Discothèque #1: Miharu Koshi, Technopop oitentista e City Pop japonês

É bem claro que, ao menos no espectro da música pop, vários artistas mainstream e underground estão se devotando a uma espécie de “revival” de estéticas e sonoridades dos anos 80. Essa afirmação (até meio óbvia) pode ser ancorada na existência de álbuns pop/alternativos importantes dos últimos cinco anos que bebem dessa fonte aqui no ocidente, como o “True” da Solange, “Cupid Deluxe” do Blood Orange, “Trouble In Paradise” da La Roux e até o “E • MO • TION” da Carly Rae Jepsen. Mas essa onda de revival, claro, não é exclusiva desse lado do globo – no oriente temos exemplos importantes de artistas e grupos que se jogaram nas influências nostálgicas dessa temporalidade musical, como ESPECIA, Hitomitoi, Wonder Girls, G.RINA e, bem antes de todos, tommy february6.

Mas, se tem uma coisa em comum entre alguns dos artistas japoneses citados nessa breve introdução, é que eles não apenas são influenciados pelas várias sonoridades que formam a nossa noção do que é o pop dos anos 80 aqui no ocidente (que mescla disco, jazz, boogie e r&b), mas também buscam referência no contexto específico do pop japonês dessa década: uma fusão de ritmos e visuais retro futuristas conhecida como City Pop. O gênero é um reflexo direto da ascensão econômica do Japão durante os anos 70 e 80 e fortemente inspirado pelas vivências urbanas dessa época de ouro do país – daí o nome. E é sobre esse gênero que eu vou falar um pouco no Discothèque, um espacinho do blog destinado a comentar partes da discografia de artistas diversos que me animem o suficiente para compartilhar com os leitores daqui por algum motivo ou outro.

Eu conheci o City Pop por este post, que por sinal também foi onde entrei em contato com uma artista comumente citada quando se trata do gênero: Miharu Koshi. Meu interesse por ela surgiu de imediato porque “Scandal Night”, faixa de seu quarto álbum, é uma das músicas oitentistas mais descaradamente quirky e divertidas que eu já ouvi:

[A capa desse álbum é praticamente algo que a Sasha Velour faria num desafio drag on a dime, só que com uma sobrancelha bem mais demarcada]

Miharu começou a carreira ainda no final dos anos 70 – e aqui cabe uma consideração sobre seu estilo musical durante a década seguinte: apesar de ser muito referenciada como uma das artistas da esfera do City Pop, seu apego fiel ao gênero só durou de 1979 a 1981, pois, a partir de seu quarto álbum, ela passa a fazer músicas mais alinhadas ao Technopop e Synthpop. Confusões à parte, foi exatamente nos álbuns techno/synth dela que eu mergulhei primeiro, sendo esses o já citado quarto álbum, Tutu, de 1983, e o Parallélisme, de 1984 (e claro, aproveitando que o Jesus Wore Chanel virou um blog, eu não podia perder a oportunidade de escrever sobre a minha mais nova obsessão né?). Uma curiosidade interessante é que, ao fazer essa primeira transição sonora em sua carreira, Miharu inclusive abandonou a grafia usual de seu nome artístico, deixando de usar o alfabeto pictográfico japonês, o Kanji (comum para nomes próprios) e adotando a escrita em Katakana, um alfabeto silábico menos formal e de leitura mais prática, o que deixa a entender que a artista quis abraçar toda a modernidade e urbanidade do technopop até em seu nome.

Ambos os álbuns citados foram produzidos por Haruomi Hosono, integrante do grupo Yellow Magic Orchestra (ou YMO), que foi um nome GRANDE no Japão durante os anos 70 e 80, não só tendo popularidade com grupo musical em si, mas também notoriedade pela produção de diversos acts da época (como a cantora/idol oitentista mais popular do Japão, Seiko Matsuda). Haruomi imprime muito da marca registrada do YMO nas suas produções, prezando por sons polidos e uso abundante de ferramentas de instrumentação eletrônica disponíveis na década, como o sintetizador, que durante os anos 80 virou uma febre entre os artistas pop não só japoneses.

Voltando para a Miharu, seus álbuns technopop não são perfeitos – longe disso, já que eles mesclam o pop característico do Yellow Magic Orchestra com músicas em tom mais ~experimental~ e avant-garde numa coisa só, jogando a coesão pra beeeem longe. Eu particularmente gosto dessa diversidade, mas confesso que qualquer pessoa mais pitchfoker se assustaria ao ouvir faixas rebuscadas como “L’amour… Ariuwa Kuro No Irony” serem sucedidas na tracklist por canções bobinhas e bubble pop como “Sugar Me”. A Miharu por sinal se dá muito bem cantando bubble pop açucarado que parece música de idol oitentista (ela até faz voz mais infantil nesses registros, interpretação é isso né amores?), como “Capricious Salad”, um dos pontos altos do quinto álbum dela:

[Nessa capa sim a Sasha Velour estaria super orgulhosa das sobrancelhas *ooo*]

Mas o que eu mais gosto nessa fase do trabalho da Miharu são exatamente as faixas que flertam com um pop mais avant-garde mesmo. E disso o Tutu e Parallélisme estão recheados: faixas como “Laetitia”, “L’amour… Ariuwa Kuro No Irony” e “Toubousha” são grandes destaques nesse aspecto. Nessas gravações, Miharu geralmente canta em tons mais sóbrios, quase fantasmagóricos em algumas partes, usando excessivamente melismas nas composições vocais enquanto os instrumentais trazem elementos sofisticados para a época (um pop maduro que eu só consigo comparar às faixas mais refinadas da Grace Jones, como “Libertango“). Essas canções são melhores que muita coisa que cantoras mainstream dos anos 80 lançavam aqui no ocidente… e, pensando bem, até nomes como Madonna só vieram chegar a flertar com esse nível de maturidade e exoticismo musical lá pros anos 90. Por sinal, esse é só o começo da exploração da Miharu nessa vertente sonora, que ela abraçaria com mais vigor junto à música clássica em seu sexto álbum, “Boy Soprano”, de 85 (mas isso fica pra talvez (!) outro post).

É interessante saber que existiu uma exploração tão marcante de sonoridades nessa época no Japão, mas um pouco decepcionante pensar que esse material vai ficar sempre limitado ao conhecimento de um grupo pequeno de pessoas – mesmo com a internet. Percebi isso mais claramente quando fui atrás das letras dos álbuns e não consegui achar nenhum domínio que compilasse elas, nem que estivessem completamente em japonês e sem romanização. O máximo que achei foi a letra da faixa título do Parallélisme, transcrita do próprio encarte do álbum e que, de acordo com o google tradutor, parece até letra de alguma música que o Suiyoubi No Campanella lançaria hoje em dia (será que foi daí que o grupo ganhou a mania de compor letras listando coisas aleatoriamente? 💋 ). Nem mesmo os vídeos da Miharu são fáceis de achar, onde o único material videográfico aparente da artista no youtube são poucas performances em programas de tv (destaque para as de Parallélisme e Decadence 120 ao final desse post) e alguns de seus clipes, como Heidenröslein e Petit Paradis (todos em qualidades pífias, diga-se de passagem).

Por fim, um ponto importante que destacaria sobre a Miharu Koshi é o controle criativo dela sobre o próprio material. Pela internet e locais escassos onde o público discute sobre a música dela, é muito comum ver comentários onde as pessoas vangloriam o Haruomi Hosono como a grande mente genial por trás da qualidade do trabalho da artista e também sobre sua mudança de direcionamento musical no início dos anos 80. Isso provavelmente acontece porque, é claro, até hoje há uma cultura de atribuir feitos musicais sempre a homens, menosprezando o papel de artistas femininas em seus próprios processos criativos (ainda mais quando há um nome importante como o do Haruomi no meio). É claro que o Haruomi e o Yellow Magic Orchestra tiveram impacto significativo na carreira da Miharu, mas a artista tem créditos como compositora e letrista em basicamente todas as músicas do Tutu e Parallélisme, com o Haruomi limitando-se aos âmbitos da produção e arranjos. De fato, Miharu e Haruomi algum tempo depois até fizeram um álbum conjunto dividindo também a produção, sem contar que a artista é quase sempre referida como alguém que podia “facilmente ser uma integrante feminina do YMO”. Sendo assim, é importante a valorização do talento e criatividade da Miharu em todas as músicas incríveis que integraram a sua epoque de tecno – como ela mesma define esses discos. #mili

Por enquanto nada da Miharu está disponível em plataformas de streaming, mas quem estiver interessado pode achar álbuns completos da artista no youtube ou em sites de download que não vou linkar aqui. Nos álbuns seguintes a cantora vai explorar mais e mais sonoridades, como o jazz e a música clássica europeia, então quem sabe pinte mais um ou outro pedacinho da discografia dela aqui no Jesus Wore Chanel. Esse post foi escrito com a ajuda de amplos conhecimentos musicais compartilhados no Rate Your Music (risos) e no Kayo Kyoku Plus, que possui uma quantidade incrível de conteúdo sobre música japonesa. Até a próxima!

#miharukoshi #jpop #citypop #haruomihosono #yellowmagicorchestra #discotheque #matéria

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