Essa festa virou um enterro: O Grammy 2018 foi um desserviço para as artistas femininas

Aconteceu neste último domingo mais uma edição do Grammy Awards, premiação realizada pela indústria fonográfica americana e que basicamente é o evento de maior prestígio da música mundial (por algum motivo). O Grammy tá longe de ser uma premiação pop, daquelas que atraem o público #jovem #cool #geek deste blog (interessado em performances chocantes e muito drama, assim espero), e fica num tom bem mais tradicional que outras premiações de música por aí como VMA, EMA e Fanta Awards – mas, como qualquer premiação possível, o Jesus Wore Chanel esteve lá para cobri-lo (sim, lá na sala sintonizando o canal TNT), ainda mais porque, quer queira quer não, o Grammy possui um histórico interessante de ter dado em um passado agora remoto o devido reconhecimento a artistas incríveis como Amy Winehouse, Lauryn Hill, Outkast, Alanis Morissette, Arcade Fire e por aí vai.

Quando eu usei o adjetivo “tradicional” para definir o Grammy ali em cima, eu não joguei o termo aleatoriamente: a premiação vem ganhando um histórico recente de decisões duvidosas e injustiças que privilegiam a classe mais… exatamente… tradicional da música: artistas brancos – principalmente se forem masculinos. Esse histórico, que na verdade existe há MUITO mais tempo do que podemos imaginar, está se escancarando cada vez mais à medida em que o público passa a prestar atenção em trabalhos excelentes lançados por artistas negros. Nisso, há um sem-número de exemplos em edições recentes da premiação que exemplificam essa constatação: como a derrota quase consecutiva dos discos como “Channel Orange”, “Beyoncé”, “To Pimp a Butterfly” e “LEMONADE”, todos lançados por artistas negros e sendo incontestáveis sucessos de vendas e crítica, mas perdendo para álbuns de artistas brancos com avaliações bem comparativamente medianas (“Babel” do Mumford and Sons… really?).

Mesmo com toda a publicização do assunto em anos anteriores, o desprestígio de artistas negros volta e meia se mantém, e este ano o Grammy resolveu expandir um pouco a sua tradição de injustiças descaradas e incluir também outro público historicamente oprimido: as mulheres. É estranho como o contexto feminino da arte e do entretenimento, especialmente da música, anda altamente divisivo: se de um lado temos artistas femininas cada vez mais engajadas no crescimento pop do feminismo e movimentos importantes como o #MeToo e o #TimesUp (que prezam pela conscientização sobre o estado frágil que anda a manutenção do bem-estar feminino na sociedade, especialmente focando assuntos como abuso e assédio), do outro lado temos um desprestígio cada vez maior de artistas femininas em vendas, crítica e claro, premiações. Em 2017 por exemplo, pela primeira vez em 33 anos o top 10 da Billboard, maior tabela de desempenho de música do mercado americano, apresentou total ausência de artistas femininas (nem como atos principais e nem como colaborações). Por sinal, quem liderou a tabela nesta semana em específico foi a canção “Shape of You” do cantor Ed Sheeran, que vai ser retomada neste texto mais adiante.

Disto isto, o Grammy parece ter seguido certeiramente a cartilha de desprestígio às mulheres: de 86 categorias premiadas este ano, apenas 17 reconheceram os talentos de artistas femininas ou atos musicais liderados por mulheres. Isso se agravou ainda mais quando foi para o âmbito dos prêmios principais, aqueles que são entregues na premiação televisionada ou ao menos um pouco antes dela: fortes candidatas indicadas, como a newcomer do R&B SZA ou nomes consagrados como Lady Gaga e P!nk – donas de crossover hits inesperados nesse último ano – saíram do Grammy de mãos abanando, derrotadas, é claro, por artistas masculinos óbvios. SZA sofreu um pouco com o timing, pois a artista concorreu em categorias com o vencedor mais notável da noite, por exemplo, Bruno Mars, mas isso só faz lembrar como as categorias de urban/R&B e hip-hop no geral são casos muito frequentes do desprestígio de mulheres e vitórias sequenciais de homens (das 6 edições do prêmio de Urban Contemporary Album, apenas 2 mulheres venceram até então).

Já no caso de Lady Gaga e P!nk, ou até mesmo de Kesha – caso especial nessa edição, pois a cantora concorria com seu sleeper hit “Praying”, que por sinal parece resumir tudo o que houve de relevante nos assuntos relacionados ao #MeToo e #TimesUp – as artistas acabaram sendo derrotadas por trabalhos do cantor Ed Sheeran, todos medianamente recebidos pela crítica e que, em uma breve análise, se mostram bastante inferiores aos materiais apresentados por suas concorrentes. Sim, sim, talvez eu esteja sendo biased porque eu realmente gosto bastante de quase todas as artistas femininas citadas no parágrafo anterior, mas as vitórias de “Shape of You” e “Divide” foram quase simbólicas sobre a forma como o Grammy quis esnobar as mulheres esse ano, ainda mais por fatos complementares, como a questão de que Ed Sheeran nem se deu ao trabalho de prestigiar a premiação e que toda a divulgação dessa edição do Grammy foi centrada nas performances das artistas femininas supracitadas – o que dizer dos VÁRIOS banners de divulgação que focavam na imagem da Lady Gaga e anunciavam sua performance? E todo o hype em relação à performance da Kesha, pelo o simbolismo dela cantando “Praying” com outras artistas femininas? Pff, é legal usar essas cantoras para garantir a audiência da premiação, mas e sobre reconhecer devidamente os seus talentos?

Nem as vitórias concretas de outras artistas femininas conseguiram compensar as injustiças: Rihanna, Alessia Cara e até Shakira levaram gramofones para casa, mas apesar do merecimento (de algumas rssss), elas não eram exatamente os destaques da noite dentre suas colegas concorrentes. Outro caso interessante foi o da cantora Lorde, única artista feminina a ser indicada na categoria ~principal~, de álbum do ano, e que não recebeu a oferta de se apresentar ao vivo sozinha na premiação, ao contrário de todos os outros concorrentes (homens). Não bastasse tudo isso, o presidente da academia fonográfica que realiza a premiação ainda disse >>em discurso oficial<<, e com todas as letras, que as mulheres precisavam “evoluir” caso quisessem competir de igual para igual e vencer artistas masculinos nas categorias do Grammy. É mole?

Fato é: várias das vitórias em categorias principais podem ser facilmente justificadas pelo sucesso comercial dos artistas em questão, mas estamos falando da mesma premiação que coroou álbuns de Beck e Arcade Fire no lugar de Beyoncé ou Lady Gaga em edições passadas (e eu realmente não preciso explicar a diferença colossal de vendas entre um “The Suburbs” e um “The Fame Monster”), ou seja, fica claro que vendas ou críticas são dois critérios válidos no Grammy, mas apenas quando são convenientes à agenda nebulosa e conservadora da academia.

#grammy #kesha #ladygaga #sza #pnk #matéria

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