Discothèque #2: A nova leva de solistas coreanas não vive só de singles

O mercado musical sul-coreano, assim como qualquer mercado musical consolidado, é puramente cíclico: tendências e sonoridades vem e vão e se renovam a cada três ou quatro anos, ganhando novos contornos e ressignificações no processo. Mas se tem uma coisa na música pop do país que não segue essa regra é a existência onipresente de grupos masculinos e femininos: eles formam a maioria esmagadora de atos musicais do gênero, possuem um percentual monstruoso de fãs engajados e detém um apelo coletivo tão forte que não sobra espaço para que o público comum dê muita atenção aos artistas solo que também compõem o k-pop.

A regra cíclica tem sido bastante incisiva quando se trata de solistas femininas de música pop na Coreia: algumas ganham notoriedade momentânea, outras conseguem se manter relevantes por um bom espaço de tempo, mas a grande maioria desaparece tão rápido quanto surge. As “ondas” de solistas femininas no kpop, especialmente depois que ele começou a ganhar notoriedade internacional entre 2008 e 2009, nunca duram o suficiente para tornar essas artistas parte importante do mercado, e há um aspecto relevante a ser levado em consideração nesse constatação: boa parte das solistas coreanas são na verdade integrantes de girlgroups diversos que acabam chegando aos lançamentos solo através de “experimentações” de suas empresas – assim, muitas não chegam a vingar mesmo com o apoio do fandom de seus respectivos grupos, e logo não passam de um ou dois lançamentos inexpressivos (cof cof, quase toda a rodada de solos do Girls’ Generation).

É estranho que isso aconteça pois, muito além dos grupos masculinos e femininos, quem trouxe notoriedade para a música coreana e a colocou no mapa foi… uma solista feminina. A influência da BoA no mercado japonês e até a sua tentativa fracassada de debut americano fizeram o público ocidental que já curtia j-pop (ou ao menos uma boa cantora pop farofa) perceber que havia algo acontecendo ali na Coreia entre o meio e o final dos anos 2000. Mas a BoA, assim como Lee Hyori ou Uhm Jung Hwa, se encontra numa posição privilegiada entre as solistas coreanas: mesmo não tendo nenhuma grande expressividade em vendas ou popularidade hoje em dia, ainda possui um nome extremamente forte e uma imagem solidificada no kpop, o que dificilmente acontece com outras solistas.

Aliás, essas três artistas anteriormente citadas influenciaram na primeira grande onda de solistas da segunda geração do kpop, que incluiu nomes como Son Dambi, G.NA, Ailee, Lee Hi e IU. De todas essas, apenas IU seguiu o exemplo de suas predecessoras, conseguindo consolidar sua imagem e desenvolver uma carreira sólida, enquanto as outras passaram por grandes instabilidades de popularidade, sofreram com falta de planejamento de suas empresas, ou presenciaram um declínio vertiginoso em suas carreiras após uma fase rápida de sucesso. Na tangente também estiveram nomes importantes como Hyuna ou Gain, que se dividiam entre divulgações solo e em grupo, só vindo a abraçar suas respectivas carreiras como solistas mais tardiamente.

Depois disso o mundo das cantoras solo passou a respirar com a ajuda de aparelhos, contando volta e meia com lançamentos interessantes, como os de solistas pouco conhecidas tipo Lim Kim e Andamiro/Anda, ou lançamentos irrelevantes de integrantes de girlgroups a beira da morte, como Amber, Minah, Nicole, Raina e Hyomin – nenhuma forte o suficiente pra conseguir colocar novamente as solistas em destaque. Só após o final de 2015, com o primeiro lançamento solo da Taeyeon (uma solista que eu particularmente nem gosto, mas entendo a importância nesse contexto), a febre de reality shows musicais como Unpretty Rapstar e Produce 101 e o fim de alguns grupos famosos da segunda geração, foi que as solistas passaram a ter uma nova chance com o público de k-pop, que se rendeu a artistas como Sunmi, Heize, ChungHa e Suzy.

Nessa edição do Discothèque, totalmente inspirado no post do Matheus sobre a Sunmi, eu queria exatamente discutir as breves discografias dessas solistas mais recentes e provar o meu ponto de que o sucesso dessas artistas tem a ver com todo um empenho e cuidado com o qual elas tratam seus próprios materiais. Afinal, para terem se destacado como atos solo e terem ajudado a criar todo um momentum de solistas femininas no mercado coreano, algum diferencial elas possuem. Let’s go girlies.

#1 Chungha

Das solistas supracitadas, a Chungha é a mais recente a ganhar familiaridade com o público. A gata debutou no mercado do entretenimento há apenas dois anos, quando participou do survival show Produce 101, posteriormente integrando o projeto/grupo I.O.I e se lançando como solista em meados de 2017. Estranhamente ela foi uma das únicas “vencedoras” do Produce 101 a não ser integrada em algum grupo, tendo sua empresa inteligentemente optado por debutá-la como artista solo, o que por sinal a deixou anos luz a frente de suas ex-companheiras de I.O.I. Por ser uma artista recente, a Chungha tem muito o que provar e parece que está bastante ciente disso: o que significa que ela atira para todos os lados em seus álbuns (dois EPs lançados até então).

O foco da artista, é claro, parece ser na dance music, visto que suas faixas principais seguem fielmente esse gênero, como o tropical house de “Why Don’t You Know?” e a colagem pop eletrônica off-key de “Roller Coaster”. Mesmo assim, em seus álbuns a Chungha sempre tenta mesclar isso com alguns outros subgêneros que povoam o kpop, como o funky-pop de “Make a Wish” ou “Bad Boy”, faixas equivalentes de seu primeiro e segundo EP. Se devotar à música dançante é sempre um desafio quando se quer mostrar vocal, então a cantora também inclui religiosamente baladinhas em seus lançamentos, mesmo que elas fiquem deslocadas no contexto geral dos álbuns – e assim temos peças como “Remind of You” e “Cosmic Dust”, todas esquecíveis como só uma baladinha comum de k-pop pode ser.

De qualquer forma, e apesar do tom um pouco sem personalidade de seus primeiros lançamentos, Chungha parece ter uma carreira promissora pela frente, o que pode ser potencializado com uma discografia gradativamente melhor à medida em que ela for se encontrando vocal e artisticamente. Por enquanto o EP “Offset” é a melhor amostra de seu potencial, sendo inofensivo e agradável na medida certa e contando com uma das músicas dançantes mais legais do kpop nesse ano que mal começou, o pop/reggaeton “Do It” (que faria bonito caso fosse escolhida como faixa de divulgação do disco).

#2 Suzy

A Suzy é o exemplo mais estranho da lista. Do seu debut como idol no grupo miss A até o lançamento de seu primeiro álbum solo (o EP “Yes? No?”) foram 7 anos, o que deu um certo espaço de tempo para que ela pudesse minimamente ter ideia de qual direção musical gostaria de tomar. Ainda assim o seu primeiro mini álbum foi uma grande surpresa: é um trabalho extremamente maduro e coeso para o debut solo de uma idol de girlgroup, contando com faixas que fariam solistas artsy conceitualíssimas como GaIn ficarem sedentas para tê-las em seus catálogos. Clareza no direcionamento artístico de uma solista é tudo, ainda mais quando seu material solo é lançado em um momento crucial da carreira (no caso da Suzy, o seu primeiro álbum veio numa época de decisão entre a continuidade do miss A como um trio ou foco nas atividades solo das integrantes reminiscentes), e a artista, assim como sua empresa, focaram no desenvolvimento de um material que potencializasse seus talentos e ainda oferecesse uma imagem agradável e com apelo o suficiente para chamar a atenção de públicos diversificados a ela (o que dizer da ótima inspiração imagética da artista em filmes do cinema alternativo de Hong Kong, como Chungking Express e Millennium Mambo?).

“Yes? No?” é todo composto e produzido por musicistas sul-coreanos, não contando com aquela famosa mania do k-pop de comprar faixas criadas por grandes grupos de produtores internacionais (e que muitas vezes não enriquecem em nada na criação de uma identidade para certos trabalhos, vide Taeyeon tentando um estilo sonoro “cantora-compositora” em seu álbum “I”, mas quase usando apenas faixas internacionais compradas e criando um frankenstein sem personalidade). A própria Suzy parece ter se devotado muito ao álbum, tendo créditos na escrita da letra de duas faixas e na composição de uma delas, aparentemente impondo pelo menos um pouco de sua visão artística no projeto. A atmosfera do álbum é soft, quase chill, com faixas suaves e que dão foco aos vocais da fada, combinando batidas r&b com instrumentos como sintetizadores, baixos orgânicos, piano e até violão em faixas mais “ousadas” pro contexto do k-pop, como a quase bossa-nova inspired “Question Mark”. As navegações mais eletrônicas do álbum são sutis, mas geralmente rendem bons resultados, como o r&b oitentista cheio de sintetizadores e bass analógicos de “Lés Preferences”. Provavelmente meu único problema com o disco é a faixa de divulgação “Yes No Maybe”, produzida pelo JYP e de longe o registro mais pop do trabalho, mas que traz elementos que distraem o foco da faixa – a música é bastante bem-construída em questão de composição, mas acaba sendo desfavorecida por arranjos mal acertados, como o beat de tecnobrega que em nada combina com o clima do disco.

Mesmo não tendo divulgado o “Yes? No?” como devia, não aparecendo em nenhum dos programas musicais semanais coreanos (ela tava gravando dorama na época, o que é uma penaaa já gente perdeu de ver ela se enrolando na coreografia da cordinha de “Yes No Maybe” ao vivo), Suzy conseguiu um hit considerável com a faixa “Pretend” e parece ter emplacado sem grandes dificuldades a sua nova persona solista com o público do país, tanto que até já marcou o lançamento de seu segundo álbum para esse mês – que tem o título de “Faces of Love” e faixas aparentemente interessantes como seu cover não creditado de “Bad Liar” da Selena Gomez.

#3 Heize

Assim como a Chungha, a popularidade da Heize também é creditada a um reality show, a segunda temporada do Unpretty Rapstar. Tendo iniciado sua carreira como rapper underground, a artista chegou a ter alguns lançamentos obscuros em 2014 antes de seu ingresso no reality e consequente estouro mainstream em 2015. Ela é de longe o nome mais promissor que saiu do programa, conseguindo alcançar um nível de sucesso que outras rappers populares do reality como Cheetah, KittiB, Yezi, Jessi e Jimin não conseguiram (ou nem tentaram né, a Yezi mesmo morreu depois de dois ou três lançamentos genéricos). A fórmula para isso talvez seja a forma como a Heize consegue lançar um material que sempre mescla composições cativantes com um espaço certo para desenvolver os seus talentos como rapper, além do fato de que ela não é limitada apenas ao rap, mas também se desenvolve bem como vocalista – sem contar que, venhamos e convenhamos o estilo musical dela é meio safe e portanto muito mais bem aceito entre o público coreano geral do que o estilo mais incisivo e chamativo das outras rappers.

Seu material sempre permeia pelo r&b alternativo com um pouco de pop eletrônico – e, embora não evolua muito além desse padrão citado, consegue ser bom o suficiente para marcar sua personalidade como artista. Seus dois EPs até então (“And July” e “///”) são bastante coesos e de fácil digestão, todos contando com colaborações com artistas proeminentes da cena “urban” coreana como DEAN, Nafla e Shin Young Jae, do grupo de R&B 4Men. “Don’t Know You”, do ///, além de ser o maior hit da gata, também é o melhor pedaço de sua discografia até aqui, mostrando um crossover extremamente bem feito entre deep house e o r&b alternativo já citado que deixaria outras tentativas dessa mistura (como “Player” da Tinashe) parecendo apenas produções amadoras. Eu aposto na manutenção do sucesso da Heize caso ela continue dando ao público coreano o que eles querem escutar, mas também espero um pouco de evolução em seu material porque r&bzinho indie cansa depois de um tempo.

#4 Sunmi

Bom, talvez a Sunmi viva mesmo só de singles, mas como ela anda levando seus solos à sério recentemente, é uma questão de tempo até o lançamento de pelo menos um mini-álbum (pelo amor de DEUS, assim eu espero). A carreira solo da Sunmi é feita de dois momentos: o primeiro durou de 2013 a 2014, quando a cantora era uma boneca de testes musicais do JYP, e o segundo começou em 2017 após o fim das Wonder Girls, quando a Sunmi realmente assumiu as rédeas de sua própria carreira. Pouco importa o que ela lançou antes de 2017, porque é claro que agora ela está em outro momento como artista, imprimindo sua própria personalidade nos trabalhos recentes e fazendo bem… o que bem entende de sua música. A Sunmi parece estar no meio termo entre Chungha e Suzy, evoluindo gradativamente no processo de se encontrar como artista, mas ainda não chegando num nível de excelência musical notável para que ela possa ser apreciada fora da esfera idol.

Ainda assim Sunmi já demonstra ser uma artista preocupada com os pormenores de sua carreira, dando atenção às letras de seus singles recentes e criando toda uma narrativa para conectá-los, coisa que pouquíssimos artistas mainstream como ela se arriscam a fazer (ou se arriscam, não fazem tão bem quanto a gata fez). Outra questão é que o sucesso recente dela com o viral de “Gashina” ano passado teve um papel crucial no aumento da atenção do público em relação a essas artistas solo mais novas, além de ter colocado as solistas femininas no papel de destaque recente que eu discuti no texto. Mais divagações sobre a artista podem ser conferidas no texto do Matheus sobre seu último single.

Com todo esse material a ser explorado e potencial a ser desenvolvido, seria interessante se as agências coreanas fossem ganhando cada vez mais confiança para arriscar com mais e mais artistas solo femininas – e que não sejam efêmeras como Tiffanys, Seohyuns, Jiyeons e Lunas da vida, mas que durem o suficiente para construir carreiras relevantes no mercado coreano. Nós kpopfags precisamos de nossas próprias divas pop para torcer e brigar por causa da discografia, e em uma realidade repleta de catástrofes musicais como Twice e Gfriend, solistas interessantes e com trabalhos de qualidade são cada dia mais urgentes.

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