de Lady Bird uma protagonista e personagem extremamente crível. O roteiro, extremamente ágil e inteligente, faz com que acreditamos na existência de Lady Bird pois não é muito difícil de perceber como ela é humana. Não importa se você não se identifique com os dilemas que a personagem passa, é tudo muito real. E por mais que a menina seja extremamente egoísta e self-absorbed, há espaço para o seu crescimento e amadurecimento durante todo o filme, já que Lady Bird erra e erra muito o tempo inteiro mas consegue ver o que faz de tão errado e se redime consigo mesma, o que acaba por dar momentos lindos para a trama. Os temas que Lady Bird retratam não são novos de maneira alguma mas a forma com que eles são postos em tela são de uma maneira única, delicada e linda, por mais simples que tudo possa parecer.

O segundo grande trunfo de Lady Bird é fazer com que todos os personagens, por mais secundários que possam parecer, tenham a sua devida importância e isso só prova ainda mais o meu ponto de que o filme é mais do que maravilhoso. A começar por sua mãe, Marion McPherson (Laurie Metcalf, que infelizmente deve perder o Oscar de supporting injustamente mesmo entregando uma das melhores atuações femininas do ano), que acaba se tornando personagem tão central na história quanto sua filha.

Lady Bird e sua mãe vivem se bicando por terem personalidades fortes demais para sempre estarem em concordância e o relacionamento das duas é o mais explorado durante o filme. Tudo é pano pra discussão, até nos momentos mais bonitos e tênues do filme há espaço para que tudo acabe ficando confuso e as duas aumentem o tom de voz e queiram sempre estarem certas de tudo. Mas tudo isso é feito com uma delicadeza tão grande que você consegue sentir o amor de uma pela outra nesse meio todo. Em uma cena em que Lady Bird e sua mãe vão comprar vestidos para o baile de formatura, o diálogo mais visceral e triste de todo o filme aparece, e é exatamente o que Greta quer passar com todo esse arco.

MÃE: Eu quero que você seja a melhor versão de você mesma que você possa ser.

LADY BIRD: E se essa for a melhor versão?

[Saoirse Ronan e Beanie Feldstein em cena]

O pai de Lady Bird (Tracy Letts) é ótimo em todas as suas pequenas aparições, mesmo tendo um destaque muito menor pelo amor maternal ser o key point aqui. Isso não faz com que ele brilhe menos, já que ele tem cenas importantíssimas para o desenvolvimento da trama e também até do relacionamento de Bird e sua mãe. Sua melhor amiga, Julie (Beanie Feldstein), é facilmente uma das melhores personagens do filme e é notável o quanto ela ama sua amiga e consegue passar por cima de todas as idiotices que Lady Bird é capaz de fazer quando pensa somente nela mesma. Julie é tão bem construída e foge tanto do estereotipo de “melhor amiga gordinha” que ela acaba por dividir cenas impagáveis para a trama e faz até mesmo com que desejamos que ela apareça ainda mais.

Ainda sobre os personagens, Danny (Lucas Hedges) e Kyle (Timothee Chalamet) funcionam bem e possuem arcos interessantes quando se cruzam com a protagonista, principalmente Danny, que traz uma cena linda e comovente que mostra um dos primeiros sinais de desenvolvimento e crescimento de Lady Bird. É uma pena que esse plot é apenas jogado no meio e não tem mais espaço na trama, por mais que isso seja porque a verdadeira intenção da revelação seja para podermos ver como que Lady Bird reagirá a isso tudo. É uma pequena falha no meio de um outro grande acerto.

Um debate interessante vem acontecendo sobre hype, que acaba por envolver filmes mais simples em narrativa e que “não acontecem nada”. Muita gente não consegue esconder o fato de que acham Lady Bird overrated e fraco, por ser uma história padrão e clichê. Mas não há nenhum problema nisso tudo. Não há como negar que a originalidade não é o grande marco do filme, mas a paixão que Greta coloca aqui é definitivamente palpável e isso move o filme e a história, o que faz de Lady Bird um dos filmes mais importantes de coming of age do ano, da década, da vida. A incerteza da vida é cruel e muito brutal e Lady Bird nos reafirma de como a fase de se descobrir é um saco. E é por isso que Lady Bird é tão bom. Vale muito a pena conferir na telona e se mover com essa nostalgia filmada.

Lady Bird (2017)

Indicado a 5 oscars, incluindo Melhor Filme

Dirigido e escrito por: Greta Gerwig

Estrelando: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Beanie Feldstein, Lucas Hedges, Timothee Chalamet, Jordan Rodrigues, Odeya Rush, Marielle Scott, Lois Smith, Stephen McKinley Henderson

#ladybird #filmes #filme #gretagerwig #saoirseronan #oscar #lauriemetcalf

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s