I, Tonya: A Faísca no Ringue de Gelo

Margot Robbie no papel da patinadora de gelo, Tonya Harding, em “I, Tonya”

Em toda sua vida, Tonya Harding – figura controversa do filme em questão – sempre esteve pisando descalça em uma pista de gelo. Na infância, sua mãe, que a abusa emocionalmente de todas as maneiras, lhe ensina a ser duas vezes mais fria que o chão em que se profissionaliza. Como jovem adolescente, Tonya deixa seus pés descalços dormentes ao conhecer o homem com quem se casa quando mais velha – também responsável pela geleira que virou sua vida. Dentre rotinas conflituosas, ameaças de morte e uma bala raspada, o sangue da personagem da vida real escorre e pinta suavemente o ringue. E mesmo com todo esse gelo, “I, Tonya” ainda é considerada uma comédia.

Para quem não sabe – ou nunca ouviu falar – Tonya Harding foi uma patinadora de gelo americana dos anos 90. A atleta, que futuramente se envolve em escândalos mirabolantes que são abordados no filme, provou todos os sabores amargos que a fama podia a favorecer. Em 1994, Tonya Harding foi um dos nomes citados no ataque à uma de suas rivais do ringue, a patinadora estadunidense Nancy Kerrigan. No dia 6 de janeiro, a atleta rival foi cruelmente atacada com um cacetete policial por um homem, aparentemente querendo atingir e quebrar seu joelho. As imagens marcadas na memória dos americanos foram as de Nancy Kerrigan sentada no chão, aos prantos com a dor, perguntando “por quê?”. Impossibilitada de competir, a vitória do Campeonato Nacional de Patinação Artística no Gelo em Detroit foi dada à Tonya Harding, um dos possíveis nomes cotados para a vitória. Porém, os momentos de glória de Tonya duraram pouco, uma vez que o FBI questionou-a, ao lado de seu ex-marido e seus patéticos associados. Em junho do mesmo ano, a personagem principal do filme foi impedida de continuar competindo

Diferentemente da patinação, o filme parece em partes ser um incêndio – e de uma boa maneira. Dirigido por Craig Gillespie – responsável pelo controverso “Finnest Things (2016)” – a obra soa como um “mockumentary” desconexo, pois flerta com o drama e com a comédia ao mesmo tempo – afinal a história da patinadora é uma formada por abusos em todas as suas fases – e define seu tom baseado em duas narrativas: as entrevistas do ex-casal Tonya Harding e Jeff Gillooly. Do seu grande momento até o momento em que tudo dá errado, o filme segue a premissa da não-existência de uma verdade, deixando claro, pela própria personagem principal em um monólogo, a subjetividade da história de cada um, deixando-nos a linkar a história através desses dois que deixam a narrativa extremamente controversa.

Sebastian Stan e Margot Robbie como o casal principal do filme.

Dividindo seus grandes atos entre ascensão e queda de Tonya Harding, é nos seus primeiros cinquenta minutos que o filme brilha. A primeira parte do filme tem como ponto crucial o “triple axel jump”, o pulo mais difícil de ser feito na patinação artística feminina. Ele consiste de um giro triplo durante o pulo. O filme não deixa a desejar em nenhum momento na primeira parte – talvez com as pequenas derrapadas no CGI, mas entendível – mostrando a construção de Tonya como uma pessoa conturbada depois de ter sofrido abusos dentro de casa desde que era criança até seu relacionamento – e o filme é nu e cru nesse momento, com um script onde a personagem compara seu namorado abusivo com a relação com sua mãe. Focando também em como o nicho da patinação no gelo é composta por pessoas de classe alta, o filme deixa claro de onde Tonya veio e quais foram suas implicações, desde não ser feminina demais à não ter dinheiro suficiente.

Craig Gillespie foca na relação entre Tonya e sua mãe, já que ela é pilar crucial no crescimento da mesma e na sua carreira profissional. Quando o pulo, responsável por colocar Tonya Harding como figura histórica, de fato acontece, – isso não é spoiler pois aconteceu há muito tempo – você é levado à glória junto com a menina. Essa primeira hora é sem dúvidas um dos pontos altos desse filme.

Tonya Harding (Margot Robbie) um dos momentos cruciais em mais emocionantes do filme.

É na segunda parte que o ringue de gelo começa a derreter lentamente. Englobando os bate-e-voltas da vida de Tonya e o famoso “Incidente”, nome dado pelo filme ao evento que a tornou odiada na América. É como se a narrativa se perdesse da vida de Tonya e se tornasse na verdade um esclarecimento (duvidoso, já que nenhum dos narradores é confiável) sobre o que aconteceu em 1994. Mesmo não perdendo seu ritmo, é como se perdêssemos totalmente o interesse na vida da protagonista, focando nos impasses de Jeff, o ex-marido, e os seus associados em organizar e executar o crime.

Mesmo tendo suas derrapadas em muitos momentos e uma controversa quebra da quarta parede em cenas desnecessárias, “I, Tonya” não falha em executar seu propósito: ser uma biopic de uma figura controversa na mídia. O filme não deixa de focar nos abusos cometidos de todas as partes, faz juz aos momentos mais triunfais e emocionantes da atleta e, principalmente, humaniza uma atleta de maneira justa, mostrando o resultado de anos submersa em chantagens emocionais. Dentro da pista de gelo, Tonya Harding traduzia, em faíscas, o incêndio caótico que era sua vida.

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