Sunmi não fez nada de errado: mesmo alguns resultados mistos de “Heroine” não mancham a su

Celebradíssima em 2017 por seu retorno solo após o fim do grupo Wonder Girls, do qual fez parte em distintas épocas, Sunmi resolveu investir no marasmo do início do ano na cena musical sul-coreana para emplacar mais um hit. Composta pela blogueirinha junto à Teddy – maior escritor da YG Entertainment, responsável por mais da metade de discografia do 2NE1, do BLACKPINK, e de outros artistas na gravadora –, “Heroine” é a autoafirmação de uma artista que visa dominar o mercado e sabe exatamente o que faz sucesso nele.

A cena sul-coreana mainstream está em falta com as solistas mulheres não é de hoje. Hyuna, ex 4-Minute, famosa por seus conceitos anti-caretice e libertação sexual (ainda que hiper-comercial, esse tipo de representatividade num país ainda tão conservador importa), não emplaca um grande hit há anos. GAIN, quase que símbolo cult, aplaudida por sua sexualidade abundante, esta vista como “arte refinada”, não lança nada de impacto desde 2015. Recentemente, envolveu-se num escândalo no qual expôs seu psiquiatra por ele ter lhe recomendado o uso medicinal de maconha – a paranguinha ainda é ultra-tabú no país com maior índice mundial de alcoolismo. Solistas de longa data como Lee Hyori, BoA, Uhm Jung Hwa, entre outras, até tentaram mas seus públicos apenas fizeram diminuir conforme suas idades avançavam. IU e TAEYEON brilharam, embora estejam num nicho musical muito diferente de todas as outras; ambas conquistam o público com letras românticas, em melodias e arranjos simplistas; quando fogem disso, raramente conseguem grandes êxitos (“I Got Love” e “Jam Jam” são bons exemplos). Enfim, com ou sem problematizações sobre indústrias que descartam mulheres conforme suas idades: o posto de maior solista do K-Pop da atualidade estava vago até Sunmi reaparecer com “Gashina”.

“Gashina”, apesar de seus evidentes defeitos, como sua produção tropical house beirando ao genérico – parabéns Teddy, seu preguiçoso fudido –, foi um grande sucesso graças à Sunmi. Ela fez transformar uma música, que poderia facilmente passar por algo feito pelo KARD, num dos maiores acontecimentos do ano. A “coreografia da arminha”, a letra mirando no girl-power do pop britânico atual como visto em músicas da Dua Lipa e do Little Mix, os visuais veranis remetendo ao suprassumo “Why So Lonely”, lançado por seu antigo grupo; tudo é muito inteligente e, ainda, natural. Há aquele famoso fator X, inexplicável razão pela qual Sunmi tem tanto carisma que conseguiria manter uma loja especializada em vender sal no meio do deserto. E, assim, fruto do desespero pelo próximo viral estonteante, nasceu “Heroine”.

Me deixem explicar melhor: o desespero de todos os envolvidos aqui, Sunmi inclusa, em hitar um single não deve ser condenado. Como bem citei, são inúmeros os casos de one-hit-wonders solistas no K-Pop. Embora “24 Hours” e “Full Moon”, lançadas anteriormente ao seu retorno ao Wonder Girls em 2015, tenham sido hits, eles não chegaram perto do que “Gashina” foi. A pressão aqui para que Sunmi se estabelecesse como a ultimate it-girl do momento, em estética e música, era grande. Então, para onde mirar? O pop britânico sempre foi um dos mais, digamos, gentis com as mulheres. De lá, saíram Spice Girls, Sugababes, Girls Aloud, Little Mix, dentre outras que vieram a influenciar a formação do K-Pop em grupos. Então, por que não dar uma olhadinha no que pode-se tirar dessa cena inglesa? É aí que começa todo aquele rolê da possibilidade de plágio: a caça às bruxas online com a Sunmi começou após vários internautas perceperem a semelhança de “Heroine” com a faixa “Fight for This Love”, de Cheryl Cole. Cheryl que, inclusive, lançou “Fight” como carro-chefe de seu primeiro single solo após hiatus do Girls Aloud. Além de tudo, os figurinos usados pela Cheryl nessa época são parecidos com os da Sunmi em dias atuais! Oh meu Deus, quanta coincidência.

Particularmente, acredito que sim: foi tudo chupinhado mesmo. Mesmo “Fight for This Love” foi produto de diversas referências do passado. Isso só reforça a esperteza de Sunmi nesse jogo. Nada melhor do que um escândalo desses para alavancar sua canção a um status ainda maior e alcançar pessoas completamente alheias ao K-Pop, ainda considerado um nicho “idol” para a maior parte da população sul-coreana. Foi assim que BoA e Lee Hyori estiveram na boca do povo por um bom tempo; enquanto BoA funcionava como um andróide doméstico da SM de imitação profissional da Britney Spears, Hyori enfrentou acusações de plágios que variavam de Namie Amuro até Beyoncé. O grande ‘x’ da questão é: será que cantoras como elas tinham consciência de que suas reputações valiam milhões enquanto estivessem manchadas? Pois eu acho que Sunmi definitivamente tem ciência dessa dinâmica financeira. Assim como Anitta, Namie Amuro, Dua Lipa, e Ariana Grande fazem em seus respectivos países, Sunmi é a representação da mulher esperta e vivida o bastante para dobrar a indústria como bem quiser e, assim, não amargar em ostracismo.

“Heroine”, como faixa, não é lá essas coisas. Ouvindo ela repetidamente para escrever esse post, já até enjoei e fiquei pensando se escrever tudo isso aqui realmente valia a pena. Há muito o que processar só nessa faixa; a composição é provavelmente uma das mais esquizofrênicas que eu ouço no K-Pop desde “I GOT A BOY”, do finado Girls’ Generation. Um deep housezinho lite > que logo desagua em versos brit-pop Xenomania do início da década de 2010 > com um refrão triunfante com ares de música sobre competições esportivas > trend alert: Namie Amuro em “Hero” > depois disso não dá mais espaço para nenhuma leveza melódica. Depois de algumas ouvidas, torna-se um pouco exaustiva. Mais uma vez, quem vende o peixe aqui é a Sunmi. Sua performabilidade no vídeo e suas diversas referências kitsch aos palcos do teatro, unidas d’uma letra quase que pós-feminista, empoderando o parceiro como o verdadeiro herói caso a vida do casal virasse uma história. “O espetáculo deve continuar”, ela declara para seu amado, alertando-o que ele precisa deixá-la para finalmente ser feliz. Que incrível, né? Poucas vezes vi uma letra tão aberta sobre sacrifício da própria felicidade em prol de terceiros, especialmente quando o assunto é relacionamento amoroso. Rainha dos relacionamentos saudáveis. #GOALS #2018

Acredito que Sunmi tenha o que seja necessário para firmar-se como a popstar definitiva da Coreia do Sul, mesmo que por alguns anos. Ela é dona de incrível carisma, possui imagem singular e revigorante para com a feminilidade em seu país e, ainda, tem talento o bastante para escrever seu próprio material e direcionar sua carreira artisticamente. Sunmi abraçou e tomou para si todas as tendências que quis e, surpreendentemente, isso deu certo. Será que cientistas conseguem explicar melhor com terminologias mais avançadas o poder de uma gatinha do pop em pleno florescer? Em breve, veremos se este foi o início da ascensão de Sunmi ou se sua chama apagou-se ao alastrar-se muito facilmente. Por enquanto, ainda é uma aposta; 90% certeira, pra mim.

P.S.: Eu tirei menos de 500 na folha de exatas do ENEM então encarem todos os dados acima como uma aproximação +/- realística.

Ouçam “Heroine” no Spotify.

#sunmi #cherylcole #matéria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s