Dossiê Red Velvet: de meras substitutas do f(x) a catalisadoras do R&B no pop sul-coreano

“Perfect Velvet”, ou “The Perfect Red Velvet”, segundo álbum do grupo, desponta como lustroso exemplo de aperfeiçoamento. Tudo nele funciona e, além: explica em 12 faixas o porquê da paixão dos fãs aficionados pelo lado sensual do veludo.

O pop sul-coreano é uma indústria de aperfeiçoamento, em todos os sentidos. Seus ‘idols’ passam boa parte da adolescência treinando voz, dança, e outros talentos, aguardando o dia em que finalmente cairão por sorteio em algum grupo da empresa ou, quem sabe ainda cair nas graças de conseguir ser artista solo. Grupos estreiam com números de integrantes que, ao passar do tempo, cresce ou diminui – seja por questão de estratégia de cada gravadora com os seus ou por contratempos com os mesmos; detalhe: a onda de processos às gravadoras e saídas de grupo teve um aumento significativo depois do fenômeno JYJ saindo do TVXQ em 2010. Raro é assistir atos do K-Pop estreando em bons termos; cada lançamento inicial de cada grupo ou ato solo é como um teste para, então, moldar futuro material à partir da recepção pública, desempenho em vendas, posições no YouTube, entre outros tantos fatores. Vemos a ascensão de grupos com integrantes distantes de completar maior-idade, e conceitos artísticos que “caiam bem”; ou seja, que de certa forma não hipersexualizem os ídolos mas ainda vendam a sua imagem para o público feminino e masculino apaixonado. Diante de tantos riscos e muita grana a se perder, muitos grupos enfrentam o temido ostracismo por anos, até conseguirem ou não emplacar algum sucesso. Quem dirá construir discografia/iconografia com evoluções naturais e adaptar com sucesso tendências do pop ocidental às lentes de seu próprio país.

Infeliz ou felizmente – afinal, né, diante dessas circunstâncias cruéis pse man capitalismo é merda –, o Red Velvet tornou-se o catalisador de produções e sons impecáveis, mirando na recente alta dos anos 90 na cultura pop ocidental e na Ariana Grande também muito que frequentemente, somado ao cenário underground sul-coreano que também puxa sardinha para as Spices e TLCs por aí. O grupo, cuja estreia deu-se em 2014, diante de controvérsias pelo uso de imagens remetentes ao bombardeio de Hiroshima na 2ª guerra mundial (!) e até mesmo pelas integrantes não serem lá muito adolescentes, passou por altos e baixos até finalmente firmar-se como essa grande força num mercado hiper-saturado por tanta coisa igual e manjada.

A criação do Red Velvet deu-se na estratégia da SM Entertaintment em colocar no mercado grupos masculinos e femininos equivalentes, em estilos musicais e estéticos e em formação estrutural. Após a criação do The Grace como o equivalente feminino ao TVXQ – justiça pelo grupo maravilhoso que foi o The Grace!!! –, o Girls’ Generation veio suceder o Super Junior até tornar-se ainda maior que seu boygroup original que geralmente é mais popular, e f(x) sendo o equivalente pedante do já pedante/artístico SHINee que amamos. Faltava a versão masculina do EXO – cuja trajetória é engraçada pois sofreu de problemas similares ao Red Velvet; inicialmente foi visto como um flop desastroso até ter seu boom com “Growl”, e hoje é também um dos grupos mais decentes & vanguardistas do K-Pop mesmo que com reservas afinal é boygroup né – mas em 2014 alguns problemas com o próprio EXO mudariam o projeto inicial do Red Velvet. Após a saída de Kris e Luhan do EXO, a SM Ent resolveu diminuir o número de integrantes do Red Velvet e investir na individualidade de cada – tanto é, aquela marmotagem das cores de “Happiness” que recentemente não mais foi usada pra nada, é justamente essa expressão. Já que o Red Velvet não teria o ‘aerodinamismo’ linguístico do EXO, com suas sub-units coreanas e chinesas e japonesas, bem caberia à elas o dinamismo de tentar conceitos diferentes tão descaradamente que seria parte da marca do grupo. Assim, surgiram os conceitos de ‘Red’ (pop feliz, possíveis descartes do f(x) como foi “Happiness”, R&B big-band surfando nas tendências de Ariana Grande e Bruno Mars) e ‘Velvet’ (R&Bzão anos 90 sultry e sensual, pegando a glória das baladinhas do Spice Girls e do S.E.S., e modernizando-a para mixagens atuais) e, posteriormente, o digievoluído ‘Red + Velvet’ (a explicação que eu encontro pra essa fusão aqui é que meio que largaram a mão mesmo) para o grupo.

Após pouca e até meio que negativa repercussão do Red Velvet por emergir com um descarte do f(x) + um remake requentado embora bom de “Be Natural” do S.E.S., a SM anuncia em 2015 que o grupo ganharia a Yeri, integrante quatro anos mais nova que Seulgi e oito anos mais nova que Irene. E, nessas, mirando num público mais jovem e possivelmente loiro, nasceu a união da arte (o lado Velvet, claro!) e do pop (não que o pop seja ruim, o Red é divertido e proporcionou bons momentos pra elas) no primeiro EP do Red Velvet, “Ice Cream Cake”.

A dualidade do mesmo, mesmo que explorada muito pouco em “Automatic”, já que a grande estrela e hit foi “ICC”, influencia até hoje atos e mais atos do K-Pop. A ascensão do grupo LOONA, após o lançamento de “Eclipse” de sua integrante e deusa Kim Lip – faixa dos mesmos escritores/produtores de “Automatic”, “Something Kinda Crazy”, e “Cool Hot Sweet Love”, três faixas do lado ‘Velvet’ –, seguida da sub-unit de três gatinhas unindo o pop chiclete, em “Girl Front”, com experimentações inusitadas, em “Loonatic”, e faixas clássicas R&B sultry, em “Sweet Crazy Love” e “Chaotic”, é resultado do sucesso desse dinamismo de conceitos opostos sendo apresentados para cada público. É como se, à partir do sucesso do Red Velvet em somar forças, outros atos, especialmente grupos femininos, tenham sido encorajados a tentar agradar diversos públicos, quase que opostos. O pop acelerado de “Ice Cream Cake” e “Girl Front” são direcionados ao público doméstico e amantes de música pop em sua forma mais eletrônica; já “Automatic” e “Sweet Crazy Love” ostentam sofisticação e sonoridade R&B atualíssima.

A trajetória do Red Velvet, após um 2015 de dois grandes hits – “ICC” e “Dumb Dumb” –, teve algumas pedras no caminho. O sucessor do primeiro álbum, “The Red”, logicamente teria de apresentar o lado ‘Velvet’ em sua forma mais completa. Mas como conseguir um sucesso na Coreia e internacionalmente com um conceito que aparentemente só agradava aos gringos? Passados alguns adiamentos, o álbum tornou-se um EP de inverno, com a insossa balada “One of These Nights” – cujo clipe é bonitinho, meio satanista, meio ritual xamânico associado à ex-presidente sul-coreana que foi presa por estar ligada com corrupção e forças ocultistas, mas ainda insossa – e uma ou duas músicas que realmente representavam o conceito ‘Velvet’ original, além de baladas tradicionais e sonolentas, e três remixes meio que inúteis do main single. O desempenho de “OOTN” foi fraco, da Coreia ao resto do público oriental/ocidental, e o Red Velvet parecia ser o próximo grupo a amargar no porão de sua empresa.

Talvez, numa linha do tempo na qual o futuro do grupo desse mais errado, “Russian Roulette” seria lançada como uma das últimas tentativas da SM de emplacar algum sucesso. Felizmente, em setembro de 2016, o terceiro EP com a faixa foi lançado e acabou por ser um hit inesperado de vida longa nos charts. É bem óbvio neste lançamento o descaso da SM com as meninas, dando seis faixas da pior qualidade pra encher linguiça de CD e se escorar totalmente no poder lifechanging da produção cartunesca/quirky de “Russian Roulette” – esta, como era de se esperar, hitzão engavetado pela SM por algum motivo, que provavelmente seria entregue ao f(x) como de praxe. Para “RR” e o próximo lançamento, Red Velvet abriu mão de fixar-se num só conceito, com a SM justificando que ambos os lançamentos foram união de forças de ambos os lados. Aham, tá.

O fim de janeiro de 2017 trouxe a promessa da empresa, através de fotos e vídeos teaser, de que o quarto EP do grupo, “Rookie”, traria excelência musical. Um balde de água fria foi jogado nos fãs sul-coreanos e ao redor do mundo quando “Rookie” era apenas um híbrido bizarro das bombas com frases de efeito do TWICE + tudo que “Dumb Dumb” e “Russian Roulette” poderiam ter em comum para tornar-se uma música nova. “Rookie” é uma bosta sim, todos sabemos, mas existe uma música muito boa por baixo dela que eu adoraria ouvir; seu instrumental é muito rico. O resto do disco também não impressionou, exceto por “Body Talk” ou “Happily Ever After”. Por motivos alheios ao nosso conhecimento, o single foi tão controverso e a SM parecia tão encorajada em nos empurrar isso garganta abaixo que um grande hit veio; a ponto de ganhar prêmio de música do ano!

Em julho de 2017, graças a diversos fatores como: esse prestígio não-muito-merecido de lukie-lukie, problemas internos com o f(x) e Girls’ Generation, deixando o RV como único grupo realmente aproveitável e ativo na empresa, o mijo nos fãs descrentes desde os dias do “The Red” finalmente veio. “The Red Summer”, quinto EP, contém cinco faixas excelentes que, não só reintroduzem a efervescência multi-colorida do lado ‘Red’; são a tão sonhada evolução musical que as próprias meninas pareciam esperar. Era visível o desconforto delas com a maioria de seus conceitos, especialmente nos momentos de forçação fofa ‘aegyo’ de “Rookie” e “Russian Roulette”, e com “Red Flavor”, cada uma finalmente pareceu ganhar vida e identidades muito singulares. “Red Flavor”, ainda, recebeu notoriedade de crítica e público por sua letra eufórica sobre um amor de verão e puxou “You Better Know”, b-side do mini-álbum que muito bem poderia ter sido um lead single também, como mais um hit inesperado.

Dada a saída de algumas integrantes do Girls’ Generation, além dos já mencionados problemas com o f(x), era esperado que o Red Velvet deveria reforçar sua marca no mercado para estabelecer-se de vez como o grupo de 2017; além de não ter que cantar música de verão em programas de fim de ano. “Perfect Velvet”, segundo álbum, lançado em novembro de 2017, desponta como lustroso exemplo de aperfeiçoamento. Tudo nele funciona e, além: explica em 9 faixas – ou 12, com sua re-edição – o porquê da paixão dos fãs aficionados pelo lado sensual do veludo. “Peek-A-Boo” poderia facilmente passar como faixa do conceito ‘marmota’ de Red+Velvet de “Lookie” e “Russian Roulette” mas são alguns pequenos detalhes em sua produção – como os pássaros em reverb, numa coisa meio Hitchcock goes comedy horror, e as melodias tropical house com sons mais caseiros e menos sintéticos – que dão proposta sinistra e inovadora para a evolução do lado ‘Velvet’. A moda agora é matar os homens – tendência bastante recorrente, visto que os homens estão sendo expostos como nunca antes, não é? Quem vai culpar esses cristais de sentir na pele a misandria? Seu clipe, embora extremamente borrado e escuro, funciona para expandir a ilusão de casa assombrada que a faixa já passa. Sua letra coloca as meninas como conquistadoras, de amor-fácil, brincando com os corações dos pobres homens que passarem pela frente. Para um país tão engessado com representação feminina, a faixa acabou por fazer um bom trabalho em manter-se playful e moderninha ao mesmo tempo. Pra mim, “Peek-A-Boo” é sim ‘o veludo perfeito’ e é a representação perfeita do que as meninas hoje têm a trazer para o K-Pop. Mas não é só de “Peek-A-Boo” que vivemos.

“Bad Boy”, lançada como re-edição do álbum, titulada “The Perfect Red Velvet”, amplia o ódio aos homens com ainda mais força pop. Produzida pelo The Stereotypes, time de compositores e produtores ligados ao Bruno Mars, que escreveram seu recente hit “Finesse” com Cardi B, e também músicas como “Kiss My Lips” da BoA e “Press Your Number” do TAEMIN, é uma faixa forte de melodias extremamente radio friendly e produção pulsante. Muito disso aqui me lembrou “You Think”, do finado (?) Girls’ Generation, mas muito melhor. A estética, desde direção até escolhas estilísticas de cores e nitidez, do videoclipe parece meio corrida, e novamente são as meninas e seu carisma em auge que vendem e nos fazem comprar os visuais.

As b-sides do Red Velvet são ainda mais notáveis que seu histórico de singles. O investimento da SM em álbuns pop sólidos, com início, meio e fim, teve auge quando o Girls’ Generation lançou seu primeiro álbum japonês, uma coletânea de perfeição pop da época, e dois ou três remakes ruins de hits coreanos apenas. A cobaia de testes para álbuns logo tornou-se o f(x), cujo “Pink Tape” de 2012, ainda é visto por muitos como o álbum de maior divisão de águas posteriores no mercado fonográfico sul-coreano. Ainda, ao contrário do Girls’ Generation que frequentemente envolvia-se em controvérsias por suas músicas de letras um tanto quanto machistas – irônico isso vir d’um grupo chamado geração das garotas – o f(x) mudou a ótica de boa parte das gravadoras, propondo que grupos femininos tivessem letras mais progressistas. Então, nesse streak de hit após hit do Red Velvet, não é surpresa que a SM tenha voltado a investir na qualidade do produto num total. “Look”, segunda faixa do disco, composta pela celestial união de Charli Taft e Daniel Obi Klein (“Eclipse”, “Sweet Crazy Love”, “Automatic”) com JINBO e SUMIN (artistas locais da cena underground de Pop R&B), é provavelmente a faixa mais avant-garde lançada em 2017. Todos os elementos aqui são minimamente calculados e bem pensados, nada é fora do lugar. O instrumental é inquieto, como respiração ofegante em cima de batidas disco-house/italo-disco do fim dos anos 90, cheio de harmonizações vocais com melodias bem-definidíssimas que deixariam qualquer hit-maker americano como Max Martin orgulhoso.

“I Just”, produzida por Hitchhiker junto à melodia original de escritores europeus, é mais uma carta na manga. Sua euforia e harmonizações passam por melodias dignas do Spice Girls até detalhes bem peculiares inspirados no chamber-pop de Bat for Lashes em seu instrumental. “Kingdom Come”, outra música excelência do lado ‘Velvet’, possui a abordagem mais sofisticada do R&B 90’s já cantada pelo grupo. Seu arranjo, com instrumentais reais e clima de MTV Unplugged, simplesmente eleva a faixa a outro patamar. Junto a “Look”, isso aqui é destaque de uma carreira toda. “My Second Date” e “Attaboy” miram na diversão de “Peek-A-Boo” e na nostalgia das b-sides do álbum “The Red”, num pop chiclete que mantém-se fiel aos sons aveludados do resto do disco. “Perfect 10”, mais uma faixa composta por Daniel Obi Klein, é uma quase-baladinha R&B minimalista e sensual, com sons quase-ASMR de água escorrendo e pingando, e sim, perfeita 10/10. “About Love” é uma faixa divertidinha, produzida por RE:ONE – interessante escolha de compositor afinal ele geralmente trabalha com artistas da YG apenas – e é ok, imagino que tenha mais apelo para o público sul-coreano mesmo. “Moonlight Melody” é aquela baladinha no piano que encontra-se em cada um de seus lançamentos – consistência é isso! mesmo que não seja das melhores – que é também apenas ok.

“All Right”, segunda faixa bônus da re-edição “The Perfect Red Velvet”, continua a influência italo-disco de “Look” e joga o grupo na pista de dança, em mais um throwback mais do que bem-vindo à glória dos anos 90. “Time To Love”, terceira e última nova faixa, é um R&B lentinho meio opaco, assim como “About Love”, mas ainda têm suas qualidades – harmonizações ‘for days’, henny.

Em suma, foram incontáveis fatores do acaso somados à recepção do público que trouxeram o Red Velvet até aqui. Houve, recentemente, a procura por um grupo que equilibrasse tudo aquilo que os fãs ao redor do mundo pedissem – sofisticação musical e conceitos legais, levemente progressistas, vindos de um girlgroup popular com bom orçamento e ‘quality value’. Enquanto o TWICE faz e acontece na Ásia pela sua imagem clássica de ‘idols’ maculadas + canções feitas com muito pouca imaginatividade justamente pra pegar a gente pelo cansaço das rimas, o BLACKPINK, até então aposta de todos, lançou pouquíssima coisa e desanimou quem esperava pelo promissor grupo de blogueirinhas feministas. O Red Velvet, em relativa vantagem de tempo aos outros grupos, firmou-se pelas beiradas até conseguir mostrar ao público suas verdadeiras cores e brilhar inteiramente; similar ao Girls’ Generation abocanhando todos os holofotes enquanto o JYP tentava fazer o Wonder Girls acontecer nos EUA no início dessa década. Hoje, em companhia de Brown Eyed Girls, Wonder Girls, e o próprio f(x), é visto como um ato de status ‘cult’, aclamado pela crítica e pelo público, seja online ou doméstico. Resta saber se a SM há de investir nelas na mesma medida continuamente até algo eventualmente separá-las ou se o próximo grupo feminino da SM desestabilizará as coisas; afinal, a impossibilidade das grandes empresas sul-coreanas de gerenciar dois distintos grupos femininos ao mesmo tempo é fato. Por enquanto, início de 2018, é possível sim dizer que o Red Velvet é o maior front-runner feminino do K-Pop atualmente, influenciando outras artistas e girl-groups ao redor do mundo com a musical e visual singularidade do grupo. Bravo, ladies!

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