120 Batimentos por Minuto: quando a agenda sociopolítica é mais urgente que o entretenimento

Eu hesitei muito antes de resolver de fato escrever esse texto sobre 120 Batimentos por Minuto. O motivo? O filme é tão socialmente necessário e politicamente pertinente que, pra mim, seu valor de entretenimento é ínfimo – e como o Jesus Wore Chanel é um blog de entretenimento, me parecia bastante destoante trazer esse conteúdo pra cá. No fim das contas eu acabei sendo convencido pelo Matheus a escrever, então vou tentar passar minhas impressões sobre o filme da única forma com a qual eu consigo lidar com ele: o que significa uma análise de aspectos muito mais relacionados ao seu contexto do que ao seu roteiro ou execução, vários spoilers e também um tom de alerta quase paternal sobre desdobramentos da temática apresentada (e vale lembrar que eu não sou nenhum expert em resenhar filmes, além de ter As Panteras Detonando como longa favorito até hoje).

120 Batimentos por Minuto já possui uma bagagem enorme de aclamação, tendo vencido o Grand Prix, prêmio da crítica do Festival de Cannes de 2017, e (se vocês forem charthoes e estiverem interessados em números) agregando 98% em reviews positivas no Rotten Tomatoes. O longa se passa na França durante o início da década de 90, fase extremamente complicada da epidemia de AIDS no mundo, e mantém seu foco nos integrantes do braço francês da organização não-governamental ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power), que milita em prol de pacientes com AIDS, trabalhando em ação direta por melhores condições de atendimento, tratamento e medicação desses indivíduos até hoje. Como background, é claro, um relacionamento vanilla com tons de melodrama pra poder dar liga à narrativa, mas que de imediato eu já posso afirmar que é tão cheesy que não acrescenta muita coisa relevante além do sentimento expresso pelo meme abaixo:

Dito isto, é impossível não falar do longa em tom quase panfletário. O filme funciona como uma espécie de sermão/alerta artístico, surgindo em uma época em que a AIDS precisa ser rediscutida – principalmente entre o público jovem, visto que dados epidemiológicos da doença no Brasil continuamente apontam números alarmantes de infecção por HIV entre pessoas na faixa etária dos 15 aos 24 anos (x). Em nível global o quadro não é muito diferente, e tudo parece ser relacionado a uma simples questão: com o desenvolvimento de melhores soluções de medicação e tratamento para a doença a partir da segunda metade da década de 90, a manutenção da sobrevida de pacientes com AIDS aumentou significativamente e os métodos de controle da doença ganharam maior penetração na sociedade, além de uma maior facilidade de acesso. Assim, gerações mais recentes e que não vivenciaram a epidemia da doença nas décadas de 80 e 90 acabam tendo uma visão mais branda sobre o que é a AIDS, visto que contrair o vírus HIV atualmente não representa mais uma quase automática sentença de morte como acontecia antes. Alinhado a isso, há toda a questão de que a discussão da doença é sempre suprimida em várias camadas sociais por ainda ser envolta em aspectos de “tabu”, o que na verdade diz muito mais respeito ao conservadorismo presente em sociedades e governos diversos, que tratam sexo e sexualidade como assuntos sensíveis e que agregam estigmas sociais a quase tudo que é relacionado a isso. ̶M̶i̶l̶i̶t̶e̶i̶ ̶o̶ ̶s̶u̶f̶i̶c̶i̶e̶n̶t̶e̶?̶

A grande questão levantada em 120BPM é exatamente essa: a discussão ampla sobre a AIDS é essencial, pois apenas o ato de discutir a doença em si já é uma arma para a sua prevenção e também uma forma de tornar a população ciente da situação dos indivíduos acometidos por ela. Ter sido lançado com um timing tão preciso mostra como ele é uma ferramenta de alerta às gerações mais jovens, e como um produto cinematográfico, tecnicamente de entretenimento, pode acionar discussões que deveriam ser acionadas em outros setores da sociedade – mas que são negligenciadas. A temporalidade em que o longa se passa reflete muito disso: se a doença ainda enfrenta barreiras para ser dignamente discutida hoje em dia, quem dirá no começo dos anos 90. O filme sintetiza essa aspecto com o próprio governo francês, que, na obra, mantém uma política de quase silêncio sobre a AIDS apesar da epidemia iminente, delegando as decisões sobre assunto a uma organização governamental tida como passiva e altamente ineficaz, quase uma forma de mostrar o total desprezo de um governo conservador a populações de homossexuais, transgênero, prostitutas e dependentes químicos. A ACT UP luta exatamente contra essa ineficácia, mobilizando protestos diversos e sempre defendendo um slogan altamente simbólico nesse contexto de que o silêncio é igual à morte.

A forma como a ACT UP francesa é retratada é o maior trunfo da película: ela é uma organização caótica, formada por indivíduos de origens e mentalidades muitas vezes destoantes e que representam diferentes lados das minorias relacionadas ao assunto. Apesar de suas especificidades e de constantes divergências de pensamento entre si, o grupo possui uma boa gama de objetivos em comum e usualmente não mede esforços para avançar com sua própria agenda de reivindicações. A forma como a complexidade de configuração de uma organização com essa é passada em 120BPM prova o compromisso que o filme assumiu ao resolver abordar uma temática tão densa quanto a militância: nada nesse aspecto parece forçado ou suavizado (como acontece em obras francesas recentes, tipo “La Belle Saison”), fluindo de forma interessante apesar de leves tons professorais. É o máximo como o filme joga o espectador bem no meio das reuniões semanais e dos atos de protesto da ACT UP, praticamente fazendo-o sentir parte da rotina e das ações da organização, dando uma dimensão maior de como tudo ali funciona. Os conflitos inseridos apenas ajudam a dar ainda mais veracidade a tudo isso, como a bem colocada argumentação, ainda no início do filme, sobre o emprego de radicalismo e violência em atos da ACT UP.

No meio de tudo isso parece pouco inteligente sustentar os últimos atos do longa no relacionamento sem apelo entre os personagens de Nahuel Pérez Biscayart e Arnaud Valois (ou talvez eu só tenha um coração de pedra mesmo). Algumas interações são interessantes, mas a química no geral parece fraca, o desenvolvimento da situação dos dois parece meramente distrativo e o desfecho dos personagens traz um ar de pesar desnecessariamente clichê (e as cenas de balada embaladas a muito deep house também não ajudam em nada). Tudo bem, AIDS nos anos 90 era um rolê sério e basicamente uma constante certeza de morte, mas isso poderia ter ganhado um foco minimamente mais inventivo em 120BPM, dispensando o lugar-comum de final altamente dramático e com morte de protagonista (que é quase regra em pelo menos 8 entre 10 filmes LGBT). O objeto do filme estava ali: a ACT UP tinha camadas o suficiente para levar o filme sem que ele precisasse se render a construções confortáveis de roteiro como um romance trágico. Não ter aproveitado essa oportunidade foi um erro vital e que custou muito do bom aproveitamento que o longa poderia ter tido. É 2018 e o público já possui discernimento o suficiente para apreciar um filme do gênero drama sem que ele siga exatamente construções óbvias da esfera dramática. Se 120BPM privilegia uma agenda sociopolítica em sua narrativa, ele poderia ter privilegiado ainda mais e levado isso a outro nível – e, quem sabe, ganhar um devido espaço entre o lentamente evolutivo cinema LGBT.

[PS: minhas divagações acima sobre o status atual da AIDS no Brasil e no mundo são baseadas na minha própria experiência estagiando em hospital e tendo contato com especialistas no assunto, como infectologistas e professores – além dos textos que eu fiz sobre o assunto anteriormente]

Me siga no letterboxd.

#cannes

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