Coco: O Toque de Vida no Mundo dos Mortos

Em um roxo vívido a Pixar dá seu toque à morte. O sucessor de Finding Dory (2016), Coco, traz elementos de suas antigas narrativas e celebra, com sucesso, a cultura mexicana no dia dos mortos sem deixar de ressaltar as dificuldades políticas de ser latino. O filme, uma viagem emocional cheia de valores familiares, é repleto de músicas, cores e personagens riquíssimos, tornando o filme um dos melhores do estúdio desde Divertidamente (2015).

Coco segue a história de um menino mexicano de 12 anos chamado Miguel (Anthony Gonzalez) que sonha em ser músico como uma das maiores estrelas mexicanas do século Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt). Mesmo que sua tataravó tenha sido abandonada por seu marido músico e a família desaprovar firmemente o sonho do menino, proibindo-o de se envolver com música e obrigando-o a se envolver no negócio da família: sapataria.

Determinado a superar isso, Miguel Riveira (Anthony Gonzalez) decide participar de uma competição de música no “Dia dos Mortos”. O menino de 12 anos segue até o túmulo da superestrela mexicana e “pega emprestado” o violão do mesmo que está em seu túmulo – tendo o seu quebrado um pouco mais cedo no filme. Nas primeiras delicadas notas que toca naquele violão, Miguel é transportado para o mundo dos mortos onde encontra-se com seus antepassados, descobrindo mais sobre os membros de sua família e o próprio de la Cruz, isso tudo com a ajuda de uma caveira muito simpática – um dos pontos altos do filme – chamada Héctor (Gael García Bernal).

Para quem não sabe, o “Dia dos Mortos” na cultura mexicana é um dos dias mais importantes para eles. A data comemorativa, que acontece no dia 2 de Novembro, tem como objetivo honrar a família que já passou para o outro mundo e oferendar à eles pertences/comida que os mesmos gostavam. É o equivalente ao dia dos Defuntos aqui no Brasil. Sendo o elemento central de toda a estética do filme, o estúdio faz juz à data e não deixa de capturar a essência de todo o feriado.

Mesmo não tendo uma narrativa inovadora – não seguindo os passos do filme da mesma temática The Book of Life (2014), o veterano Lee Unkrich (Toy Story 3) consegue juntar toda essência da Pixar. Coco é contado com honestidade – um dos mais engraçados do estúdio – e cheio de sutilezas. Tendo alguns twists durante a jornada e momentos eletrizantes, o filme não falha em lhe fazer seguir os passos do personagem principal e sentir com o mesmo. E mesmo que a conclusão não seja uma das mais não-previsíveis, você tem sérios problemas se não achou um dos momentos mais fofos do estúdio até agora.

A história é cheia de valores intrínsecos à cultura mexicana. O respeito que a produção teve ao entender no que baseiam-se os mexicanos enquanto família e honra é incrível. Está dentro de cada personagem, propagado em cada fala dos mesmos. A complexidade de um menino que tem que ir contra a sua própria família, mesmo tendo que respeitá-los em todas as instâncias é ressaltada o tempo todo, sendo tratada com delicadeza, em um script quase-perfeito. O menino é carismático, assim como toda a família, e sonhador, uma combinação bem pixar que faz qualquer coração aquecer ainda mais – sério se você não gosta do personagem eu não vejo possibilidades de você ser humano. Sem contar que os personagens do “pós-vida” são ainda mais divertidos.

O mundo dos mortos é onde o filme acha seu brilho. No roxo vívido que já havia mencionado, misturando-se à luzes extrapolantes e uma mitologia riquíssima, capturada fielmente nos desenhos que a Pixar fez. Nele vemos até nomes renomados do México, como Frida Kahlo e entre outros homenageados. É interessante entender como esse mundo pega emprestado da vida real, servindo na verdade como um ato político.

Muitos diriam que é loucura tentar procurar significados políticos em filmes de crianças, mas Coco tem muitos deles que conseguimos observar nitidamente. Dentro do mundo dos mortos, podemos perceber claramente a menção à fronteira de imigração entre o México e o seu vizinho imperialista, Estados Unidos. É muito claro, ao menos para mim, que essa crítica faz-se importante em um filme que é centrado na cultura latina, mesmo que para crianças. A fronteira de imigração tem até mesmo uma equipe que fica responsável por deixar os “mortos” partirem para o mundo dos vivos buscar suas oferendas.

A outra, também muito nítida, é mostrada por Héctor (Gael García Bernal). Nessa parte do filme, nos é apresentado uma parte desse mundo onde os “esquecidos” ficam. É uma área precarizada que nos remete aos locais pobres em que nós, latinos, muitas vezes somos submetidos ao imigrar para outro país.

Mesmo com essas críticas sutís, Coco, é um dos filmes mais musicais da Disney – nada mais justo já que foca no sonho de Miguel. Tendo números musicais bem produzidos, formando uma trilha sonora impecável, o filme não chega a ser considerado um “musical”, mas ainda assim não deixa de emocionar com as letras bem humoradas e inspiracionais. Portanto, o maior número musical é simplista, mesmo que cheio de emoções.

Cheio de cores, música e valores o filme garante seu espaço dentre o catálogo icônico de filmes da Pixar, sendo em minha opinião um dos melhores filmes já lançados pelo estúdio. Depois de toda a eletrizante aventura, o filme ainda encontra um tempo para arrancar lágrimas dos seus olhos. Se você gosta de filmes essencialmente “Pixar”, Coco com certeza não irá lhe decepcionar.

#coco #filme #cinema #crítica

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