“Sai da frente desse computador, viado” Black Mirror, 4ª Temporada: Resenhas & Rankings

A série que causou grande alvoroço em 2016 após entrar no refinadíssimo catálogo do Netflix, Black Mirror volta com sua quarta temporada. Os episódios, produzidos pelo próprio serviço de streaming sob o nome de “Série Original Netflix”, seguiram a mesma estrutura da última temporada mas falharam em entregar uma temporada tão forte e consistente quanto a anterior. Não que esteja ruim, muito pelo contrário, mas… Tecnologias mirabolantes, por vezes fugindo dos padrões “sci-fi” que são entregues perfeitamente pela série – tão perfeitamente que originaram o (já datado) meme “isso é tão Black Mirror” – acabaram por decepcionar um pouco o público de costume. E é com estas informações que nós do JESUS WORE CHANEL decidimos fazer um apanhado geral e ressaltar o que vale a pena ou não nessa nova temporada. Rankeamos os melhores episódios nesse post colaboratório das Chanelpocs™ M&M (Matheus e Michel). Vamos aos refrescos?

OBS.: Os textos abaixo contém spoilers. Se ainda não viu os episódios e pretende vê-los com algum fator-surpresa, leia a seu próprio risco!

#1 USS Calister (1º episódio)

[Michel]

Referenciando Star Trek da melhor maneira possível, o primeiro episódio da quarta temporada de Black Mirror faz críticas à hipermasculinização dos homens nerds, porém falha em mostrar um sci-fi coerente. Em “USS Callister”, nome do episódio, nos deparamos com uma nova empregada de uma desenvolvedora de jogos conhecendo a sua equipe e Daly (Jesse Plemons) a cabeça por trás do jogo. Dentro da empresa, Daly sofre um bullying sutil dos seus colegas de trabalho, mostrando que esse rapaz é na verdade o esteriótipo de homem nerd que sofre também com a hipermasculinização da sociedade. É a partir desse bullying que descobrimos que Daly vinga-se indiretamente de seus colegas ao capturar o DNA deles e inserir dentro de uma versão Beta do jogo onde ele tem poder para fazer todas as alterações possíveis. Essas réplicas de personagens obtidas via DNA das pessoas do mundo real, são inseridas no jogo com a consciência do mundo real e memória de todos os acontecimentos de suas vidas até então. É nessa parte que o “sci-fi”, cheio de possibilidades de um futuro distópico que Black Mirror geralmente nos oferece, começa a desandar. Não há como extrair consciência apenas da composição genética de um ser vivo. Esse elemento do episódio tornou-o muito fantasioso e permitindo o telespectador a ficar com uma pergunta martelando na cabeça: mas tudo isso é real? Essa pequena falha deixa a veracidade das coisas fraca e o episódio menos assustador do que ele deveria ser. Porém, ainda assim, é um quase-filme muito divertido. Toby Haynes, conhecido por dirigir Doctor Who, não falha em fazer uma incrível referência à Star Trek e não deixa de criticar um dos aspectos muito atuais em nossa sociedade, a hipermasculinização e os impactos que ela tem nos próprios homens.

#2 Hang The DJ (4º episódio)

[Michel]

Em futuros distópicos a única coisa mantida é o amor. Retratado de várias formas diferentes dentro da série, o amor é um dos elementos presentes em quase todas temporadas. Na quarta, “Hang The Dj”, é o responsável por retratar esse sentimento. Muitos chamariam-o de uma versão hétero de “San Junipero” – nome do episódio da terceira temporada onde duas mulheres vivem um relacionamento “pós-vida” numa realidade virtual – pelo seu teor otimista e pela leveza que tem, comparado aos outros da série. Mas o que realmente conta nesses dois episódios é a riqueza do casal central, a química inegável que esses tiveram em seus respectivos episódios que nos fazem viver suas realidades com eles. Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) carregaram esse episódio do início ao fim, mostrando a nós todas as indecisões de um jovem apaixonado, cheio de complexidades e dúvidas. “Hang The DJ” nos mostra um sistema responsável por fazer combinações com pessoas diferentes, formando relacionamentos de pouca – ou muita – duração até o aparelho encontrar qual delas é o seu par perfeito. É na angústia de Amy e Frank que acompanhamos o casal, com altas expectativas, ficando presos à relacionamentos abusivos e entediantes, arranjados para eles pelo próprio sistema. Acompanhamos os dois encontrando-se e desencontrando-se diversas vezes, até que finalmente vemos os dois juntos. Um dos pontos altos desse episódio é a forma como o sistema entende acordos entre o casal. A crítica feita aqui, dá-se aos aplicativos da vida real, que formam relacionamentos rápidos e vazios, desgastando o emocional de qualquer pessoa. O plot twist final resolve todos os possíveis buracos que tenham em mente, concretizando inclusive o destino de cada personagem e abrindo possibilidades à diversas teorias interessantíssimas. As idas e vindas do amor traduzidas para um sistema tecnológico torna-o extremamente criativo e um dos melhores até agora. Bom para lembrarmos de que o amor acontece da forma que tem que acontecer e, como o próprio slogan do sistema diz, tudo acontece por uma razão.

#3 Arkangel (2º episódio)

[Matheus]

Pessoalmente, não sou estranho à superproteção parental. Cresci com uma mãe que me mantém sob sua contenção sempre que pode através de métodos não-convencionais e consigo vê-la sorrindo só de imaginar a possibilidade da tecnologia de controles abordada em “Arkangel”. A constante preocupação de novos pais de serem ou não os famosos “pais-ou-mães-helicóptero” foi, inclusive, brilhantemente abordada na série “Big Little Lies”, da HBO, em 2017. Então, o que “Black Mirror” teria a dizer sobre maternidade? Feliz ou infelizmente, “Arkangel” é um daqueles casos nos quais a temática é mais interessante que o próprio texto. Ainda assim, o episódio rende boas reflexões, apresentando narrativa e resolução, digamos, mais fatalistas que o de costume. Graças à direção sensível da fada imbatível Jodie Foster, é difícil não empatizar com a mãe controladora e/ou entender os motivos que levaram a filha monitorada ao seu limite.

O simples simples cultivo d’uma cultura de comunicação entre mãe e filha resolveria quaisquer dos problemas entre as protagonistas. Infelizmente, se partirmos pra realidade factual, isso seria difícil de acontecer de qualquer maneira. Em casos de relações familiares quebradas, é preciso muito empenho de todas as partes para uma eventual reconstrução, e nem sempre todos têm plena ciência de que esse processo deve acontecer. Me surpreende, também, o espiral de insanidade da filha GPS não ter se iniciado ainda mais cedo. Imaginem que loucura ter sempre no fundinho ali da sua cabeça o fato de que sua mãe possui um dispostivo que acompanha e filtra sua visão; e, além de tudo, monitora as substâncias em seu corpo.

Em “Arkangel”, a série decidiu dar poucas explicações sobre a tecnologia absurda de super-controles. Na falta de maiores esclarecimentos didáticos, a intimidade entre mãe e filha é o foco principal. O tour-de-force dramático de ambas é a força geracional do episódio, cuja proposital escassez de texto – afinal, falta de comunicação é a principal falha das duas – implica em contar a história por diversos meios audiovisuais. Vemos um apanhado, quase que uma seleção de “cenas mais importantes”, eventualmente mostrando circustâncias que moldaram Marie e Sara à terem comportamentos destrutivos. Enquanto Marie já temia pela perda de controle sob a filha logo em seu primeiro dia de vida, após uma frágil gravidez, Sara corria atrás dos perigos e sensações conflitantes que lhe foram tiradas por anos. É uma escolha comum de narrativa que poderia ter sido melhor explorada. Quem sabe em vez de darem uma hora e tanto para a dúbia autoparódia de “Black Museum”, “Arkangel” com uma boa repaginação poderia facilmente ser o destaque da temporada. Não que seja ruim, nem mediano; é satisfatório. Mas dava pra ser melhor.

#4 Metalhead (5º episódio)

[Matheus]

Tido como o enche-linguiça, ou o “Men Against Fire” dessa leva de novos episódios de “Black Mirror”, “Metalhead” foi uma das minhas maiores surpresas nesta 4ª temporada. Filmado em tons preto-e-branco claros e nítidos, apresenta Bella como uma das sobreviventes em um futuro aparentemente pós-apocalíptico. As escolhas estilísticas remetem à filmes de ficção ciêntífica e terror das décadas de 60 e 70, protagonizados por atrizes lendárias do cinema que já não conseguiam papel em filmes blockbuster por já serem velhas demais. Acredito que essa referência um tanto obscura tenha desanimado um pouco o público que não abraçou a ideia. Ao contrário de “Arkangel” – cujo texto é escasso mas ainda possui um meio-termo de instruções para assimilação do plot central – , aqui o negócio é dedo no cu e gritaria. A constante sensação de perigo de Bella no mundo dos metálicos cachorros-robôs é insana e a direção tá, ó, de parabéns por toda essa construção visual p&b de euforia e angústia. A relação de Bella por todo o episódio com o cachorro-robô que a persegue é interessante e dá dicas de que aqueles monstros de metal provavelmente vieram da tentativa de criação de mais um animal de estimação.

O fim, embora decepcionante para alguns, é válido. Visto que a concepção dessa distopia é minimalista, já era de se esperar que a resolução – ou falta de resoluções – seria da mesma proporção. Após 50 minutos de luta por sua sobrevivência, Bella é finalmente derrotada, numa batalha de desfecho incrivelmente triste para quem torcia pela nossa Kátia Flávia louraça belzebú provocante do fim dos tempos. A impotência do humano perante às máquinas que provavelmente foram construídas pelos mesmos é desoladora. Por fim, a revelação do conteúdo da caixa que Bella tentou buscar num armazém cercado por cabeças-de-metal é mais um daqueles momentos clássicos de “Black Mirror”, nos quais parece que alguém vêm na nossa casa desligar nosso modem de internet e nos grita à distância: “você tem problemas porque fica aí nesse celular”. Merda de ursinhos de pelúcia indiretamente responsáveis pela morte da nossa heroína. *o* Eu, particularmente, estou em paz com as lições de moral que nos são forçadas em certos episódios da série. Embora óbvio e até meio condenscente, a busca por umas merda de uns ursinhos condiz muito com todo o terror do mundo explorado pela protagonista horas antes de sua morte. Lidando com as poucas informações dadas, só nos resta especular que tais bens materiais de grande valor emocional podem, quem sabe, trazer um pouco de conforto aos poucos que sobreviveram esses dias de cão.

#5 Black Museum (6º episódio)

[Matheus]

Por onde começar a falar sobre o episódio possivelmente mais divisivo da temporada? “Black Museum” é, em suma, uma homenagem à iconografia da série que, infelizmente, patina em território de autoparódia por diversas vezes. Entendo quem venha a defendê-lo – afinal, “Black Mirror” tem episódios tão densos e particulares que autorreferência é uma possibilidade bem-vinda – mas todos os elementos aqui beiram em quasi-tragédia.

As histórias de dor & sofrimento graças à tecnologia e ao fudido do Thomas Edison são atraentes. O conto do médico em sua espiral descendente de vício em dores extremas é assustadora e pertencente à algum trecho de “American Horror Story”; daria um bom episódio completo e claramente carregou “Black Museum” nas costas. Já a história da mulher em coma cuja consciência virtual habita parte do cérebro de seu marido, apesar de simpática, mira na nostalgia dessa possível tecnologia já introduzida em “White Christmas” e “San Junipero” – de formas incrivelmente superiores, inclusive – e perde a mão completamente. A terceira historinha pra boi dormir do entusiasta Rolo Haynes, este que parece adorar contar histórias macabras enquanto definha em desidratação num espaço fechado e sem ventilação – afinal, quem nunca? o que é um calorzinho aqui e ali pra você e pro visitante do seu estabelecimento? –, é trágica. Toda a elaboração para posicionar Haynes como vilão em definitivo por torturar eternamente a consciência virtual de um prisioneiro – acusado injustamente pelo seu crime!!!! caralho, quem queimou os últimos neurônios do escritor disso aqui? – é risível. A súbita reação odiosa da protagonista Nish, punindo o sádico dono do museu de horrores, é igualmente risível. As revelações de que 1) o prisioneiro era seu pai 2) cuja morte levou ao suicídio de sua mãe 3) esta que hoje habita sua cabeça em consciência virtual: elas são ridículas. É como se algum autor bem ruim de folhetins de textos óbvios (Walcyr Carrasco?) tivesse sido o escritor fantasma desse episódio após ler brevemente sobre tecnologias já abordadas pela série em quatro temporadas. E a gata da Nish vingando o pai morto + catando o ursinho de pelúcia – que tem ali uma consciência virtual né + ABSOLUTAMENTE CAGANDO pro que aconteceu ou deixou de acontecer com o médico sadista? Pelo amor de Deus, que tipo de furo é esse? O que fizeram com minha “Black Mirror”? Sou defensor ferrenho da série, mesmo com todas as mudanças artísticas após sua aquisição pela Netflix, mas isso aqui é preguiça. Ou…

Vamos analisar dois pontos de vista: vai ver tudo isso que eu disse aí em cima é verdade e “Black Mirror” infelizmente ingressou com gosto nos horrores de lidar com autorreferências e explodir todas as bombas desse campo minado chamado autoparódia… pronto, cabô. Ou… Charlie Brooke fez fechar um ciclo e, no auge de sua genialidade autoconsciente, escreveu “Black Museum” assim, desse jeitinho mesmo, como uma autoparódia declarada. Nos pregando pegadinhas e desafiando nossos sensos de certo/bem e errado/mal, Charlie percebeu que o constante desejo do espectador por reviravoltas entonteantes tornou-se o grande clichê de sua própria cria-criativa. Assim, nos coloca como a Nish: inicialmente, mera espectadora do espetáculo de horrores do museu de Rolo Haynes; logo tentando alcançar qualquer laço de assimilidade com sua realidade para com as histórias ali apresentadas, afinal, há de trazer justiça à quem merece justiça. Aí a moral de tudo fica uma coisa mais ou menos assim: “lutem pelos seus direitos”.

Sinceramente? Nem você acreditou nisso KKKKKKK ok, na realidade, eu acredito um pouquinho. Especialmente se os rumores da quinta temporada da série ser um reboot de idéias completamente novas e tudo enxugadinho. Mas, por enquanto, como episódio de erros, acertos, falhas, e consistências, numa série tão importante, “Black Museum” é decepcionante; nota tipo 4/10. Novamente, meus parabéns ao médico sadista que carregou isso aqui nas costas. Ele arrancou todos os dentes da boca por você, Little Mirrorzinho, quando ninguém mais o fez.

#6 Crocodile (3º episódio)

[Michel]

O terceiro episódio da quarta temporada de Black Mirror, arrasta um main plot que torna-se cansativo à medida que vai se desenvolvendo. Contando a história de uma Katy Perry após a era Witness e os constantes desesperos que a mesma passou na era, “Crocodile”, consegue ser um dos episódios mais desinteressantes da série em geral. Nele, seguimos a vida de Mia (Andrea Riseborough) após participar de um acidente de carro, onde a morte da vítima é encoberta. Depois de anos do incidente seu amigo, o que teve a idéia de encobrir o acidente, Rob (Andrew Gower) encontra-a e mostra um artigo sobre a família da vítima ainda estar procurando-a e não sabendo nada sobre a morte, ele conversa com Mia mostrando sua vontade de entregar-se às autoridades e falar com essa família. Mas Mia é uma arquiteta renomada, com um marido e um filho e isso torna-se um problema para ela. Tendo em vista deixar seu passado obscuro para trás, Mia mata Rob. Entre o caos de descartar o corpo de Rob, um outro acidente acontece na rua e a personagem fica agitada, Mia ainda aluga um filme pornô no pay per view do hotel em que está hospedada para usa-lo como álibi. Esse acidente é investigado por Shazia (Kiran Sonia Sawar) que ao usar um dispositivo chamado “Recaller” – peça que verifica a memória de pessoas – torna-se um problema para Mia. A partir desse momento uma cadeia de mortes se desenvolve, Mia acaba matando a mulher muçulmana – em uma cena desconfortante onde pelo menos o islamismo de Shazia foi tratado de forma menos caricata – e por consequência todas as pessoas relacionadas à ela. Mesmo que o episódio conte com a participação da Katy Perry na era Witness, banhando-se em desespero, e mande uma mensagem interessante sobre as condições que a tecnologia cria – já que a rede de assassinatos só ocorre uma vez que o Recaller pode recuperar memórias das pessoas – a história em si leva muito tempo para se desenvolver, e quando o faz é repetitivo e cansativo. Honestamente teria sido melhor se nem tivessem feito!

Bom, é isto. E, por fim, a lista completa de episódios neste ranking colaborativo:

#1 USS Calister (1º episódio)

#2 Hang The DJ (4º episódio)

#3 Arkangel (2º episódio)

#4 Metalhead (5º episódio)

#5 Black Museum (6º episódio)

#6 Crocodile (3º episódio)

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