JESUS WORE MARISA: o pop nacional anda incrível e nós te provamos isso em 10 músicas

Quando falamos em música brasileira, há dois tipos de acionamentos imediatos: ou você lembra dos gêneros que formam um imaginário coletivo sobre o que é a “música de qualidade” do Brasil, como MPB, samba e bossa nova, ou você pensa na onda mais recente de sucessos radiofônicos do funk (não só carioca) e também do quase onipresente sertanejo – esse último, que além de estar em destaque no mainstream daqui há um tempo, anda se metamorfoseando em novas tendências, como o surgimento do movimento “Feminejo”, que chegou com força colocando as mulheres e duplas femininas em destaque nesse gênero predominantemente dominado por homens. Mas engana-se quem acredita que a música no Brasil se limita apenas a esses espectros isolados: há uma onda cada vez mais forte de artistas que mesclam e subvertem esses gêneros, formando uma pequena experiência sonora dançante e caótica que podemos confortavelmente chamar de “pop nacional”. 2017 foi um ótimo ano para provar que esse tão-falado pop nacional respira bem e evolui em um ritmo incrível, e como Jesus Whore Chanel está aqui para reforçar um compromisso com a verdade e com indicações musicais incríveis, elaboramos uma lista com alguns artistas brasileiros que representam o crème de la crème da categoria. As músicas nesse post foram escolhidas numa união de poderes entre o Kelvyn @bubblegumrave e o Lucas @gwenxtefani, não privilegiando apenas os hits virais do Spotify, mas também trazendo faixas pop indiezudas que merecem o conhecimento e atenção de um público maior. Let’s go, pocs!

MC Tha – Bonde da Pantera

Se houvesse um crossover de gêneros que eu pudesse nomear de “ethereal baile funk”, a MC Tha provavelmente seria a rainha desse estilo. A artista paulista não só faz um funk bem mais calmo que o normal, totalmente reminiscente do movimento do funk rasteirinha, como também inclui em suas músicas um senso pop/alternativo que permeia por instrumentais sintetizados, ressonantes e cheios de reverb. “Bonde da Pantera” é a adição mais recente de sua breve discografia, contando com beats do Omulu e King Dodou, dois nomes em ascensão da produção nacional e internacional, e trazendo o que seria a mistura mais interessante entre o funk nacional e o ritmo global mais em evidência lá fora, o tropical house (ou tropical bass, como eles mesmos descrevem). MC Tha na verdade só quer dançar, e passa essa sensação pela letra boba e enérgica, toda intercalada por cortes e samples vocais que trazem o clímax rebolativo do refrão. [Por sinal o look transparente dela no clipe é provavelmente o sonho de consumo de qualquer poc nesse mundo, manda o link do produto na aliexpress pra gente, Thazinha!]

Pabllo Vittar & Matheus Carrilho – Corpo Sensual

Não há dúvidas de que Pabllo Vittar é o grande ícone de 2017, tendo levado seu nome a patamares incríveis, emplacado hit atrás de hit e se engajando em parcerias diversas. Talvez ela até tenha desbancando a nossa amada Anitta [Nota do Kelvyn: amiga não força], até porque, quem diria, Pabllo quebrou todas as barreiras do nicho LGBT, atingiu o mainstream predominantemente heteronormativo e se tornou uma das Drag Queens mais bem sucedidas do mundo (acho né). Corpo Sensual é a colaboração efervescente da drag com o Matheus Carrilho da Banda Uó, e juntos eles trazem uma música bem gostosinha, com beat marcado e clara influência do tecnobrega paraense. Por sinal essa é só uma mostra do poder criativo da fada tupiniquim, que trouxe uma verdadeira coleção de hits prontos em seu álbum de estreia, “Vai Passar Mal”. Só ressalto que o ideal é ouvir as versões do CD, não sendo recomendada a audição de alguns lives da Pabllinho pois não nos responsabilizamos por qualquer dano causado a sua saúde.

Letrux – Flerte Revival

Letrux é o nome artístico de Letícia Novaes, que até algum tempo atrás formava a dupla MPB indiezuda Letuce, mas agora se joga em uma empreitada mais pop e dançante em seu álbum de estreia solo, “Letrux Em Noite de Climão”. “Flerte Revival” é uma das faixas desse álbum e um dos melhores cuts do trabalho por sinal, trazendo uma atmosfera noturna e predominantemente disco, com uma letra que segura o tom hipnótico do instrumental e ao mesmo tempo mantém a aura de humor quase escrachado que permeia o álbum aqui e ali. É interessante como a introdução da música é basicamente declamada por cima de synths e uma bateria repetitiva (quase parecendo uma música do Noporn) pra depois ser inteiramente “musicada” a partir da metade da canção, sendo cantada com todas as artimanhas vocais que possui direito. “Letrux Em Noite de Climão” é cheio de bons momentos como esse, e quem sabe ajude a levar a Letícia Novaes a um público mais amplo e menos seleto que aquele que acompanhava o Letuce.

Teto Preto – Gasolina

Sendo lançada originalmente em 2016, mas ganhando boa notoriedade em 2017 com a sua inclusão na trilha sonora do filme Corpo Elétrico e em DJ sets de milhares de festas pelo Brasil, “Gasolina” do Teto Preto é menos uma música e mais uma experiência. A faixa conta com quase 8 breves (!) minutos de experimentações eletrônicas, percussões frenéticas e pura abstração na letra cantada pela frontwoman do projeto Angela Carneosso e a Peste, surpreendendo por trazer uma infinidade de humores, camadas e construções interessantes em uma música só. Eu até ousaria dizer que a música só chega a um final porque ela não poderia aguentar mais tanta criatividade em uma única existência. Outro ponto que surpreende em “Gasolina” é o fato dela ser apenas o primeiro lançamento do Teto Preto, que é um superprojeto formado por músicos da atual cena clubber brasileira, especificamente da festa itinerante Mamba Negra, da qual são residentes. Sendo assim, as expectativas para que o projeto dê continuidade às suas experimentações sonoras com novos lançamentos são altas, de preferência trazendo peças tão interessantes quanto esta.

Simone e Simaria & Anitta – Loka

Quem não concorda que Loka é a melhor música de 2017 que se exploda! (SIM, isso direcionado ao Matheus AKA @bucetacore). Quem não gosta de uma bom sertanejo feito por mulheres para mulheres que, assim como eu, são sofredoras mas não deixam barato pra macho opressor nenhum?! Loka é a parceria sertaneja/reggaeton fusion da irmãs Simone & Simaria com a princesa do pop/funk Anitta, uma união de poderes que nós não sabíamos que precisávamos tanto até ser finalmente lançada. Apesar de não trazer nada de muito inovador ao cenário musical, a música cumpre o seu papel de conseguir mesclar bem os estilos dos nomes envolvidos nela, com uma melodia típica do sertanejo e o adicional das batidas eletrônicas que se mixam com os violões e uma letra libertadora e que invoca noções de sororidade que fariam Dua Lipa ser encontrada morta numa vala. Loka vai te fazer subir na mesa de qualquer boteco de esquina e mostrar que sim, você pode ter uma noite de patroa, azarar os boys, beijar na boca etc.

Alice Caymmi – Louca

De uma loka pra outra, quem trouxe um dos suprassumos do pop nacional em 2017 foi a já conhecida Alice Caymmi com a sua versão do hino “Loca”. Pra quem não sabe, a música é inicialmente do repertório da Thalia (!), mais especificamente de um de seus álbuns mais bem sucedidos, “El Sexto Sentido”, porém por aqui a música acabou sendo mais conhecida pela versão da banda pernambucana de brega Kitara, que com o título de “Dizem Que Sou Louca” bombou localmente entre 2012 e 2013 (que orgulho do meu estado não-separatista). A versão de Caymmi segue a letra da Banda Kitara, quase uma tradução literal da versão em espanhol, mas o grande twist dessa versão é que a artista adiciona um instrumental cheio de trap e doses de funk e tecnobrega à música, embebendo a sua voz em efeitos vocais e dando outro mood que talvez ninguém esperasse que essa canção fosse receber. Essa versão aliás é produção do João Brasil, perito em transformar o que é brega em algo cool, como em “L.O.V.E. Banana”.

Iza & Marcelo Falcão – Pesadão

Você acha que tem capacidade de fazer parte do Bonde Pesadão? Iza e Marcelo Falcão se uniram e resolveram criar um novo tipo de partido que tem como o principal foco a militância! Xs empoderaxs nxx estxvxm preparadxs! Com uma pegada meio Reggae/Rap, batidas pesadas do trap (que fazem jus ao título da música) e uma letra forte e cheia de resiliência que incita as pocs a militarem pelos seus direitos, Pesadão se declara uma das melhores músicas desse nicho do pop nacional em 2017. A participação do Marcelo Falcão (fariam, pocs?) agrega muito à música, tendo uma boa química com a Iza e não parecendo ser só mais um daqueles featurings puramente comerciais, sabe? Agora se você concorda com tudo que eu disse nessa review a lá Pitchfork e a sua resposta for SIM para a pergunta que foi feita no início deste texto, então eu lhe declaro o mais novo membro do Bonde Pesadão. [Detalhe pros visuais on point da Iza no clipe, impossível não cair de amores pela Naomi Campbell brasileira]

Marcelo Yuka & Céu – Por Pouco

Eu caio de amores pela Céu desde que as melodias do “Vagarosa”, seu segundo álbum de estúdio, entraram no meu radar. Assim, venho acompanhando basicamente todos os trabalhos da artista, incluindo as colaborações esporádicas que me levaram a essa música aqui. Marcelo Yuka é um compositor conhecido pelo trabalho junto com O Rappa no início dos anos 2000, mas agora se arrisca em seu primeiro álbum autoral solo, “Canções para depois do ódio”, contando com participações de diversos artistas para dar voz às suas construções criativas – e “Por Pouco” é uma das melhores mostras da capacidade do compositor, trazendo Céu bastante confortável em tons quase sussurrados, entoando abstrações por cima de um instrumental misterioso, mas que consegue se tornar excentricamente dançante através de sua bateria compassada. A construção lírica é o mais interessante aqui, usando seus versos incomuns para falar sobre a sensação de quase voluntariamente se submeter ao ódio e a uma confluência de sentimentos ruins.

Banda Uó – Tô Na Rua

Eu particularmente me sinto feliz com o hiatus da Banda Uó, porque só assim eles podem retomar as origens e lançar algo decente que há anos não andava acontecendo [Nota do Kelvyn: amigo aparentemente eles acabaram de vez viu]. Tô Na Rua é o adeus indeterminado da banda aos fãs, e com esse hiatus a ideia é que cada um dos integrantes foque na sua carreira solo e quem sabe algum deles tenha sorte e triunfe por conta própria (espero imensamente que seja a Candy Mel e que ela vire a Jessica 6 brasileira). Com batidas calmas que remetem àquela pegada latina reggaetoneira extremamente popular e letra simplória e fofa, Tô Na Rua é aquela música ideal para terminar alguma balada na companhia dos amigos ou até mesmo mandar aquele papo reto para o famoso crush (risos), entoando bem o fim de ciclo da banda e dando até um ar de nostalgia em relação aos seus lançamentos antigos.

Anitta, MC Zaac, Tropkillaz, Maejor, DJ Yuri Martins – Vai Malandra

EU SOU MALANDRA E VOCÊ? Só no último ano a cantora, influencer, empresária e patrimônio nacional Anitta lançou umas 10 músicas, e apesar de no meio delas existirem algumas bombas (o Projeto Check Mate algumas vezes fez com que muitas pessoas precisassem se abrigar em verdadeiros Bunkers), outras se sobressaíram e conquistaram o coração de inúmeros brasileiros comprometidos em rebolar o rabo como se não houvesse amanhã. Vai Malandra fechou o ano de 2017 e só reforçou mais ainda o título de Princesinha do Pop/Funk da Anitta, dando a tacada final no Check Mate. A música ressalta as influências iniciais da Larissa Macedo na Furacão 2000, misturando isso com o trap típico do Tropkillaz e utilizando-se do rap batido mas estratégico do desnecessaríssimo Maejor para dar aquela entonação internacionalizada que os projetos recentes da cantora pedem. Vai Malandra é o clássico funk “minimalista” brasileiro que nós todos amamos e ainda vai saturar por excesso de plays em todas as festas possíveis desse país. Se você é apenas uma poc chartzeira e ainda não reconheceu a supremacia da Anitta, é melhor ir se preparando pra aceitar a sua posição de Malandra na atual sociedade brasileira, pois a influência da Anitta veio para perdurar.

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